{"id":2513,"date":"2020-10-31T03:05:01","date_gmt":"2020-10-31T03:05:01","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2513"},"modified":"2020-10-28T14:00:21","modified_gmt":"2020-10-28T14:00:21","slug":"a-palavra-ao-amor-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-ao-amor-iii\/","title":{"rendered":"A palavra ao amor! \u2014 III"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Continuamos \u00e0 procura do sentido original do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos. \u00c9 o livro da B\u00edblia que privilegia o ressoar das palavras e o palpitar do amor humano. Palavras incandescentes s\u00e3o as primeiras: \u201cQue ele me beije com beijos da sua boca!\u201d (1,2). Atiram logo com o leitor para o fogo do amor \u2013 \u201cfogo que arde sem se ver\u201d (diria Cam\u00f5es) \u2013, onde arder\u00e1 at\u00e9 ao fim do poema: \u201cForte como a morte \u00e9 o amor\u2026 \/ Arder de fogo \u00e9 o seu arder, \/ \u00e9 chama divina\u201d (8,6). Se o leitor tem mem\u00f3ria cl\u00e1ssica, ouvir\u00e1 o eco das palavras abrasadas de Catulo (\u2020 em Roma, 54 a.C.) \u00e0 sua amada (<em>Elegias<\/em>, 5): \u201cD\u00e1-me mil beijos, depois cem, depois outros mil, depois outra vez cem, depois ainda outros mil, depois cem\u201d. A intensidade do beijo inaugural no C\u00e2ntico exprime em profundidade o <em>humano<\/em> enquanto \u2018ser para o outro\u2019; \u00e9 o \u00e1timo de eternidade que inaugura a fus\u00e3o dos amantes numa s\u00f3 pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo que n\u00e3o entenda inteiramente algumas express\u00f5es, o leitor do C\u00e2ntico vai ficando irresistivelmente atra\u00eddo e extasiado tamb\u00e9m pela do\u00e7ura penetrante: \u201co seu fruto [da amada] \u00e9 doce na minha boca\u201d (2,2). O do C\u00e2ntico \u00e9 o amor c\u00e2ndido, belo, emocionado e constante, entre um homem e uma mulher enamorados, que contemplam desarmados a beleza um do outro, se olham e se descobrem, se dizem e se valorizam mutuamente, se procuram e se encontram com gozo imperturbado, numa estreita teia de rela\u00e7\u00f5es, no fasc\u00ednio e na d\u00e1diva desinteressada de um ao outro, inebriados com o mesmo n\u00e9ctar, numa catadupa de sentimentos, no id\u00edlio intensificado pelo arroubamento de ambos face ao encanto da natureza virgem dos campos: \u201cFala o meu amado e diz-me: \/ Levanta-te, anda, minha amada, minha bela, vem da\u00ed\u2026; \/ despontam as flores na terra, \/ chegou o tempo das can\u00e7\u00f5es \/ e a voz da rola j\u00e1 se ouve na nossa terra; \/ a figueira faz brotar os seus figos \/ e as vinhas floridas exalam perfume\u201d (2,10-13). Ela corresponde: \u201cAnda, meu amado, \/corramos para o campo, \/ passemos a noite sob os cedros, \/ madruguemos pelos vinhedos\u2026 \/ Ali te darei as minhas car\u00edcias\u201d (7,12-13). Os dois amantes cantam o amor de um pelo outro. Cada um chama \u201camor\u201d ao outro: \u201cEu vos conjuro, filhas de Jerusal\u00e9m\u2026, n\u00e3o desperteis nem perturbeis o amor, enquanto ele n\u00e3o quiser\u201d (2,7; 3,5; 8,4); \u201ccomo \u00e9s bela, como \u00e9s desej\u00e1vel, amor, filha de del\u00edcias! tu \u00e9s bela, minha amada\u2026, espl\u00eandida como Jerusal\u00e9m\u201d (7,7 e 6,4). A amada da sua alma enche de sentido a sua vida; e isso faz com que o amado a veja como bela, numa vis\u00e3o que \u00e9 simultaneamente consequ\u00eancia e causa do amor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, a atmosfera que envolve o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos \u00e9 a do amor humano, do amor-<em>agap\u00e8<\/em> que completa e eleva o amor-<em>eros<\/em>, ambos bem presentes: \u00e9 a do amor-<em>agap\u00e8<\/em> que se torna descoberta do outro, superando a fascina\u00e7\u00e3o pela grande promessa da felicidade, que poderia prevalecer no amor-<em>eros<\/em>: \u201cQue formoso \u00e9s, meu amado, \/ \u00c9s pura del\u00edcia!