{"id":2404,"date":"2020-05-31T02:09:00","date_gmt":"2020-05-31T02:09:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2404"},"modified":"2020-05-27T08:04:00","modified_gmt":"2020-05-27T08:04:00","slug":"palavra-de-deus-e-do-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/palavra-de-deus-e-do-homem\/","title":{"rendered":"Palavra de Deus e do Homem"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ao lermos a B\u00edblia, vamos interiorizando que o seu discurso narrativo tem dois p\u00f3los constantes: Deus e o Homem em m\u00fatua rela\u00e7\u00e3o. S\u00e3o os dois maiores protagonistas desenhados por ela, segundo \u00e9pocas, preocupa\u00e7\u00f5es e influ\u00eancias culturais diversas: um \u00e0 procura do outro, um a precisar de sentido para a vida, o Outro a oferec\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta arquitectura bipolar, os livros do Antigo Testamento preparam o homem para o encontro com o Deus que se manifestou totalmente no Homem por excel\u00eancia, Jesus de Nazar\u00e9. Nem os testemunhos b\u00edblicos conhecem um Deus que prescinda do homem ou um homem \u00edntegro que prescinda de Deus:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSenhor, Tu examinaste-me e conheces-me\u2026<br>Tu envolves-me por tr\u00e1s e por diante\u201d (Sl 139,1.5).<br>\u201c\u00d3 Deus, Tu \u00e9s o meu Deus! Anseio por ti!<br>O meu ser tem sede de ti;<br>Todo o meu corpo anela por ti\u201d (Sl 63,2).<\/p>\n\n\n\n<p>O Deus de Israel e Deus de Jesus prova ser Deus na sua fidelidade ao Homem, por palavras e obras. Aparece envolvido na hist\u00f3ria humana e comprometido com o seu destino. Para os profetas b\u00edblicos, a <em>paix\u00e3o<\/em> de Deus pelo homem na hist\u00f3ria \u00e9 ideia central. Nunca mais o homem teve import\u00e2ncia e dignidade compar\u00e1vel \u00e0 do pensamento b\u00edblico, expresso logo nas narrativas de cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 visto n\u00e3o s\u00f3 como <em>imagem de Deus<\/em> mas tamb\u00e9m como eterno desvelo de Deus. Ali\u00e1s, esta imagem do Deus que se comove e tem com-<em>paix\u00e3o<\/em> do homem \u00e9 de alto-relevo: significa que o homem \u00e9 importante para Deus e que os acontecimentos do mundo Lhe dizem respeito e provocam a Sua reac\u00e7\u00e3o e revela\u00e7\u00e3o. Na cultura b\u00edblica, negar a import\u00e2ncia do homem para Deus \u00e9 praticamente blasfemo: \u00e9 t\u00e3o inconceb\u00edvel como negar a import\u00e2ncia de Deus para o homem.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto testemunho da revela\u00e7\u00e3o de Deus ao ser humano, a B\u00edblia, na sua f\u00e9 e humanidade, quer validar o bonito e o espinhoso da vida. O fil\u00f3sofo judeu F. Rosenzweig afirmou: \u201cO que est\u00e1 na B\u00edblia pode-se conhecer de duas maneiras: escutando o que ela diz e pondo-se \u00e0 escuta do bater do cora\u00e7\u00e3o humano. A B\u00edblia e o cora\u00e7\u00e3o dizem o mesmo. Por isso (e s\u00f3 por isso) a B\u00edblia \u00e9 &#8216;revela\u00e7\u00e3o&#8217;\u201d (Carta a Benno Jacob, de 27.5.1921).