{"id":2381,"date":"2020-04-30T02:18:00","date_gmt":"2020-04-30T02:18:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2381"},"modified":"2020-04-28T09:07:47","modified_gmt":"2020-04-28T09:07:47","slug":"perfume-para-peregrinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/perfume-para-peregrinos\/","title":{"rendered":"Perfume para peregrinos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1.<\/strong> Aus\u00eancia. E dor. Por estes dias prolongam-se aus\u00eancias dif\u00edceis de aceitar e compreender. Raptaram-nos Jesus, melhor, a morte raptou-nos Jesus, e n\u00e3o O temos. Ou melhor ainda, julg\u00e1vamos t\u00ea-lo definitivamente controlado e ao alcance, no t\u00famulo. Mas a verdade \u00e9 que as primeiras testemunhas foram l\u00e1 e viram a sua aus\u00eancia cheia de sinais conclamantes da Sua presen\u00e7a pela Sua vit\u00f3ria sobre a morte! Aus\u00eancia do corpo \u00e9 o que sentimos. Do corpo de Jesus e do corpo da Igreja, que \u00e9 tamb\u00e9m Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nestes dias de aus\u00eancia f\u00edsica de Jesus e de aus\u00eancia de sacramentos, tem a mem\u00f3ria de ser presen\u00e7a e media\u00e7\u00e3o e perfume entre n\u00f3s. Onde quer que nos encontremos somos povo, povo de Deus, a caminho do c\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2. <\/strong>Celebro todos os dias para um punhado de aus\u00eancias; olho os bancos e vejo rostos (e n\u00e3o, n\u00e3o estou a delirar). N\u00e3o tenho l\u00e1 fotos, mas vidas. Pelo menos nos bancos mais pr\u00f3ximos sei bem quem ali se sentava e em que missa. Passo os olhos pelos bancos e vejo est\u00f3rias. Est\u00e3o ausentes, \u00e9 certo, mas eu continuo a dizer-lhes:<br>\u2013 O Senhor, esteja convosco; e devolvo-me:<br>\u2013 Ele est\u00e1 no meio de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E Ele est\u00e1 no meio de n\u00f3s, apesar de ausente. Entre n\u00f3s h\u00e1 mais espa\u00e7o, sim, mas eu digo-me:<br>\u2013 Jo\u00e3o: os caminhos e as casas, os com\u00e9rcios e os hospitais, os bosques e as gasolineiras, por onde agora corre ou definha a vida, tudo \u00e9 a tua igreja, tudo \u00e9 o teu templo. A\u00ed encontras o teu povo, deprimido, ansioso e assustado, ou ousado e inventivo, e enamorado sem direito a abra\u00e7os e beijos, e tantos com a porta aberta para o desemprego e a pobreza&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele est\u00e1 no meio de n\u00f3s, e n\u00e3o est\u00e1 ausente, que n\u00f3s estamos aqui, em peregrina\u00e7\u00e3o, famintos, mas n\u00e3o de desejo de O celebrarmos no meio de n\u00f3s (\u00ab\u2013 Ai, senhor padre, que n\u00e3o vejo a hora em que nos digam missas!\u00bb). Ele est\u00e1 no meio de n\u00f3s, no desejo, tal como a praia anseia pelo mar quando ele recua na mar\u00e9 vaza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele est\u00e1 no meio de n\u00f3s, e v\u00eam ondas, e chegam ondas, e volvem ondas que nos trazem a \u00e2nsia de O sentir nos cora\u00e7\u00f5es que latem de j\u00fabilo quando cantamos \u00abDeus est\u00e1 aqui, \/ t\u00e3o certo como ar que respiro, \/ t\u00e3o certo como o amanh\u00e3 que se levanta\u00bb. T\u00e3o certo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>3.<\/strong> Ontem rondou a igreja uma figura estranha: meio celta, meio m\u00edstico, alto, magr\u00edssimo, com um saco e um grande \u00edcone mariano na m\u00e3o esquerda. Hoje regressou. E foi-se. Ficou na igreja quatro horas a rezar. Diz-se irland\u00eas, peregrino que ficou preso no caminho por causa das conting\u00eancias do covid19. No fim da ora\u00e7\u00e3o (numa aberta da chuva) tocou \u00e0 campainha, para se despedir e fazer duas reclama\u00e7\u00f5es antes de partir: a igreja est\u00e1 com pouca luz, e o Menino da Senhora do Carmelo deveria estar vestido e n\u00e3o nuzinho, porque Ele s\u00f3 est\u00e1 despido na hora da Paix\u00e3o! E foi-se&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o sei que pensar deste peregrino. S\u00ea-lo-\u00e1 ou n\u00e3o, n\u00e3o sei. Sei que me agradeceu porque levava mais de um m\u00eas sem se aproximar de um sacr\u00e1rio, e finalmente pudera saciar-se aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Mas, disse-lhe eu, o templo de Deus est\u00e1 a\u00ed fora em todos os caminhos que percorres, em todas as casas que encerram o povo de Deus, e o sacr\u00e1rio est\u00e1 a\u00ed, no teu cora\u00e7\u00e3o, donde brota essa fonte de amor e desejo a Jesus e \u00e0 Virgem!