{"id":2374,"date":"2020-04-30T02:13:00","date_gmt":"2020-04-30T02:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2374"},"modified":"2020-04-28T08:55:47","modified_gmt":"2020-04-28T08:55:47","slug":"maio-e-maria-sem-fatima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/maio-e-maria-sem-fatima\/","title":{"rendered":"Maio e Maria, sem F\u00e1tima"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 mais de cem anos que o mundo vai ajoelhar-se aos p\u00e9s da Virgem Maria em F\u00e1tima no m\u00eas de maio. Realmente, para os portugueses, maio rima com Primavera. Mas tamb\u00e9m com F\u00e1tima. \u00c9 particularmente em maio que l\u00e1 v\u00e3o em peregrina\u00e7\u00e3o elevar at\u00e9 ao c\u00e9u o que lhes vai na alma. V\u00e3o ter com a M\u00e3e, a do Filho de Deus. E \u00e0 m\u00e3e conta-se tudo. V\u00e3o \u2018dizer\u2019 a alegria que n\u00e3o s\u00e3o capazes de conter por terem beneficiado da cura ou da liberta\u00e7\u00e3o de um grande mal, humanamente irrealiz\u00e1veis. V\u00e3o contar a ang\u00fastia de \u00abquerer e n\u00e3o poder\u00bb, causada pela ditadura trituradora e mort\u00edfera de tantos males e inevit\u00e1veis estragos que o sofrimento traz \u00e0 vida quotidiana. V\u00e3o \u00e0 procura de sentido para as dores, penas e trabalhos, pensando que os suportar\u00e3o se lhes encontrarem sentido final, j\u00e1 que as alegrias s\u00e3o f\u00e1ceis de \u2018integrar\u2019 na vida. Enquanto F. Pessoa ter\u00e1 pensado que \u201ca vida \u00e9 um mal, digno de ser vivido\u201d, quem acorre a F\u00e1tima com f\u00e9 e com o pensamento na M\u00e3e de Jesus pode meditar: a vida \u00e9 um bem inestim\u00e1vel; e o mal que cont\u00e9m tamb\u00e9m \u00e9 digno de ser vivido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levar \u201cos espinhos e abrolhos\u201d da vida diante do altar da M\u00e3e \u2013 na recita\u00e7\u00e3o sussurrada, murmurada, arrastada ou ajoelhada de preces, roga\u00e7\u00f5es e ladainhas insistentes \u2013 d\u00e1 alguma domina\u00e7\u00e3o sobre os duros embates da fragilidade humana. O peregrino de F\u00e1tima sabe bem que continuar\u00e1 a embrulhar os valiosos presentes da sua vida num papel que afinal se rasgar\u00e1, porque as suas hist\u00f3rias s\u00e3o retalhos da vida de algu\u00e9m que est\u00e1 <em>a caminho<\/em>. Mas a sua ora\u00e7\u00e3o humilde e fervorosa, procurando \u2018solu\u00e7\u00e3o\u2019 para o <em>mist\u00e9rio<\/em> do humano, realiza o prod\u00edgio de tornar poss\u00edvel o imposs\u00edvel e de evitar o <em>tr\u00e1gico<\/em> na aceita\u00e7\u00e3o da vulner\u00e1vel condi\u00e7\u00e3o humana. Atrav\u00e9s da fragilidade da ora\u00e7\u00e3o, vai-se reconciliando consigo pr\u00f3prio e com as suas limita\u00e7\u00f5es, com os que a ele se unem em peregrina\u00e7\u00e3o, com a natureza que vai contemplando e com Deus, sentido radical de todas as coisas. Com isto, a ora\u00e7\u00e3o em F\u00e1tima deixa ver o seu car\u00e1cter sapiencial, fator essencial de humaniza\u00e7\u00e3o da vida e dos seus aspectos sombrios. Tem o poder lenitivo de conforto ou de cura contra a natureza humana necessariamente sofredora, mortal. O peregrino orante sente necessidade de uma M\u00e3e intercessora, para lhe dizer com s\u00faplicas silenciosas, c\u00e2nticos polif\u00f3nicos, lamenta\u00e7\u00f5es de medo e louvores de gozo, a sua impot\u00eancia perante o mal: a epidemia, a doen\u00e7a, as desventuras, os insucessos, as opress\u00f5es e viol\u00eancias\u2026; precisa