{"id":2418,"date":"2020-06-30T02:28:00","date_gmt":"2020-06-30T02:28:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2418"},"modified":"2020-06-29T08:19:55","modified_gmt":"2020-06-29T08:19:55","slug":"espiritualidade-crista-em-tempo-de-isolamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/espiritualidade-crista-em-tempo-de-isolamento\/","title":{"rendered":"Espiritualidade crist\u00e3 em tempo de isolamento"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Card. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma espiritualidade em tempos de pandemia, o que \u00e9, ou melhor, o que pode ser? Porque, no fundo, estamos no improviso. \u00c9 interessante que, muitas vezes, na coreografia, na dan\u00e7a, se usa o improviso; n\u00e3o gostamos muito, porque preferimos uma vida conduzida por um gui\u00e3o; um improviso faz-nos viver o aberto; e para come\u00e7ar a falar do que \u00e9 a espiritualidade em tempos de isolamento provocado pela pandemia, tenho de dizer isto: o futuro chegou de supet\u00e3o, o futuro chegou achando-nos impreparados. Nenhum de n\u00f3s sabe como lidar com esta situa\u00e7\u00e3o. Sentimo-nos, todos, mais vulner\u00e1veis, mais prec\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 primeira vista, dizemos: aquilo que nos aconteceu \u00e9 uma distopia; \u00e9 uma calamidade; \u00e9 o contr\u00e1rio da gra\u00e7a. E, contudo, em termos de f\u00e9, temos de olhar para este&nbsp;<em>cronos<\/em>, que parece devorar a nossa for\u00e7a e a nossa esperan\u00e7a, como a possibilidade de um&nbsp;<em>k\u00e1iros<\/em>, a possibilidade de uma gra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este \u00e9 um tempo de&nbsp;<em>k\u00e9nosis<\/em>, de esvaziamento, um tempo de sil\u00eancio, um tempo em que, talvez, sintamos uma incerteza muito grande, um tempo de crise, um tempo em que parece que a vida vem menos. Um tempo prec\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas eu lembraria que a mesma raiz etimol\u00f3gica aproxima as duas palavras:&nbsp;<em>precare<\/em>, rezar, em latim, e&nbsp;<em>precarium<\/em>, o destino daquilo que \u00e9 fr\u00e1gil. A espiritualidade n\u00e3o se constr\u00f3i com a for\u00e7a. Jesus ensinou-nos isso com o mist\u00e9rio da sua P\u00e1scoa. Porque tudo tem de passar pelo mist\u00e9rio da cruz. E, por isso, este tempo, que parece s\u00f3 de calamidade, temos de o interpretar de um ponto de vista teol\u00f3gico e espiritual como um tempo de gra\u00e7a.<br>Como \u00e9 que este pode ser um tempo de gra\u00e7a? Na ora\u00e7\u00e3o que o papa organizou, na pra\u00e7a de S. Pedro, sexta-feira [27 de mar\u00e7o de 2020], que muito nos impactou, ele escolheu ler o texto do Evangelho da tempestade acalmada. E no meio da tempestade, os disc\u00edpulos perguntam a Jesus: Senhor, n\u00e3o te importas que morramos? \u00c9 uma pergunta. E este \u00e9 o tempo das perguntas, e das perguntas fundamentais. Se eu tivesse de sublinhar um ponto muito positivo desta experi\u00eancia exigente que estamos a viver, \u00e9 a qualidade das perguntas que escutamos.<br>\u00c9 como se venc\u00eassemos a banalidade, e as perguntas que ouvimos fazer uns aos outros s\u00e3o muito mais intensas, muito mais carregadas de sentido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 curioso que aqui, em It\u00e1lia, no in\u00edcio da pandemia, abriram-se gabinetes de apoio psicol\u00f3gico. E muitos idosos telefonavam, dizendo isto: eu n\u00e3o consigo rezar. E, de facto, este come\u00e7ou por ser um tempo em que parece que n\u00e3o era poss\u00edvel uma vida espiritual. Depois, descobrimos o contr\u00e1rio: que este tempo \u00e9 de uma grande intensidade espiritual. E qual \u00e9 o term\u00f3metro para perceber isso? S\u00e3o as perguntas, a