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 Sim, mas n\u00f3s que andamos cansados precisamos de um ref\u00fagio onde descansar e O podermos adorar, que a vida n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 caminhar e lutar, mas tamb\u00e9m descansar a cabe\u00e7a junto do Seu cora\u00e7\u00e3o. E para isso precisamos dos sacr\u00e1rios!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Despedimo-nos. Fui para dentro, agradecendo de cora\u00e7\u00e3o a visita da Igreja que me tinha vindo ver \u00e0 minha pris\u00e3o domicili\u00e1ria, eu que ocupo o lugar de guardi\u00e3o das chaves do santu\u00e1rio, e me lamento de estar preso e s\u00f3 e abandonado pela Igreja!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>4.<\/strong> Depois da missa que a di\u00e1rio celebro sozinho, vou \u00e0 porta e abro. H\u00e1 pessoas que se aproximam. Umas perguntam se podem entrar, outras entram sem saudar; outras sa\u00fadam, passam e v\u00e3o-se, algumas passam sem sauda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, chegou-me, vagaroso, do fundo da Rua do Carmo um homem manquejando dolorosamente. Cruzou a rua, fora da passadeira, encurtando a dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta da igreja. Vinha cansado, carrinho das compras na m\u00e3o, m\u00e1scara fortemente transpirada. Acenou-me ofegante e entrou; deixou o carrinho \u00e0 minha guarda. \u00c0 sa\u00edda, lamentou-se:<br>\u2013 A mulher n\u00e3o pode fazer as compras, tenho de ser eu. E eu n\u00e3o posso, s\u00f3 me arrasto. O que vale \u00e9 que h\u00e1 no caminho uma igreja onde a gente possa descansar durante um Padre Nosso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E sem mais foi-se&#8230; E eu fico-lhes unido, mesmo que separados entre n\u00f3s pelo caminho que nos une.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aus\u00eancias? Sim, aus\u00eancias dolorosas. E presen\u00e7as de outros modos a que teremos de nos afei\u00e7oar at\u00e9 \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o plena. Que caminho!&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>5.<\/strong> Tenho auscultado ainda o cora\u00e7\u00e3o sofredor do Papa. Doem-lhe como a mim tantas aus\u00eancias, chora pelos que choram, chora com os que choram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sinto-me especialmente tocado com a un\u00e7\u00e3o das suas palavras, quando nos diz que este tempo de peste revelou como tanta gente, insignificante ou n\u00e3o, aportou um gr\u00e3ozinho de sa\u00fade e calma, de esperan\u00e7a, do\u00e7ura e companhia aos demais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E sinto-me ainda mais tocado, quando Francisco nos recorda que na manh\u00e3 da ressurrei\u00e7\u00e3o as mulheres n\u00e3o O viram morto, mas ressuscitado. Quer-se dizer: neste tempo n\u00f3s mir\u00e1mos O(s) morto(s), mas Ele vai sempre \u00e0 nossa frente; sim, at\u00e9 na era da peste Ele est\u00e1 connosco, bem \u00e0 frente, guiando, vencedor, os nossos passos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ah, meu Deus, encontro-me preso e confinado em casa, batendo uma e outra vez ao cora\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, porque n\u00e3o vejo a Igreja, e tu vens dizer-nos que a Tua aus\u00eancia discreta \u00e9, afinal, o sinal maior da Tua presen\u00e7a forte. Que est\u00e1s aqui, connosco, mas de outra maneira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>6. <\/strong>Trazemos perfumes nas m\u00e3os de que Jesus j\u00e1 n\u00e3o precisa. E h\u00e1 tanta solid\u00e3o precisando deles.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1. Aus\u00eancia. E dor. Por estes dias prolongam-se aus\u00eancias dif\u00edceis de aceitar e compreender. 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