{"id":2471,"date":"2020-08-31T15:17:27","date_gmt":"2020-08-31T15:17:27","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2471"},"modified":"2020-08-31T15:17:33","modified_gmt":"2020-08-31T15:17:33","slug":"a-palavra-ao-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-ao-amor\/","title":{"rendered":"A palavra ao amor!"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Amor meu, que \u00e9s tu? Onde est\u00e1s?<\/p>\n\n\n\n<p>Iniciamos esta reflex\u00e3o com um convite \u00e0 interioridade. Interessa saber o que \u00e9 o amor? \u00c9 defin\u00edvel? Ou a tentativa de defini-lo acaba por adulter\u00e1-lo? De facto, de<em>finir<\/em><em> <\/em>\u00e9, em latim, p\u00f4r \u00ab<em>finis<\/em> \u2013 <em>confim<\/em>, <em>extrema<\/em>, <em>fronteira<\/em>\u00bb: \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o n\u00edtida, bem delimitada e precisa de uma coisa. Ora, o amor, por implicar o cora\u00e7\u00e3o e os sentimentos mais do que a raz\u00e3o e o pensamento, n\u00e3o admite barreiras nem balizas. Vai sempre mais longe, al\u00e9m do calculado, esperado ou pressuposto. E quando o pensamos, sempre deixamos escapar algum perfume da sua ess\u00eancia. Nele cabem impulsos humanos desde a paix\u00e3o \u00e0 compaix\u00e3o, do afecto ao enamoramento, da caridade \u00e0 bondade, da ternura \u00e0 miseric\u00f3rdia e \u00e0 magnanimidade e ainda mais. O amor tanto \u00e9 um dos mais frequentes temas de conversa como \u00e9 opaco \u00e0s ci\u00eancias. Ali\u00e1s, sublimado e no estado mais puro, \u00e9 terreno sagrado. O que se pode \u00e9 reflectir sobre ele, ver o que amantes e amados disseram dele, fazendo com ele hist\u00f3ria humana e divina. E o que mais interessa \u00e9 fazer a experi\u00eancia dele, viv\u00ea-lo\u2026, sem esquecer que \u00e9 destino mas tamb\u00e9m viagem; \u00e9 viagem com destino. N\u00e3o nasce feito e perfeito. Vai-se fazendo, provavelmente sem alcan\u00e7ar a perfei\u00e7\u00e3o ou sem encontrar a alma g\u00e9mea, a \u00aboutra metade\u00bb (como a chamaria Plat\u00e3o). O amor ao amado tanto nasce como se aprende. \u00c9 conquista cont\u00ednua.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 dif\u00edcil de<em>finir<\/em> o amor. H\u00e1 nisto consenso alargado. Uma coisa, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil: perceber que a realidade humana polifacetada que prende a aten\u00e7\u00e3o e emerge na leitura do livro b\u00edblico C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos \u00e9 o amor, o amor na sua express\u00e3o mais pura e elevada, no desabrochar e no crescer, nas variegadas efloresc\u00eancias, nos coloridos sentimentos que envolve, nas manifesta\u00e7\u00f5es cruzadas, nas tens\u00f5es conturbadas de um amado e de uma amada \u2013 noivo ou noiva, esposo ou esposa \u2013 que se procuram mutuamente no corpo e no ser total de um e da outra. Isso \u00e9 f\u00e1cil. Surge, ainda assim, um problema. Qual \u00e9 a melhor leitura desse poema l\u00edrico incorporado nas Escrituras can\u00f3nicas de judeus e crist\u00e3os? Como l\u00ea-lo e entend\u00ea-lo?