radicalidade, a for\u00e7a das perguntas fundamentais que estamos a fazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pegando no discurso do papa, h\u00e1 que dizer a verdade: n\u00e3o \u00e9 a pandemia que nos adoeceu; n\u00f3s j\u00e1 est\u00e1vamos doentes. A pandemia descobriu, revelou, uma doen\u00e7a, que s\u00e3o, no fundo, os nossos estilos de vida, onde j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 alugar para o humano, n\u00e3o h\u00e1 lugar para o encontro, n\u00e3o h\u00e1 lugar para o transcendente, n\u00e3o h\u00e1 lugar para uma vida interior rica, digna desse nome, n\u00e3o h\u00e1 lugar para uma ora\u00e7\u00e3o. Tudo \u00e9 cronometrado, tudo passa pelo tax\u00edmetro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tenho um casal amigo &#8211; e \u00e9 muito belo ouvir as hist\u00f3rias que se passaram nas fam\u00edlias, porque, de certa forma, uma das coisas que este isolamento trouxe, \u00e9 a redescoberta da fam\u00edlia. Pela primeira vez muitos casais, muitas fam\u00edlias, passaram juntas um tempo de qualidade como n\u00e3o passavam h\u00e1 muitos anos, ou como nunca tinham passado \u2013 no qual um menino de cinco anos, \u00e0 mesa, disse isto: eu acho que percebo o que estamos aqui a fazer; estamos aqui a criar mem\u00f3rias. Por vezes as crian\u00e7as s\u00e3o antenas que nos ajudam a perceber o que estamos a fazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este \u00e9 um tempo de gra\u00e7a, \u00e9 um tempo para a gra\u00e7a, \u00e9 um tempo de maior gratuidade, e \u00e9 um tempo para criar. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um tempo para \u201cdescriar\u201d; n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a passividade, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o n\u00e3o fazer; \u00e9 um tempo prop\u00edcio, oportuno. Por isso, h\u00e1 aqui um chamamento a modelar o tempo do ponto de vista da f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos princ\u00edpios que o papa Francisco repete muitas vezes \u00e9: o tempo \u00e9 superior ao espa\u00e7o. Parece uma senten\u00e7a muito filos\u00f3fica, e que n\u00e3o tem uma leitura f\u00e1cil, imediata. Contudo, neste tempo de isolamento social, percebemos isso: o tempo \u00e9 superior ao espa\u00e7o. Aconteceu uma esp\u00e9cie de recuo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A m\u00edstica judaica fala numa esp\u00e9cie de \u201ctzimtzum\u201d, parece uma coisa brincada. O \u201ctzimtzum\u201d \u00e9 uma coisa inventada a partir das leituras da Cabala, segundo a qual Deus, para poder criar, teve de dar um passo atr\u00e1s, teve de se despojar de si mesmo para poder criar. Esta ideia foi retomada por autores t\u00e3o importantes na segunda guerra mundial como Simone Weil, que disseram, precisamente: o tempo da cat\u00e1strofe parece um tempo em que Deus recua, d\u00e1 um passo atr\u00e1s; contudo, \u00e9 um tempo para descobrirmos o Deus da ternura, o Deus da miseric\u00f3rdia, o Deus pr\u00f3ximo, o Deus comprometido com a pessoa humana, o Deus que est\u00e1 ao lado da v\u00edtima, ao lado do que sofre; porque o pr\u00f3prio Deus vive este recuo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma ideia curiosa, que nos deixa a m\u00edstica judaica, e que nos ajuda a pensar o que est\u00e1 a acontecer com o espa\u00e7o; est\u00e1 a acontecer o nosso \u201ctzimtzum\u201d, damos um passo atr\u00e1s para, tamb\u00e9m, ter uma vis\u00e3o cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao modo como habitamos o espa\u00e7o. Porque, muitas vezes, \u00e9 pura ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o, pura marca\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio, puro automatismo. \u00c9 uma esp\u00e9cie