{"id":2548,"date":"2020-11-30T02:12:10","date_gmt":"2020-11-30T02:12:10","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2548"},"modified":"2020-11-25T10:41:53","modified_gmt":"2020-11-25T10:41:53","slug":"a-mariposilha-branca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-mariposilha-branca\/","title":{"rendered":"A Mariposilha Branca"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong> Os dias est\u00e3o mais e mais curtos: despertam mais tarde e a noite cai sobre n\u00f3s mais cedo, o sol n\u00e3o aquece tanto e as \u00e1rvores despem-se das folhas. Dentro em breve tudo o mais morrer\u00e1 para renascer na primavera. Imposs\u00edvel, por isso, n\u00e3o pensar no fim, pois tal como caem as folhas sobre os passeios, cai o frio sobre n\u00f3s. E fechamo-nos em casa. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o frio e a chuva que nos encarceram em casa; temerosos tamb\u00e9m nos reclu\u00edmos por causa da covide, com medo dos cont\u00e1gios que n\u00e3o param de crescer \u00e0 nossa volta! Enfim, parece-nos que s\u00f3 estamos seguros no resguardo do lar. E presos ali e ali limitados a quatro paredes e ao teletrabalho, \u00e9, por\u00e9m, imposs\u00edvel que, de quando em vez, n\u00e3o nos assaltem pensamentos sobre o dia em que tamb\u00e9m sobre n\u00f3s descer\u00e1 o v\u00e9u do <em>the end<\/em> e seremos levados a julgamento diante do trono do Alt\u00edssimo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong> Neste enclausuramento a que o inverno nos obriga e a que nos impele o medo ao novo coronav\u00edrus, dei por mim a lembrar-me da for\u00e7a transformadora da par\u00e1bola do bicho da seda contada por Santa Teresa de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>Creio que nos far\u00e1 bem medit\u00e1-la, n\u00f3s que estamos a celebrar o \u00faltimo domingo do ano crist\u00e3o, e nos aprestamos a iniciar um novo. (Havemos de notar que neste domingo o evangelho nos chama a ju\u00edzo, n\u00e3o s\u00f3 aos enclausurados pelo medo e pelo inverno, mas a todos \u2014 a todos mesmo \u2014, pois que o processo de transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 caminho a que tarde ou cedo n\u00e3o escapamos, e sobre cujos frutos um dia prestaremos contas.)<\/p>\n\n\n\n<p>Creio bem que este punhado de adversidades (ou potencialidades?) que nos cercam bem pode ser usado por Deus para mais nos atrair ao seu cora\u00e7\u00e3o e nos transformar rumo \u00e0 uni\u00e3o total com Ele. Sim, o seu amor tudo pode.&nbsp; E mal estar\u00edamos n\u00f3s se o poder do amor n\u00e3o fosse transformante e capaz de nos oferecer um rumo para a liberdade, a beleza e a grandeza de Deus presente no comum das rela\u00e7\u00f5es humanas do dia a dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a beleza de tal transforma\u00e7\u00e3o a que todos estamos chamados, diz Santa Teresa no seu livro Castelo Interior:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong> <em>\u00ab<\/em><em>Eis como se cria a seda: Os ovos eclodem com o calor, quando come\u00e7a a haver folhas nas amoreiras; ent\u00e3o, esse bichinho que estivera como morto come\u00e7a a viver. E quando crescem as folhas, cada verme alimenta-se e com a boquinha, vai fiando a seda, que tira de si mesmo. Tece um casulinho muito apertado, onde se encerra; ent\u00e3o desaparece o verme, que \u00e9 muito feio, e sai do mesmo casulo uma borboletinha branca, muito graciosa.<\/em><em>\u00bb<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.<\/strong> Na par\u00e1bola o bicho da sede cresce, vai duma situa\u00e7\u00e3o de aparente n\u00e3o vida para a vida, e depois de ter crescido, come\u00e7a a alimentar-se para, j\u00e1 adulto, fiar, com a boca, o casulo, onde se fecha, para de seguida abandon\u00e1-lo feito uma bela mariposilha branca.