\u201d (1,15-16); \u201ccomo s\u00e3o doces as tuas car\u00edcias, minha irm\u00e3 e noiva!\u201d (4,10). Assemelha-se ao \u201c<em>Amor<\/em> [<em>Eros<\/em>, deus personificado] que deslassa\/afrouxa os membros [<em>lysim\u00e8les<\/em>]; \/ <em>Amor<\/em> doce e amargo, \/ fera subtil e invenc\u00edvel\u201d \u2013 como o canta a poetisa grega Safo (s\u00e9c. VII-VI a.C., em <em>Amor doce e amargo<\/em>, 5-7). \u00c9 o amor cantado igualmente pelo poeta grego Hes\u00edodo (s\u00e9c. VIII-VII a.C.), ao contar miticamente \u201caquilo que foi no princ\u00edpio\u201d (<em>Teogonia<\/em>, 114-122): \u201cPrimeiro foi <em>Amor<\/em> [<em>Eros<\/em>], o mais belo entre os deuses imortais, aquele que deslassa os membros [<em>lysim\u00e8les<\/em>] e que no peito de todos os deuses e de todos os homens doma a intelig\u00eancia\/cora\u00e7\u00e3o e o s\u00e1bio querer\u201d. \u00c9 o amor avassalador e palpitante, que baralha a raz\u00e3o, agita o \u00e2nimo com alegrias e dores pungentes e toca de leve o absoluto: \u00abmuito padece quem ama\u00bb \u2013 reza o cante alentejano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A linguagem do C\u00e2ntico tem uma din\u00e2mica impar\u00e1vel. O interior da sua densa simb\u00f3lica est\u00e1 tecido com um fio invis\u00edvel, que torna mais vivos todos os s\u00edmbolos, dando unidade org\u00e2nica ao(s) poema(s). A descoberta do amado e do seu esplendor s\u00f3 acontece depois de uma busca ansiosa. A presen\u00e7a \u00e9 saboreada em pleno s\u00f3 depois do amargo da aus\u00eancia. A transbordante felicidade segue \u00e0 ang\u00fastia do vazio. A procura tempor\u00e1ria \u00e9 que torna fascinante a uni\u00e3o que canta a vida num encontro surpreendente. O temor de momentos purifica a subsequente comunh\u00e3o amorosa. Cada cena do poema \u00e9 uma varia\u00e7\u00e3o na procura da satisfa\u00e7\u00e3o plena do amor. Os dois enamorados, que se movem e mant\u00eam ao mesmo n\u00edvel, s\u00e3o vida humana \u00e0 procura do amor em <em>moto cont\u00ednuo<\/em>, s\u00e3o vida enquanto busca e encontro. Ao encontrarem-se um ao outro, descobre cada um o mais verdadeiro da sua identidade, que tamb\u00e9m consiste em ser para o outro. O que afinal de contas os captura \u00e9 serem conduzidos para campos desconhecidos, de fecundidade e fertilidade, que v\u00e3o ter a caminhos novos de beleza e sabor: \u201cRoubaste-me o cora\u00e7\u00e3o, minha irm\u00e3 e minha noiva, \/ roubaste-me o cora\u00e7\u00e3o com um dos teus olhares\u201d (4,9); \u201cmelhores do que o vinho s\u00e3o os teus seios [<em>ou:<\/em> \u2026as tuas car\u00edcias \/ os teus amores]\u201d (1,2; 4,10). [continuar\u00e1]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Continuamos \u00e0 procura do sentido original do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos. \u00c9 o livro da B\u00edblia que privilegia o ressoar das palavras e o palpitar do amor humano. 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