de coloniza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio da comunidade, ou do territ\u00f3rio p\u00fablico. \u00c9 sonambulismo existencial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u201ctzimtzum\u201d permite olhar para o tempo, n\u00e3o tanto para o espa\u00e7o, e ouvir os m\u00faltiplos tempos que existem dentro de n\u00f3s. Santo Agostinho, nas&nbsp;<em>Confiss\u00f5es<\/em>, fala de tr\u00eas presentes: o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes, e o presente das coisas futuras. O tempo \u00e9 superior ao espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este \u00e9 um tempo de grande escuta espiritual. Este \u00e9 o momento para percebermos que a vida n\u00e3o se esgota no momento, no instante, na arquitetura do quotidiano, mas que a vida tem uma respira\u00e7\u00e3o muito maior. E n\u00f3s temos de ouvir os passos do futuro, e dialogar com o futuro de outra forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o tenho d\u00favidas de que entramos numa nova \u00e9poca da hist\u00f3ria. A pandemia vai passar. Mas n\u00f3s j\u00e1 estaremos outra \u00e9poca. Culturalmente noutra \u00e9poca. Civilizacionalmente noutra \u00e9poca. Mas tamb\u00e9m espiritualmente noutra \u00e9poca da hist\u00f3ria. \u00c9 importante que em termos da espiritualidade tamb\u00e9m nos preparemos para entrar nesse tempo novo, que j\u00e1 \u00e9 o tempo que estamos a viver. Por isso, n\u00e3o podemos olhar para este momento apenas como um par\u00eantesis, como uma suspens\u00e3o, e depois vamos voltar a viver tudo o que viv\u00edamos \u2013 isso n\u00e3o \u00e9 ajustado \u00e0 realidade. Temos de encontrar novas linguagens; este tempo \u00e9 um laborat\u00f3rio. E temos de ouvir o futuro, que j\u00e1 est\u00e1 aqui, porque, como diz Santo Agostinho, h\u00e1 um presente do futuro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma \u00faltima dimens\u00e3o que queria sublinhar \u00e9 que este tempo de isolamento \u00e9 muito intenso de rela\u00e7\u00e3o. E \u00e9 um tempo de intensifica\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o. Porque \u00e9 muito viciante, e \u00e9 um jogo viciado, acharmos que s\u00f3 existe uma forma de presen\u00e7a, ou que a aus\u00eancia tem sempre o mesmo sentido; que a dist\u00e2ncia e a proximidade se leem de uma forma un\u00edvoca. N\u00e3o. Muitas vezes estamos pr\u00f3ximos e estamos completamente ausentes; muitas vezes encontramo-nos e s\u00f3 esbarramos uns nos outros; muitas vezes estamos em comunidade e somos ilhas, n\u00e3o arquip\u00e9lagos. E este \u00e9 um tempo para redescobrir e retrabalhar as hist\u00f3rias de amor. E eu n\u00e3o tenho d\u00favida de que este tempo faz-nos descobrir tanto, tantas possibilidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na hist\u00f3ria da cultura do s\u00e9culo passado, vemos que grandes obras da literatura, da filosofia, da m\u00fasica, da pintura, da espiritualidade, aconteceram em contextos dram\u00e1ticos, como o que estamos a viver. Franz Rosenzweig, o grande fil\u00f3sofo, escreveu a sua&nbsp;<em>Estrela da reden\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;nas trincheiras da primeira guerra mundial; Messiaen escreveu a sua obra mais famosa, o&nbsp;<em>Quarteto para o fim dos tempos<\/em>, num campo de concentra\u00e7\u00e3o. A&nbsp;<em>Guernica<\/em>, um dos s\u00edmbolos da arte do s\u00e9culo XX, foi escrita no impacto da guerra civil espanhola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das grandes m\u00edsticas do s\u00e9culo XX \u00e9, sem d\u00favida, Etty Hillesum, esta jovem holandesa judia, muito pr\u00f3xima do cristianismo, laica e crente ao mesmo tempo, que, podendo escapar do campo de concentra\u00e7\u00e3o, se oferece como