{"id":2443,"date":"2020-07-31T14:16:00","date_gmt":"2020-07-31T14:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2443"},"modified":"2020-07-29T15:01:07","modified_gmt":"2020-07-29T15:01:07","slug":"assuncao-de-maria-em-corpo-e-alma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/assuncao-de-maria-em-corpo-e-alma\/","title":{"rendered":"Assun\u00e7\u00e3o de Maria em corpo e alma"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 setenta anos, a forma\u00e7\u00e3o dos futuros sacerdotes, religiosos e religiosas das Ordens e Congrega\u00e7\u00f5es insistia na exorta\u00e7\u00e3o \u00e0 penit\u00eancia, \u00e0 ren\u00fancia, \u00e0 mortifica\u00e7\u00e3o do corpo, ao sacrif\u00edcio (que se entendia como um ato essencialmente custoso, de priva\u00e7\u00e3o do agrad\u00e1vel, doce e saboroso). As pr\u00e1ticas de penit\u00eancia estavam na ordem do dia: mortificar os sentidos, o ouvido, a vista, o gosto. Recomendava-se ao novi\u00e7o usar instrumentos penitenciais (o cil\u00edcio de corda ou de arame), para domar o corpo. Tr\u00eas vezes \u00e0 semana havia autoflagela\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria (alguns sangravam). H\u00e1 cem anos os frades ainda pulverizavam a comida com absinto ou com sumo amargo de alo\u00e9s. O corp\u00f3reo, f\u00edsico, material deveria ser afastado, recusado.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa desconsidera\u00e7\u00e3o pelo corpo ainda n\u00e3o morreu. Anda por a\u00ed, camuflada. Tem lastro antigo. J\u00e1 na Igreja primitiva algumas correntes espirituais falsearam a pureza da mensagem crist\u00e3. A heresia dos gn\u00f3sticos entendeu que s\u00f3 o <em>melhor<\/em> do humano (a alma) gozaria da eterna <em>Plenitude<\/em> junto de Deus. \u00c9 dualista. V\u00ea o mundo originado de dois Princ\u00edpios: um Princ\u00edpio das realidades espirituais (alma\u2026), que seria o Deus bom; e um Princ\u00edpio das realidades materiais (mundo, corpo\u2026), que seria o Deus mau. Sempre foi condenada pela Igreja. Mas ainda n\u00e3o foi vencida! Seduziu muitos crist\u00e3os, que, com boa inten\u00e7\u00e3o e para exaltar os valores do esp\u00edrito, maltrataram o corpo humano, lidaram mal com o matrim\u00f3nio, com a sexualidade\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, a 1.11.1950 Pio XII deu corpo \u00e0 f\u00e9 tradicional da Igreja, numa liturgia da f\u00e9 que proclamava a Assun\u00e7\u00e3o de Maria ao c\u00e9u: \u201cDefinimos como dogma revelado por Deus que a Imaculada sempre Virgem Maria, M\u00e3e de Deus, ao fim do curso da vida terrena foi elevada em corpo e alma \u00e0 gl\u00f3ria celeste\u201d. Pouco depois da carnificina da II Guerra Mundial, com esta festa o Papa valorizava de novo a dimens\u00e3o corporal do humano. A desvaloriza\u00e7\u00e3o do corpo j\u00e1 n\u00e3o encontrava fundamento na mensagem b\u00edblica de Jesus e dos ap\u00f3stolos. Mesmo quando a filosofia grega influenciou a B\u00edblia contrapondo o corpo \u00e0 alma (\u201co corpo corrupt\u00edvel deprime a alma e a tenda terrestre oprime a mente que pensa muito\u201d: Sab 9,15), s\u00f3 oferecia uma imagem \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana prec\u00e1ria e indicava as dificuldades no caminho espiritual. Nunca Jesus disse que Deus s\u00f3 se interessa pela alma e que s\u00f3 ela foi redimida. A Igreja sempre afirmou que quem ressuscita (como Jesus assegurou) \u00e9 o ser humano total. E, quando professa a Assun\u00e7\u00e3o de Maria em corpo e alma ao c\u00e9u, n\u00e3o nega a decomposi\u00e7\u00e3o do seu cad\u00e1ver no t\u00famulo. Quer significar a glorifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 da alma mas da sua <em>pessoa<\/em> <em>toda<\/em>, na total comunh\u00e3o com Deus. De facto, para a antropologia b\u00edblica, <em>corpo<\/em> significa o <em>eu<\/em> da pessoa. Maria n\u00e3o \u00e9 uma semideusa, por ter dado \u00e0 luz o Filho de Deus. \u00c9 humana. E \u00e9 enquanto tal que ela foi totalmente acolhida por