{"id":2516,"date":"2020-10-31T15:06:42","date_gmt":"2020-10-31T15:06:42","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2516"},"modified":"2020-10-28T14:03:44","modified_gmt":"2020-10-28T14:03:44","slug":"contributo-para-o-resgate-da-memoria-de-frei-joao-da-ascensao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/contributo-para-o-resgate-da-memoria-de-frei-joao-da-ascensao\/","title":{"rendered":"CONTRIBUTO PARA O RESGATE DA MEM\u00d3RIA DE FREI JO\u00c3O DA ASCENS\u00c3O"},"content":{"rendered":"\n<p>CARMELITA DESCAL\u00c7O (S\u00c3O ROM\u00c3O DO NEIVA,1787 \u2013 BRAGA,1861)<\/p>\n\n\n\n<p><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong> Nasceu no dia 26 de Outubro de 1787, na freguesia de S\u00e3o Rom\u00e3o do Neiva, concelho de Viana do Castelo. Foi baptizado no Dia de Todos os Santos na igreja paroquial, com o nome de Jo\u00e3o Lu\u00eds. Foram seus padrinhos Bernardo Peyxoto de Barros, seu tio materno e doutor em leis, e a Madre Rosa de Jesus Maria, religiosa beneditina, do mosteiro de Santa Anna de Vianna. Era filho leg\u00edtimo de Manoel Dias Delgado e Francisca Maria Peyxoto; o pai provinha de lavradores abastados daquela freguesia, sua m\u00e3e, de Alvar\u00e3es, no termo de Barcelos, pertencia a linhagem consagrada \u00e0s leis. Do casal nasceram oito filhos; o sexto, Manoel Joaquim, ordenou-se sacerdote na S\u00e9 de Braga, e foi p\u00e1roco de S\u00e3o Miguel de Alvar\u00e3es; o oitavo \u00e9 o nosso Jo\u00e3o Lu\u00eds, que pr\u00f3ximo dos 16 anos deixou a casa paterna, para entrar no Noviciado dos Carmelitas Descal\u00e7os, no convento de Nossa Senhora dos Rem\u00e9dios, em Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>Na fam\u00edlia aprendeu as primeiras letras e a l\u00edngua e cultura latinas, o que n\u00e3o nos deve surpreender; pode t\u00ea-las aprendido ou com o irm\u00e3o Pe. Manoel Joaquim, ou na casa dos av\u00f3s paternos, pois ali havia cabedal para tanto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong> Entrou no Noviciado dos Carmelitas Descal\u00e7os no dia 27 de junho de 1803, onde recebeu o nome de Frei Jo\u00e3o de S\u00e3o Cirilo. N\u00e3o conhecemos, por\u00e9m, a origem da sua voca\u00e7\u00e3o carmelitana. Se \u00e0 data da tomada de h\u00e1bito tinha j\u00e1 um irm\u00e3o sacerdote na Arquidiocese de Braga, ignoramos por que raz\u00e3o Jo\u00e3o Lu\u00eds n\u00e3o seguiu os passos de Manoel Joaquim. O certo \u00e9 que na fam\u00edlia existe uma fort\u00edssima devo\u00e7\u00e3o mariana, como se pode verificar pela erec\u00e7\u00e3o da pequena capela dedicada \u00e0 Virgem do Carmo, encargo que parece ter reca\u00eddo sobre os ombros do Pe. Manoel Joaquim. Esta capela ainda existe, encontra-se adossada \u00e0 casa familiar e \u00e9 testemunho da venera\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia \u00e0 M\u00e3e de Jesus. A proximidade do convento de Nossa Senhora do Carmo de Viana tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 de enjeitar.<\/p>\n\n\n\n<p>Conclu\u00eddo o Noviciado a 28 de junho de 1804, iniciou, de seguida, a sua forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e teol\u00f3gica nos col\u00e9gios superiores da Ordem: de outubro de 1804 a fevereiro de 1805 fez o coristado no convento do Carmo do Porto, que correspondia a um refor\u00e7o das letras e do latim; de outubro de 1805 ao Pentecostes de 1808 cursou Filosofia no col\u00e9gio do Carmo de Figueir\u00f3 dos Vinhos; de outubro de 1808 ao Pentecostes de 1811, Teologia, no col\u00e9gio do convento do Carmo de Braga; e de outubro de 1811 ao Pentecostes de 1814 cursou Teologia Moral no mesmo col\u00e9gio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao todo foram dez anos de intensa forma\u00e7\u00e3o nas ci\u00eancias eclesi\u00e1sticas, com uma crise de escr\u00fapulos pelo meio, que, verdadeiramente, nunca ter\u00e1 sido superada.