{"id":2495,"date":"2020-09-30T02:09:26","date_gmt":"2020-09-30T02:09:26","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2495"},"modified":"2020-09-28T09:01:31","modified_gmt":"2020-09-28T09:01:31","slug":"a-palavra-ao-amor-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-ao-amor-ii\/","title":{"rendered":"A palavra ao amor! \u2014 II"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Continuamos a pensar no C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos. Diz\u00edamos que a sua interpreta\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica, com pequenas variantes, \u00e9 a leitura recebida e transmitida para a sociedade, aceite at\u00e9 hoje:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c\u00c9 bel\u00edssimo o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, onde se descreve este Deus que est\u00e1 atr\u00e1s do muro, que olha da janela, que espreita atrav\u00e9s da grade, este Deus t\u00e3o vivo, criador, fantasioso, entusiasta da vida. Do outro lado, este homem que Deus chama pomba, amigo, que no entanto est\u00e1 entre as fendas da rocha, que n\u00e3o faz ver o seu rosto e que se envergonha de se mostrar e fazer ouvir a sua voz. Deus que dan\u00e7a e o homem que se esconde\u201d: Luigi Verdi, in <em>La realt\u00e0 sa di pane<\/em> (ed. Romena; tradu\u00e7\u00e3o de Rui Martins; publicado em&nbsp;02.03.2020).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda se encontra na B\u00edblia do \u00abPontif\u00edcio Instituto B\u00edblico de Roma\u00bb, editada tamb\u00e9m no Brasil pelas Paulinas em 1967: \u201cFoi tradi\u00e7\u00e3o constante e un\u00e2nime da Sinagoga judaica e da Igreja crist\u00e3 que no C\u00e2ntico, sob a alegoria de amores profanos, se celebra o amor m\u00fatuo entre Deus e o seu povo, entre Deus e o fiel piedoso. S\u00f3 o racionalismo moderno tentou despoj\u00e1-lo dessa aur\u00e9ola divina, reduzindo-o a um eco de simples amores profanos\u2026 Frequente \u00e9 no Antigo Testamento o uso de representar a uni\u00e3o de afectos entre Deus e o seu povo no v\u00ednculo conjugal\u2026 Por conseguinte, a interpreta\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos n\u00e3o \u00e9 arbitr\u00e1ria: funda-se nos usos dos Livros Sagrados\u201d (p. 795).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta tend\u00eancia generalizada para a interpreta\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica est\u00e1 representada especialmente nalguns rabinos, em Or\u00edgenes, Guillaume de Saint Thierry, S. Bernardo de Claraval e S. Tom\u00e1s de Aquino (\u20201274). Encontra-se nos carmelitas S. Jo\u00e3o da Cruz (no seu <em>C\u00e2ntico espiritual<\/em>) e S. Teresa de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No breve coment\u00e1rio que Teresa fez ao poema b\u00edblico s\u00f3 glosou alguns vers\u00edculos, com grande espontaneidade, a partir da sua vida espiritual e m\u00edstica. Mas preocupou-se com o que hoje chamamos <em>sentido espiritual<\/em> do texto:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tomadas s\u00f3 \u00e0 letra, estas palavras [\u00abque ele me beije com beijos da sua boca\u00bb: 1\u00ba vers\u00edculo do C\u00e2ntico] causariam verdadeiro temor, se estivesse <em>em si<\/em> quem as diz; mas a quem o vosso amor, Senhor, fez sair <em>fora de si<\/em>, bem lhe perdoareis que diga isso e mais ainda (<em>Conceitos do amor de Deus<\/em>, 1,12).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Teria gostado de compreender a sua mensagem original, mas no seu tempo n\u00e3o havia meios para isso. No in\u00edcio do coment\u00e1rio \u201croga aos letrados que me declarem aquilo que o Esp\u00edrito Santo quer dizer e <em>o verdadeiro sentido<\/em> [das palavras \u00abque ele me beije com beijos da sua boca\u00bb]\u201d (<em>Conceitos do amor de Deus<\/em>, 1,8).