<\/p>\n\n\n\n<p>As novas gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o se acostumam a l\u00ea-la, por pensarem que n\u00e3o fala da vida humana mas de Deus. N\u00e3o querendo ser incomodados com a procura d\u2019Ele \u2013 por O verem como desinteressante e desnecess\u00e1rio para viverem bem, como elemento perturbador da festa da felicidade ou como ambiguamente associado ao fundamentalismo, ao fanatismo religioso, \u00e0 intoler\u00e2ncia e \u00e0 viol\u00eancia \u2013 n\u00e3o se interessam por ela. Ora, importa saber ler nela o <em>humano<\/em>, tanto como o <em>espiritual<\/em>. O leitor que descobre o <em>humano<\/em> da B\u00edblia sentir-se-\u00e1 mais do que informado culturalmente e iluminado espiritualmente: descobrir-se-\u00e1 <em>chamado<\/em> por dentro a fazer <em>alian\u00e7a de vida<\/em> com o Deus que na B\u00edblia se revela <em>Deus de rosto humano<\/em> para nos tornar <em>homens de rosto divino<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem b\u00edblico aparece enamorado da vida: sabe que ela \u00e9 a \u00fanica que n\u00e3o nos deixa antes de n\u00f3s a deixarmos a ela. E, por sentir que \u00e9 preciosa, p\u00f5e perguntas sobre ela: perscruta os segredos da natureza \u00e0 procura de ajuda (Sl 121,1-2), lan\u00e7a-se nos caminhos do mundo em busca de respostas sobre riqueza e pobreza, sobre escravid\u00e3o e liberdade; interroga-se sobre infidelidade e fidelidade, sobre fraternidade, lealdade e sentido da vida, expresso em termos de <em>salva\u00e7\u00e3o<\/em>. Mas na carreira da vida a pergunta de fundo incide sempre no pr\u00f3prio corredor: \u201cQue \u00e9 o Homem?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esta interroga\u00e7\u00e3o suscita \u00e0 f\u00e9 b\u00edblica respostas complementares: a da sua grandeza e a da sua natural limita\u00e7\u00e3o. Por um lado, a resposta a partir da sua dignidade deslumbrante:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSenhor nosso, <em>que \u00e9 o Homem<\/em> para te lembrares dele,<br>O filho do homem para dele te ocupares?<br>Fizeste dele quase um ser divino,<br>De honra e gl\u00f3ria o coroaste;<br>Deste-lhe poder sobre a obra das tuas m\u00e3os\u201d (Sl 8,5-7).<br><br>Esta contempla\u00e7\u00e3o do humano como divinamente \u201ccoroado de honra e gl\u00f3ria\u201d e a dominar todos os seres vivos desagua no louvor: \u201cSenhor nosso, como \u00e9s admir\u00e1vel em toda a terra!\u201d (Sl 8,1.10).<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a resposta a partir da sua precariedade cruciante:<br>\u201cSenhor, <em>que \u00e9 o Homem<\/em> para cuidares dele,<br>E o filho do homem para pensares nele?<br>O homem \u00e9 semelhante ao sopro da brisa,<br>Os seus dias, como sombra que passa\u201d (Sl 144,3-4 e Sir 18,8-10).<br>Esta transitoriedade sugere ao orante a necessidade de ser socorrido para ter a vida: \u201cSenhor\u2026, salva-me\u201d (Sl 144,7).<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, o flagelo da pandemia que agora se abateu sobre o mundo inteiro p\u00f4s frente a frente estas duas notas da condi\u00e7\u00e3o humana. Por um lado, tornou-nos conscientes do valor imenso da vida, a que nos agarr\u00e1mos mais, n\u00e3o preparados para a perder t\u00e3o depressa. Por outro, obrigou-nos a fazer contas com a nossa fragilidade radical e a redescobrir os limites inultrapass\u00e1veis da ci\u00eancia, da medicina, e das esplendorosas conquistas das novas tecnologias. Uma simples praga p\u00f4s de joelhos ricos e poderosos, cientistas e economistas. Tornou-se uma pergunta sobre os limites a que ningu\u00e9m consegue fugir e um motivo para prestar aten\u00e7\u00e3o ao que realmente importa: bondade, solidariedade, amor, porque formamos uma s\u00f3 humanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Ao lermos a B\u00edblia, vamos interiorizando que o seu discurso narrativo tem dois p\u00f3los constantes: Deus e o Homem em m\u00fatua rela\u00e7\u00e3o. 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