Deus. A sua <em>Assun\u00e7\u00e3o ao c\u00e9u<\/em> \u00e9 a sua P\u00e1scoa. Com a morte corrompeu-se o f\u00edsico; pela ressurrei\u00e7\u00e3o permaneceu a pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a f\u00e9 judeo-crist\u00e3, esta sua festa significa que em Deus h\u00e1 espa\u00e7o para o ser humano: que Ele n\u00e3o nos abandona na morte, pois o simb\u00f3lico <em>c\u00e9u<\/em> corresponde na realidade ao <em>Amor eterno de Deus<\/em> que por Jesus nos envolve para sempre. Significa que Ele tem um lugar para n\u00f3s: indo ao encontro do Amor eterno, ao fim da viagem n\u00e3o ficaremos sem estacionamento. E significa que Maria, entrando definitivamente em comunh\u00e3o com Deus, n\u00e3o se afasta dos humanos: glorificada em Deus e no Filho, est\u00e1 em comunh\u00e3o connosco. Temos uma M\u00e3e \u00e0 espera. Quando morremos, sabemos pela f\u00e9 que somos esperados: n\u00e3o ca\u00edmos no vazio, pois \u201cCristo em v\u00f3s \u00e9 a esperan\u00e7a da gl\u00f3ria\u201d (Cl 1,27). Conforta-nos pensar que em Deus e em Jesus os nossos familiares e amigos est\u00e3o \u00e0 nossa espera e que n\u00f3s vamos juntar-nos a eles, seja qual for a sua condi\u00e7\u00e3o. Ora, quando se juntam os que se amam, tudo de bom pode acontecer, mesmo o fisicamente imposs\u00edvel (mas cr\u00edvel): \u00e9 a festa da comunh\u00e3o dos santos, que causa alegria por ser a sinfonia da esperan\u00e7a. Maria assumida por Deus simboliza o esplendor definitivo de uma Igreja a caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Deus n\u00e3o reduz a sua salva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deixa perder nada de n\u00f3s e do que nos \u00e9 querido. Ama a totalidade de cada um e quer ter-nos consigo eternamente. A sua fidelidade abra\u00e7ou Maria toda e abra\u00e7a-nos com tudo o que somos: n\u00e3o uma soma de corpo e alma, mas um todo insepar\u00e1vel de um corpo vivificado pelo esp\u00edrito. Ent\u00e3o n\u00e3o nos assiste o direito de torturar o corpo ou de depreciar a sua beleza, a sua debilidade e as suas limita\u00e7\u00f5es: enquanto parte integrante da pessoa, est\u00e1 destinado \u00e0 glorifica\u00e7\u00e3o, com a alma. Isto n\u00e3o fomenta o culto do corpo mas a cultura do corpo, tamb\u00e9m no trabalho e no desporto: fazer vivifica\u00e7\u00f5es em vez de mortifica\u00e7\u00f5es. Quem quiser, no esp\u00edrito do evangelho, \u00abtomar a sua cruz todos os dias\u00bb e seguir Jesus, fa\u00e7a o bem ao pr\u00f3ximo, d\u00ea-se de corpo e alma \u00e0 causa do evangelho, \u00e0 promo\u00e7\u00e3o dos valores da fam\u00edlia e do bem comum, amando amigos e perdoando a inimigos, mesmo que isso custe e custe muito. Essa \u00e9 a \u201coferta dos vossos corpos como sacrif\u00edcio vivo, santo, agrad\u00e1vel a Deus\u201d (Rm 12,1). Se falamos de \u00absalva\u00e7\u00e3o das <em>almas<\/em>\u00bb, n\u00e3o esquecemos o <em>corpo<\/em>: entendemos dar sentido \u00faltimo \u00e0 <em>pessoa toda<\/em> que somos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD H\u00e1 setenta anos, a forma\u00e7\u00e3o dos futuros sacerdotes, religiosos e religiosas das Ordens e Congrega\u00e7\u00f5es insistia na exorta\u00e7\u00e3o \u00e0 penit\u00eancia, \u00e0 ren\u00fancia, \u00e0 mortifica\u00e7\u00e3o do corpo, ao [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2436,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2443","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2443","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2443"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2443\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2444,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2443\/revisions\/2444"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2436"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2443"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2443"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2443"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}