da M\u00e3e do Filho de Deus, sumamente compreensiva, a quem \u2018gritar\u2019 o excesso do sofrimento humano. Ele sabe que o sofrimento \u00e9 <em>surdo<\/em>: para n\u00e3o ser <em>absurdo<\/em> s\u00f3 uma M\u00e3e ligada a Deus o pode escutar, compreender e transfigurar. A ora\u00e7\u00e3o, dando voz \u00e0 sua dor, revela-lhe e brinda-lhe uma experi\u00eancia de Deus como salvador, que aceita o impertinente sofrimento por amor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, por causa da pandemia demon\u00edaca que a Hist\u00f3ria recordar\u00e1 irrefragavelmente, o maio deste ano veta a experi\u00eancia gozosa de peregrinar a F\u00e1tima. Ora, essa conting\u00eancia viral, em vez de suscitar tristeza, pode ser explorada para sondar outros recantos da ora\u00e7\u00e3o peregrina. De facto, orar \u00e9 sempre p\u00f4r-se a caminho em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 bondade, \u00e0 beleza e \u00e0 transcend\u00eancia, aneladas pela pr\u00f3pria ora\u00e7\u00e3o. \u00c9 percorrer, entre o desespero e a esperan\u00e7a, entre o medo e a confian\u00e7a, os sinuosos caminhos da vida. Se este m\u00eas de maio est\u00e1 a sofrer o choque assustador de um inimigo invis\u00edvel, sempre poderemos rezar partindo do nosso meio. E continuaremos a sentir a ora\u00e7\u00e3o como constitutiva do ser humano, que faz caminho ao andar. A ora\u00e7\u00e3o retrata o verdadeiro rosto espiritual de quem reza, sobretudo quando se exprime na escuta. O Deus Pai e a M\u00e3e a quem reza e a quem escuta est\u00e3o aqu\u00e9m do <em>lugar<\/em> em que os invoca e escuta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Escuta! O orante s\u00f3 saber\u00e1 que Deus e a Virgem celeste podem falar com os humanos se ele pr\u00f3prio se sentir interpelado. Foi a experi\u00eancia que, pelo visto, os pastorinhos de F\u00e1tima fizeram. Uma ora\u00e7\u00e3o que tenha como sujeito um observador neutral passa ao lado daquilo que \u00e9 a mais aut\u00eantica prece crist\u00e3. De facto, esta tem o carimbo da ora\u00e7\u00e3o incarnada de Jesus. N\u00e3o \u00e9 a um deus qualquer. Dirige-se ao Deus de Jesus. \u00c9 um ato cheio de sentido, v\u00e1 o orante a F\u00e1tima ou n\u00e3o: leva at\u00e9 Deus a hist\u00f3ria e as hist\u00f3rias de um \u201cirm\u00e3o\u201d de Jesus, precisamente pela media\u00e7\u00e3o dele: \u201cVai ter com os meus irm\u00e3os e diz-lhes: Subo para o meu Pai, que \u00e9 vosso Pai, para o meu Deus, que \u00e9 vosso Deus\u201d (Jo 20,17). Que o Filho de Deus tenha incarnado em Jesus e na hist\u00f3ria dos humanos significa que o Pai aceitou mostrar no Filho a sua paix\u00e3o por eles, tamb\u00e9m em luta com o mal f\u00edsico e moral. E foi a\u00ed, na luta com a morte, que Jesus encomendou todos os seus \u201cirm\u00e3os\u201d ao cuidado da m\u00e3e: \u201cDisse \u00e0 m\u00e3e: Mulher, eis o teu filho. Depois disse ao disc\u00edpulo: Eis a tua m\u00e3e\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os que v\u00e3o a F\u00e1tima e os que l\u00e1 n\u00e3o v\u00e3o <em>t\u00eam uma M\u00e3e<\/em>. Em qualquer <em>lugar<\/em>, podem invoc\u00e1-la como Senhora de F\u00e1tima e esperar ser atendidos: \u201cDo seio da Virgem a esperan\u00e7a brilhou para n\u00f3s\u201d (S. Efr\u00e9m).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD H\u00e1 mais de cem anos que o mundo vai ajoelhar-se aos p\u00e9s da Virgem Maria em F\u00e1tima no m\u00eas de maio. 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