{"id":2423,"date":"2020-06-30T03:09:00","date_gmt":"2020-06-30T03:09:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2423"},"modified":"2020-06-29T08:26:26","modified_gmt":"2020-06-29T08:26:26","slug":"o-amor-e-as-palavras-platao-e-jesus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/o-amor-e-as-palavras-platao-e-jesus\/","title":{"rendered":"O amor e as palavras: Plat\u00e3o e Jesus"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A can\u00e7\u00e3o italiana de 1972 atirava para o ar a quest\u00e3o batida: \u00ab\u2013 Perch\u00e9 il mondo va? \u2013 Perch\u00e9 intorno al mondo gira l\u2019amore\u00bb. O amor \u00e9 que p\u00f5e o mundo em movimento. Tal pensamento j\u00e1 contava com a concord\u00e2ncia da m\u00e1xima medieval: \u00abOs s\u00e1bios caminham, os justos correm, os enamorados voam\u00bb. E se do fim da Idade M\u00e9dia retrocedermos 1500 anos, aprendemos de Plat\u00e3o que uma express\u00e3o do Amor \u00e9 a energia que percorre a vida do mundo, constituindo a rede das suas rela\u00e7\u00f5es e dos caminhos de poss\u00edvel reencontro com o Bem. S\u00f3 o amor \u2013 com as suas ramifica\u00e7\u00f5es e encruzilhadas \u2013 \u00e9 capaz de mover o ser. S\u00f3 o amor consegue preencher todas as possibilidades de ser. Segundo Plat\u00e3o (no discurso de <em>Fedro<\/em>, 178-180b), o sentimento que guia toda a vida dos humanos pelos crit\u00e9rios da bondade \u00e9 inspirado, n\u00e3o pelo poder, pela riqueza ou pela honra, mas pelo amor. A bondade, abertura incondicional a fazer o bem, coloca-nos para l\u00e1 do <em>ser em si<\/em>: realiza o <em>ser para os outros<\/em>, prolonga o meu ser at\u00e9 ao outro, enriquecendo-o e enriquecendo-me a mim ao sentir-me aceite por ele. De facto, numa sugestiva produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, Plat\u00e3o, imaginando miticamente a origem do Amor-<em>Eros<\/em>, conta que \u00e9 filho de <em>Pobreza<\/em> (<em>Penia<\/em>) e do deus <em>Engenho<\/em> (<em>Poros<\/em>): por um lado, \u00e9 pobre, indigente, inculto; mas, pelo lado do pai, \u00e9 ousado, ca\u00e7ador astuto, \u00e1vido de sabedoria, rico de recursos e enamorado do saber, engenhoso e encantador, com expediente para anular e superar o estado natural de <em>Pobreza<\/em>, num movimento do ser que visa alcan\u00e7ar a perfei\u00e7\u00e3o poss\u00edvel (<em>Banquete<\/em>, 203c-d-e). \u00c9 o Amor-<em>Eros<\/em> antes da sua eventual pervers\u00e3o ou desumaniza\u00e7\u00e3o. Mas os gregos tinham mais palavras para designar outras val\u00eancias da incomensur\u00e1vel riqueza do amor, imposs\u00edvel de <em>dizer<\/em> numa palavra s\u00f3. As principais s\u00e3o: <em>fil\u00eda<\/em> (amor de amizade) e <em>ag\u00e1pe<\/em>, que atinge o m\u00e1ximo de gratuidade, n\u00e3o escolhe a quem amar mas ama desinteressadamente quem precisa de ser amado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Das muitas palavras que <em>dizem<\/em> o amor, a f\u00e9 b\u00edblica privilegiou <em>ag\u00e1pe<\/em>, pouco usada no grego cl\u00e1ssico (Bento XVI, <em>Deus caritas est<\/em>, 3-8). Define o pr\u00f3prio Deus (1Jo 4,8.16). E sup\u00f5e que o Amor \u00e9 eterno, em Deus. Tornou-se humano na pessoa de Jesus: \u201cTanto amou Deus o mundo que lhe deu o seu Filho unig\u00e9nito\u201d (Jo 3,16). A partir da\u00ed, porque Jesus era plenamente homem, o amor humano (o dele) era tamb\u00e9m divino: p\u00f4s o mundo a girar com outra for\u00e7a. Se j\u00e1 em Plat\u00e3o o Amor nos humanos faz com que todos participem do Bem, para Jesus o m\u00e1ximo bem \u00e9 a vida: \u201cEu vim para que tenham vida e a tenham em abund\u00e2ncia\u201d (Jo 10,10). Por isso, \u201cs\u00f3 os que amam aceitam morrer pelo outro\u201d \u2013 dizia Plat\u00e3o (<em>Fedro<\/em> 179b). Jesus concorda: \u201cEu [o Bom Pastor] dou a minha vida pelas ovelhas\u201d (Jo 10,11.15). \u201cPor isso me ama o Pai: porque dou a minha vida\u201d (Jo 10,17). O dom da vida\/ser<strong> <\/strong>\u00e9 a marca e o crit\u00e9rio do amor<strong>.