<\/p>\n\n\n\n<p>A par\u00e1bola de Santa Teresa de Jesus tem tudo o que poder\u00e1 fazer destes dias de confinamento um poderoso movimento da gra\u00e7a divina em favor da humanidade: um bichinho (feio), um casulinho (confinamento), um processo de transforma\u00e7\u00e3o (mariposilha branca). Creio que aqui est\u00e1 tudo, e nem faltam sequer as boas obras (o fio da seda) em favor dos demais!<\/p>\n\n\n\n<p>Estes duros dias que nos toca viver, s\u00e3o, pois, uma graciosa oportunidade de radical transforma\u00e7\u00e3o de bichinho feio em bela mariposilha branca, apesar de se apresentarem t\u00e3o adversos pelo quanto transportam no ventre e que tanto nos assustam: infec\u00e7\u00f5es incont\u00e1veis, dor pr\u00f3pria e alheia, e a trag\u00e9dia da morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim s\u00e3o os santos: veem luz onde n\u00f3s s\u00f3 vemos uma horrenda e dura noite escura. Ali\u00e1s, talvez mais poeticamente, num curto verso, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, esperan\u00e7adamente, declarou o mesmo, ao dizer: <em>\u00ab<\/em><em>Matando, morte em vida me tens trocado<\/em><em>\u00bb.<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.<\/strong> Sim, vivamos estes dias da<em> era da covide<\/em> com perspectiva de grandeza: algo no bichinho feio que somos tem de morrer no casulo das nossas moradas, para que passada a tribula\u00e7\u00e3o, a mariposilha que estamos chamados a ser, se liberte e se encante com a luz quente do sol e o perfume das flores!<\/p>\n\n\n\n<p>Sejamos expectantemente positivos, portanto; desafiadoramente positivos. O que, por\u00e9m, n\u00e3o nos livrar\u00e1 de termos de levar em conta que mesmo sendo uma mariposilha \u2014 e que beleza, que beleza se tal suceder ainda nesta terra de peregrinos! \u2014, um dia vamos a contas com Deus. Sim, que de contas a prestar fala o evangelho deste \u00faltimo domingo do ano crist\u00e3o. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que no fim vamos todos, todos mesmo, a ju\u00edzo? E que tal como um pastor sabe distinguir e separar cabras de ovelhas, assim tamb\u00e9m o Supremo Juiz saber\u00e1 distinguir e apartar quem merece o pr\u00e9mio da vit\u00f3ria (os bons) e o pr\u00e9mio da abomina\u00e7\u00e3o (os maus)!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6.<\/strong> Contemplemos neste \u00faltimo domingo do ano crist\u00e3o a nossa vida desde o espelho da nossa f\u00e9: Jesus, que, sem condi\u00e7\u00f5es, entregou a sua vida pela salva\u00e7\u00e3o de todos; e tenhamos, pois, por certo, que tal ju\u00edzo s\u00ea-lo-\u00e1 tamb\u00e9m para n\u00f3s, claro. E, curiosamente, n\u00e3o ser\u00e1 nem sobre o muito que acredit\u00e1mos, nem sobre o muito que rez\u00e1mos, nem sobre o muito que pens\u00e1mos em Deus. Ser\u00e1 antes sobre o que fizemos e sobre o que n\u00e3o fizemos aos mais pequeninos e aos fr\u00e1geis. O que, pois, nos h\u00e1-de salvar (transformando-nos definitivamente em mariposilhas brancas) ser\u00e1&nbsp; o bem feito aos mais pequeninos, que eles s\u00e3o no hoje da nossa vida o rosto e o corpo sofredor de Cristo: se v\u00eas um pobre v\u00eas a Cristo, pelo que ser\u00e3o, eles, os pobres, os teus ju\u00edzes, no Ju\u00edzo Final!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>7.<\/strong> Sim, iremos a ju\u00edzo, n\u00e3o tenhamos d\u00favidas; mas como disse um santo: se em tal ju\u00edzo eu tivesse de escolher o juiz entre a minha m\u00e3e e Deus, eu escolheria sempre Deus!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1. 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