<\/p>\n\n\n\n<p>Esta quest\u00e3o sempre esteve subjacente na longa hist\u00f3ria da sua interpreta\u00e7\u00e3o ao longo de s\u00e9culos. Volta agora \u00e0 ordem do dia, quando em It\u00e1lia o actor Roberto Benigni \u2013 director e protagonista do filme de 1997 <em>La vita \u00e8 bella<\/em> (que obteve 3 \u00d3scares e mais pr\u00e9mios) \u2013 fez do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos no muito frequentado Festival da Can\u00e7\u00e3o de Sanremo, a 8.2.2020, uma leitura \u2018quente\u2019 que suscitou em toda a sociedade italiana (e n\u00e3o s\u00f3) reac\u00e7\u00f5es incendiadas e incendi\u00e1rias. Nos dias seguintes ao festival, nas pra\u00e7as, no cabeleireiro, no caf\u00e9, no restaurante, no emprego, o incontorn\u00e1vel tema de conversa era o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos. Sob inspira\u00e7\u00e3o de um golpe de g\u00e9nio, o actor levou para as ruas o C\u00e2ntico que n\u00e3o se lia nas igrejas. Fintou o p\u00fablico do festival, lendo durante 40 minutos o melhor do C\u00e2ntico e a interpreta\u00e7\u00e3o que dele fazia: \u201cPensei: n\u00e3o posso ir a Sanremo e apresentar uma can\u00e7\u00e3o qualquer; apresentarei a mais bela. E qual \u00e9 o presente mais belo que posso oferecer ao p\u00fablico de Sanremo? \u2013 A can\u00e7\u00e3o mais bela do mundo. Encontrei-a na B\u00edblia. \u00c9 o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, a can\u00e7\u00e3o mais bonita que tenha sido escrita na hist\u00f3ria da humanidade. Uma can\u00e7\u00e3o de amor, o cume da poesia de todos os tempos. \u00c9 como se apresentasse uma pe\u00e7a da Capela Sistina ou o \u00faltimo patamar da torre de Pisa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E leu os vers\u00edculos mais \u2018interessantes\u2019, com uma vers\u00e3o discut\u00edvel, sim, apimentada, desinibida, de algumas palavras e express\u00f5es relacionadas com o corpo dos amantes. Mas num ponto tem raz\u00e3o. No C\u00e2ntico, o amor f\u00edsico n\u00e3o est\u00e1 espiritualizado. \u00c9 ele que est\u00e1 em primeiro plano, despido de preconceitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Todavia, a hist\u00f3ria da sua leitura proporcionou interpreta\u00e7\u00f5es bem diferentes dessa. A <em>aleg\u00f3rica<\/em>, adoptada pela primeira edi\u00e7\u00e3o da <em>B\u00edblia de Jerusal\u00e9m<\/em> num volume s\u00f3 (1956), lia no C\u00e2ntico alus\u00f5es \u00e0 Terra Santa e ao templo de Jerusal\u00e9m. Quando o amado diz \u00e0 amada que \u201cos teus seios s\u00e3o dois filhotes g\u00e9meos de gazela\u201d (4,5 e 7,4), estaria a referir-se aos dois montes da Samaria, Garizim e Ebal, que realmente est\u00e3o um junto ao outro; e<strong>,<\/strong> quando a amada diz do corpo do amado que \u201cas suas pernas s\u00e3o pilares de alabastro assentes em bases de ouro fino\u201d (5,15), estaria a referir-se \u00e0s colunas do templo de Jerusal\u00e9m. Hoje essa interpreta\u00e7\u00e3o faz sorrir, sinal de que os estudos sobre a B\u00edblia evolu\u00edram.<\/p>\n\n\n\n<p>As leituras aleg\u00f3ricas mais frequentes apontam para um sentido m\u00edstico ou religioso. Encontram-se na grande tradi\u00e7\u00e3o judeo-crist\u00e3 p\u00f3s-b\u00edblica (Sinagoga, Igreja e m\u00edsticos crist\u00e3os), que viu no amor do amado para com a amada a melhor express\u00e3o do relacionamento de Deus com o seu povo eleito, fiel (Israel, Jerusal\u00e9m), ou do relacionamento de Jesus (considerado Esposo) com a Igreja ou com a alma crist\u00e3 (considerada esposa). N\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel uma interpreta\u00e7\u00e3o mais em harmonia com o g\u00e9nero e o teor do texto? Veremos nas pr\u00f3ximas medita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>[continuar\u00e1]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Amor meu, que \u00e9s tu? Onde est\u00e1s? Iniciamos esta reflex\u00e3o com um convite \u00e0 interioridade. Interessa saber o que \u00e9 o amor? \u00c9 defin\u00edvel? 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