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ora, esta inten\u00e7\u00e3o de Teresa de \u00c1vila coincide com a procura e descoberta do sentido original do texto b\u00edblico, considerada nos nossos dias \u201ca tarefa suprema\u201d da interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia: \u201co exegeta cat\u00f3lico aplique-se \u00e0 tarefa suprema de todas as que se lhe imp\u00f5em: indagar e expor <em>o verdadeiro sentido<\/em> dos sagrados Livros\u201d (PIO XII, Enc\u00edclica <em>Divino afflante Spiritu<\/em>: <em>EB<\/em> 550). O C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos \u00e9 po\u00e9tica, sim. Mas pede interpreta\u00e7\u00e3o, para o leitor n\u00e3o cair no atoleiro do fundamentalismo e em interpreta\u00e7\u00f5es subjectivistas, ditadas pela fantasia pessoal e pela especula\u00e7\u00e3o intelectual ou devocional. De resto, \u00e9 pela mensagem mais aut\u00eantica poss\u00edvel que passa a Palavra de Deus. \u00c9 por a\u00ed que podemos fazer da linguagem do C\u00e2ntico uma interpreta\u00e7\u00e3o mais consent\u00e2nea com ele do que a aleg\u00f3rica. Qual \u00e9 ent\u00e3o o seu <em>verdadeiro sentido<\/em>? Que queria dizer, <em>primeiro<\/em>, aos leitores imediatos, para depois compreendermos melhor o que quer dizer \u00e0 nossa vida <em>hoje<\/em>?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na leitura mais \u00f3bvia e atendendo aos sentimentos amorosos que suscita, a linguagem do C\u00e2ntico soa como um tocante poema de amor, de rara beleza liter\u00e1ria, express\u00e3o vibrante de intensas emo\u00e7\u00f5es entre dois enamorados. J\u00e1 o exegeta dominicano da Universidade de Coimbra, Frei Lu\u00eds de Sotomaior, tinha reparado nisso em 1599, ao interpretar o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos como uma imensa alegoria de Cristo Esposo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 primeira vista, parece ser todo um libreto de amor e profano mais que teol\u00f3gico e divino; nem parece soar ou saber a nada de divino: antes, n\u00e3o parece soar ou saber a outra coisa que n\u00e3o sejam meras car\u00edcias e del\u00edcias amorosas e profanas (<em>Cantici canticorum interpretatio<\/em>, 50, col. 1 A-B).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De facto, no s\u00e9culo I d.C. o C\u00e2ntico ainda se cantava nas tabernas, para esc\u00e2ndalo dos rabinos, que o liam como sagrado. Claramente, n\u00e3o tem linguagem religiosa nem encerra a m\u00ednima religiosidade. O nome de Deus (<em>Yah<\/em>v\u00e9) aparece uma vez (em 8,6), mas \u00e9 para significar que \u201co amor \u00e9 forte\u2026, \u00e9 como uma chama de <em>Yah<\/em>\u201d, ou seja, \u00e9 poderoso como um rel\u00e2mpago (porque parecia vir do c\u00e9u: veja Job 1,16). A poesia do C\u00e2ntico mant\u00e9m-se sempre ao n\u00edvel do jovem amor humano entre um amado e uma amada, amplexo adolescente, canto de inocentes descobertas, convite a um banquete de gratas sensa\u00e7\u00f5es. \u00c9 de veras um c\u00e2ntico ardente, sinuoso, denso de mist\u00e9rio, um \u00e1pice da poesia e do amor de todos os tempos, um momento po\u00e9tico culminante, onde o amor \u00e9 institu\u00eddo em valor por si mesmo e n\u00e3o conhece o pecado nem a vergonha ou o embara\u00e7o, nem precisa de pedir desculpa para ser aceite, nem tem de ser redimido ou salvo. \u00c9 a celebra\u00e7\u00e3o da alegria de viver e de amar, em que est\u00e1 ausente qualquer sentido de culpabilidade.&nbsp; [continuar\u00e1]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Continuamos a pensar no C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos. Diz\u00edamos que a sua interpreta\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica, com pequenas variantes, \u00e9 a leitura recebida e transmitida para a sociedade, aceite at\u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2490,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2495","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2495","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2495"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2495\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2496,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2495\/revisions\/2496"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2490"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2495"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}