<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>asdsa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Amor gera o amado, n\u00e3o enquanto pessoa mas enquanto pessoa <em>amada<\/em>: f\u00e1-lo ser ele pr\u00f3prio, d\u00e1-lhe vida, d\u00e1 a vida por ele, \u00abquer que ele seja\u00bb e contribui para isso. Este dom de vida n\u00e3o se traduz apenas numa liturgia dram\u00e1tica de morrer imediatamente pelo outro: acontece ao viver a vida pr\u00f3pria ao servi\u00e7o da do outro; \u00e9 um dom continuado at\u00e9 \u00e0 morte: \u201cJesus, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os at\u00e9 ao fim\u201d (Jo 13,1).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ser e agir do Amor, que Plat\u00e3o exp\u00f4s magistralmente nas pautas de uma partitura, foi executado perfeitamente por Jesus, revelando nas \u00faltimas horas o segredo que pautou a sua vida: que ela \u00e9 dom. Plat\u00e3o disse, S\u00f3crates fez, aceitando morrer pela sua cidade amada, Atenas. Jesus disse e fez: \u201cComo o Pai me amou tamb\u00e9m eu vos amei a v\u00f3s\u201d (Jo 15,9). \u201cNingu\u00e9m tem maior amor do que aquele que d\u00e1 a vida pelos seus amigos\u201d (Jo 15,13). \u201cN\u00e3o amemos com palavras nem com a boca mas com obras e verdade\u201d (1Jo 3,18): as palavras voam, o amor arrasta. O amor provado \u00e9 que constitui o absoluto de uma vida, porque <em>amar<\/em> \u00e9 sin\u00f3nimo de <em>ser<\/em>: \u00e9 um verbo defectivo que idealmente s\u00f3 se conjuga no infinito presente; no instante em que deixo de amar, deixo de ser.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O amor n\u00e3o \u00e9 autocentrado, n\u00e3o tende a satisfazer o desejo do pr\u00f3prio que ama, mas \u00e9 desejo de bem para o amado. \u00c9 movimento <em>altru\u00edsta<\/em>: faz irradiar o bem de si pr\u00f3prio para o <em>outro<\/em>: \u201cAmai-vos uns aos outros <em>como eu<\/em> vos amei (Jo 15,12)\u201d. Se, assim, o amor for rec\u00edproco, quando o amado ama quem o ama, \u00e9 amor perfeito, retribu\u00eddo: circula. Transforma em sinfonia a sintonia entre duas pessoas que se amam. Precisamente nisso est\u00e1 a grandeza do Amor: no difundir o Bem. Se \u00abo Ser e o Bem s\u00e3o convert\u00edveis\u00bb, o Amor difunde o Bem activamente: ao amar, d\u00e1 o Ser, \u00e9 criativo e recreativo: \u201cNingu\u00e9m tem maior amor do que aquele que d\u00e1 a vida <em>pelos<\/em> seus amigos\u201d (Jo 15,13). \u00c9 esta a l\u00f3gica do <em>maior amor<\/em>: n\u00e3o tem nem pode ter outra. A morte ideal do seguidor de Jesus (com o acordo de Plat\u00e3o) ser\u00e1, n\u00e3o simplesmente morrer, mas \u00abmorrer <em>por<\/em>\u2026\u00bb, por algu\u00e9m, mesmo no turbilh\u00e3o de uma pandemia cega, surda e absurda, se tal morte for inevit\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD A can\u00e7\u00e3o italiana de 1972 atirava para o ar a quest\u00e3o batida: \u00ab\u2013 Perch\u00e9 il mondo va? \u2013 Perch\u00e9 intorno al mondo gira l\u2019amore\u00bb. 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