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 23 anos foi ordenado sacerdote nos dias de Natal de 1810, a 27 de dezembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o tri\u00e9nio de Teologia Moral foi escolhido como passante, o que significava que cursando como sacerdote, simultaneamente, era preparado como professor dos col\u00e9gios da Ordem em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"587\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Frade_net-587x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2517\" srcset=\"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Frade_net-587x1024.jpg 587w, https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Frade_net-172x300.jpg 172w, https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Frade_net.jpg 589w\" sizes=\"(max-width: 587px) 100vw, 587px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong> Ap\u00f3s os exames de Teologia Moral, em fins de maio de 1814, foi enviado de Braga para o pequenino conventinho do Carmo de Vila do Conde, onde permaneceu at\u00e9 ao ver\u00e3o de 1816. Os seus trabalhos foram ali os t\u00edpicos dum sacerdote carmelita: com preponder\u00e2ncia para o Of\u00edcio Divino, celebra\u00e7\u00e3o da Missa e servi\u00e7o de confiss\u00f5es; se este nos parece hoje um programa pouco ousado, o certo \u00e9 que a Frei Jo\u00e3o jamais se aplicar\u00e1 um refr\u00e3o t\u00edpico dos seus dias: \u00abNa Igreja quem n\u00e3o sabe outra coisa diz Missa, na Revolu\u00e7\u00e3o quem n\u00e3o sabe mais nada diz asneiras\u00bb. Al\u00e9m destes menesteres, cabia-lhe ainda o de sair do convento, juntamente com um companheiro, para esmolar nas quintas e casais mais abastados das redondezas, of\u00edcio que visivelmente lhe repugnava. Talvez por isso, n\u00e3o espanta que do final do ver\u00e3o de 1816 ao ver\u00e3o de 1817 elegesse ingressar, por um ano \u2014 de facto, n\u00e3o podia pedir mais que um ano \u2014no mosteiro de Santa Cruz do Bu\u00e7aco, por ali se professar uma vida de profunda penit\u00eancia e absoluta solid\u00e3o, grandemente vivida em isolamento, nas ermidas espalhadas pelo frondoso monte do Bu\u00e7aco, que ao tempo replicava o per\u00edmetro da cidade santa de Jerusal\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.<\/strong> Findo o ano de solid\u00e3o no Santo Deserto do Bu\u00e7aco, o famoso \u00abc\u00e9u ao contr\u00e1rio\u00bb, por se encontrar estacionado na terra, o Cap\u00edtulo Geral de julho de 1817 entregou-lhe patente para ensinar, pelo que se p\u00f4s a caminho do convento de Nossa Senhora dos Rem\u00e9dios de \u00c9vora. Era o pino de ver\u00e3o quando ali chegou. Uma vez ali, pontificou como presidente das confer\u00eancias morais, cujo exerc\u00edcio comunit\u00e1rio apenas o ocupava uma vez na semana, sendo o restante do tempo ocupado na prega\u00e7\u00e3o na igreja conventual e nas das redondezas, e na direc\u00e7\u00e3o das almas. O tempo que na regi\u00e3o pontificou foi curto, \u00e9 verdade, mas a mem\u00f3ria da sua prega\u00e7\u00e3o prolongou-se por d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>No tri\u00e9nio de 1818-20 ensinou Filosofia no col\u00e9gio de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz de Carnide, em Lisboa; e de 1820-26, Teologia Dogm\u00e1tica no col\u00e9gio de S\u00e3o Jos\u00e9, em Coimbra; e de 1929-32, Teologia Moral, de novo em \u00c9vora.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1832 foi reeleito prior do convento de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz de Carnide, que viria a ser clausurado um ano depois, por ordem d\u2019El Rei D. Pedro, que legislando desde os A\u00e7ores dava in\u00edcio \u00e0 sua reforma geral eclesi\u00e1stica. Durante o ver\u00e3o ter-se-\u00e1 deslocado para o convento do Carmo de Santa Teresa de Jesus, em Santar\u00e9m, donde saiu, segundo not\u00edcias que possu\u00edmos, em outubro desse ano para o de Braga, em cujo col\u00e9gio superior deixou um punhado de jovens formandos.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de aqui instalar aquele pequeno grupo, aqui deve ter descansado uns dias, talvez at\u00e9 ao Natal, partindo depois para o convento do Carmo de Viana do Castelo, onde permaneceu algum tempo, e donde houve de sair por ter come\u00e7ado a ser ali perseguido; chegado \u00e0 casa paterna, ali levou vida recolhida e discreta, dizendo Missa todos os dias, portando sempre o h\u00e1bito castanho de Nossa Senhora do Carmo, donde lhe advieram inc\u00f3modos v\u00e1rios, que o levaram a trasladar-se para casa de uma irm\u00e3 e seu cunhado, em Ponte da Barca. Ali continuou intensa vida de ora\u00e7\u00e3o, sempre discreto, e sempre revestido do h\u00e1bito carmelita, e celebrando sempre Missa, abertamente, numa capela pr\u00f3xima. E tamb\u00e9m ali despontaram os inc\u00f3modos, ao ponto de uma noite ter sido aprisionado por uma chusma de jan\u00edzaros. Encarcerado a sete chaves por entre gra\u00e7olas e faltas de respeito, logo que apresentado a tribunal, prescindiu de defesa por preferir defender-se a si mesmo, arguindo com tal acerto e sabedoria contra os defensores da Carta Constitucional, provando que o seu arresto