volunt\u00e1ria para nele trabalhar, e nele acaba como prisioneira. E Etty Hillesum diz esta coisa espantosa: este tempo em que parece que a nossa alma so\u00e7obra, este \u00e9 o tempo para olhar os l\u00edrios do campo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um desafio enorme neste tempo. E vemos a quantidade de hist\u00f3rias de amor, pequenas hist\u00f3rias, os m\u00e9dicos, os enfermeiros, o pessoal t\u00e9cnico, as pessoas dos laborat\u00f3rios, tantos sacerdotes, tantas comunidades; mas n\u00e3o s\u00f3: tantos gestos de amor: as pessoas que dizem, nos seus pr\u00e9dios, aos mais idosos, que v\u00e3o fazer as compras; aqueles que n\u00e3o querem deixar ningu\u00e9m para tr\u00e1s; todos esses gestos de amor s\u00e3o alguma coisa que est\u00e1 a transformar este tempo numa catedral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como \u00e9 que eu vejo a espiritualidade neste tempo de pandemia? \u00c9 um tempo de&nbsp;<em>k\u00e9nosis<\/em>, mas tamb\u00e9m de gra\u00e7a; \u00e9 um tempo de grande precariedade, mas \u00e9 um tempo para descobrir o&nbsp;<em>precare<\/em>, a for\u00e7a da ora\u00e7\u00e3o; \u00e9 um tempo para voltar \u00e0s grandes perguntas; \u00e9 um tempo para criar mem\u00f3rias, para ouvir o futuro, para perceber que o tempo \u00e9 superior ao espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos pensar: este \u00e9 um ano para esquecer; este \u00e9 um ano de vida adiada. H\u00e1 um grande poeta de l\u00edngua portuguesa, Ant\u00f3nio Ramos Rosa, que tem um verso maravilhoso: \u00abN\u00e3o posso adiar o cora\u00e7\u00e3o para outro s\u00e9culo\u00bb. Este n\u00e3o \u00e9 um tempo para a pura sobreviv\u00eancia, este \u00e9 um tempo para sonhos grandes, para projetos maiores do que n\u00f3s, \u00e9 um tempo para dar passos novos, para ensaiar novos caminhos, para sair da caixa, para reinventar o formato, para descobrir novas linguagens. \u00c9 um tempo para sentir coisas que, possivelmente, at\u00e9 aqui n\u00e3o sentimos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu dou um exemplo da porta ao lado. O papa gosta de falar da santidade da porta ao lado. Na pra\u00e7a onde est\u00e1 a casa onde vivo, est\u00e3o algumas pessoas sem-abrigo. E, claro, eu procuro ser cuidadoso, ser humano e ser pr\u00f3ximo. Mas a verdade \u00e9 que quando n\u00f3s temos uma casa, e estamos a falar com uma pessoa sem-abrigo, h\u00e1 uma diferen\u00e7a: n\u00f3s n\u00e3o estamos completamente naquela situa\u00e7\u00e3o. Para mim, uma das coisas extraordin\u00e1rias foi, no primeiro m\u00eas ap\u00f3s a pandemia, sair de casa e perguntar \u00abcomo est\u00e1?\u00bb \u00e0 senhora que dorme na rua, e ela perguntar-me: \u00abE voc\u00ea, como est\u00e1?\u00bb. E a pergunta era igual. Porque est\u00e1vamos no mesmo barco, debaixo da mesma tempestade. Penso que esta aprendizagem \u00e9 de uma riqueza espiritual que nos pode ajudar muito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Artigo publicado em: https:\/\/www.snpcultura.org\/espiritualidade_crista_em_tempo_de_isolamento_cardeal_tolentino_mendonca.html<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Interven\u00e7\u00e3o no ciclo &#8220;Tecendo redes &#8211; Di\u00e1logos online de Teologia Pastoral&#8221; (2020), 22.4.2020<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fonte: Faculdade Jesu\u00edta de Filosofia e Teologia, Belo Horizonte, Brasil<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Transcri\u00e7\u00e3o: Rui Jorge Martins<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Card. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a Uma espiritualidade em tempos de pandemia, o que \u00e9, ou melhor, o que pode ser? 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