contradizia as liberdades que aquela pronunciava, pois a Carta n\u00e3o permitia a pris\u00e3o de algu\u00e9m sem culpa formada. E foi liberto com as desculpas do tribunal, que o n\u00e3o obrigou a retirar o h\u00e1bito. Ap\u00f3s este ingl\u00f3rio sucesso regressou, novamente, a S\u00e3o Rom\u00e3o, onde n\u00e3o restou muito tempo, por a sua presen\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o ser grada entre os seus. Diz-se ainda hoje, que ao ser dali escorra\u00e7ado \u00e0 pedrada, no lugar de Al\u00e9m do Ribeiro, j\u00e1 no limite da freguesia, virando-se, os invectivou, declarando: <em>Fica-te, S\u00e3o Rom\u00e3o, e que n\u00e3o d\u00eas nem vinho nem p\u00e3o!<\/em> Se \u00e9 verdade ou n\u00e3o tal legenda, n\u00e3o sabemos, que ningu\u00e9m o sabe de ci\u00eancia certa; o certo \u00e9 que no lugar donde Frei Jo\u00e3o se despediu dos seus ainda hoje as leiras est\u00e3o pejadas de pedrinhas, que s\u00f3 empecem o cultivo e a fecundidade dos campos. Existe, contudo, um contrapeso \u00e0 legenda, pois segundo relata a mesma mem\u00f3ria popular, ao virar-se para a invectiva, lan\u00e7ou o seu cajado em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 freguesia, e no local onde este caiu, brotou uma fonte de \u00e1gua doce, que, segundo os mais antigos, jamais secou at\u00e9 aos dias de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.<\/strong> Os \u00faltimos 22 foram vividos na cidade arcebispal, em casas amigas, sobrevivendo da caridade crist\u00e3, quer de amigos quer de alheios, lamentando sempre ser-lhes pesado, no que eles assumiam como honra e b\u00ean\u00e7\u00e3o. Dedicava-se intensamente \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, segundo as regras da Ordem; \u00e0 mortifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 penit\u00eancia (foi neste tempo que passou a rezar o Brevi\u00e1rio de joelhos); \u00e0 caridade e ao sufr\u00e1gio das almas, percorrendo incans\u00e1vel e demordamente os claustros conventuais da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Por onde passou, passou am\u00e1vel, humilde e bondoso, pelo que sempre foi mui respeitado, quer pelos humildes, com quem mais se identificava e a quem mais servia, quer pelas personagens ilustres da cidade e do reino.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo pobre e de tudo carecendo, nada pedia para si, mas promovia, o mais anonimamente poss\u00edvel, a ajuda a pessoas e fam\u00edlias de pobreza envergonhada, e provia de forma\u00e7\u00e3o e de dote as jovens mulheres que desejavam consagrar-se a Deus, nalgum mosteiro da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A ele que em tudo e sempre apenas desejou ser carmelita perfeito, Braga de meados do s\u00e9c. XIX chamou \u00abo Fradinho do Carmo\u00bb e \u00abo Santinho do Carmo\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Morreu no s\u00e1bado 16 de mar\u00e7o de 1861, depois de prolongada crise de escr\u00fapulos causada n\u00e3o por defeitos reais, mas, segundo o que costuma suceder, por temor do menor defeito.<\/p>\n\n\n\n<p>O seu funeral realizou-se no dia 18, segunda-feira, e foi oficiado pelos seus irm\u00e3os carmelitas descal\u00e7os ainda residentes na cidade e por alguns outros eclesi\u00e1sticos. Concorreram \u00e0quelas celebra\u00e7\u00f5es f\u00fanebres algumas pessoas respeit\u00e1veis da cidade, mais de cem alunos das aulas maiores do segundo e terceiro ano do Semin\u00e1rio Arquiepiscopal, e todos os alunos do Semin\u00e1rio de S\u00e3o Caetano, que instru\u00eda e encarreirava os \u00f3rf\u00e3os da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Sepultado o seu corpo na Igreja de Nossa Senhora do Carmo de Braga, do lado do Evangelho, junto do arco cruzeiro, encontra-se, hoje, por\u00e9m, em lugar secund\u00e1rio e esquecido.<\/p>\n\n\n\n<p>A seu tempo, espantado com o fen\u00f3meno, Camilo Castelo Branco foi um dos que engrossaram a longa fileira de romeiros que visitavam o seu t\u00famulo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6.<\/strong> Completam-se em 2021, os 160 anos da sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>7.<\/strong> Sirva o avivar da sua mem\u00f3ria como introito ao nosso louvor \u00e0s maravilhas de Deus, que sempre cuida e ampara o caminhar do seu povo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CARMELITA DESCAL\u00c7O (S\u00c3O ROM\u00c3O DO NEIVA,1787 \u2013 BRAGA,1861) Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1. 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