{"id":2358,"date":"2020-03-31T02:03:00","date_gmt":"2020-03-31T02:03:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2358"},"modified":"2020-03-30T07:56:03","modified_gmt":"2020-03-30T07:56:03","slug":"cruz-outra-palavra-para-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/cruz-outra-palavra-para-amor\/","title":{"rendered":"Cruz, outra palavra para amor"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Semana Maior da hist\u00f3ria e da f\u00e9\ncrist\u00e3, quando o tempo celebrativo se dilata para podermos acompanhar, em casa,\nquase hora a hora, a \u00faltima semana da vida de Jesus, algu\u00e9m perguntar\u00e1, tamb\u00e9m\nprovocado pelo novo v\u00edrus destruidor: porqu\u00ea Jesus se deixou morrer na cruz,\nquando t\u00e3o facilmente teria podido evitar essa morte atroz? Bastaria fazer um\nacordo de n\u00e3o-beliger\u00e2ncia com os poderes institu\u00eddos do tempo, que decidiam\nsobre a vida e a morte das pessoas inc\u00f3modas! Bastaria \u2013 e seria t\u00e3o f\u00e1cil! \u2013\nrenunciar \u00e0 exig\u00eancia de justi\u00e7a, bondade, compaix\u00e3o, amor de cada um para com\ntodos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jesus n\u00e3o quis morrer na cruz para se\nmostrar, mas para mostrar quanto Deus ama todas as pessoas, indistintamente das\nraz\u00f5es que elas d\u00e3o para serem amadas: a raz\u00e3o de Deus para amar \u00e9 o amor.\nMorrendo a perdoar e a mostrar amor dava raz\u00f5es \u00e0s pessoas para sussurrarem:\nolhem como ele ama! Realmente assim ele mostrava-se solid\u00e1rio tamb\u00e9m nessa\nsitua\u00e7\u00e3o por que passam todos os humanos: a da morte. Como sofrendo o medo e a\nang\u00fastia perante a morte \u00e0 vista quis estar comigo quando agora me aflijo\ndiante da morte pand\u00e9mica, morrendo quis estar comigo quando eu morrer: grande\nal\u00edvio! \u00e9 a minha salva\u00e7\u00e3o! A nobreza do amor \u00e9 a de total solidariedade, \u00e9\nestar onde est\u00e1 a pessoa amada, muito especialmente quando ela \u00e9 atormentada\npela dor, desejando mesmo tomar para si essa dor para que n\u00e3o sofra a pessoa\namada. Foi isso o que Jesus fez: entrou no mist\u00e9rio da morte para tirar de l\u00e1\nas pessoas que ama e \u201cpara iluminar os que habitam nas trevas e na sombra da\nmorte\u201d (Lc 1,79). Aqui vem inevitavelmente \u00e0 mem\u00f3ria a poesia entranh\u00e1vel do\nconvertido Paul Claudel: \u00abO amor gerou a dor [levou \u00e0 cruz] e a dor fez mais\namor [tamb\u00e9m enquanto manifestado]\u00bb. \u00c0 volta destes dois p\u00f3los gira toda a vida\nhumana (dor e amor): e para que o da dor fa\u00e7a sentido e entre no mist\u00e9rio da\nsalva\u00e7\u00e3o da vida, ter\u00e1 de ser absorvido pelo do amor. A paix\u00e3o de Jesus por\namor \u00e9 a prova real de um Deus apaixonado pelos humanos: essa \u00e9 a lei da\ngravidade do seu existir. A cruz \u00e9 o lugar onde o amor gritou mais alto e onde\nDeus mais se identificou com o amor. L\u00e1, o amor foi t\u00e3o intenso e copioso que\ntransbordou para os que a ele aderem (pela f\u00e9) e se deixam contagiar por ele:\n\u201cO amor \u00e9 de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conheceu Deus; quem\nn\u00e3o ama n\u00e3o conheceu Deus, porque Deus \u00e9 amor\u201d (1Jo 4,7-8). Ou seja, na cruz\nficou demonstrado o que \u00e9 amor supremo. E para quem compreende e confessa esse\namor, \u201cDeus habita nele e ele em Deus\u201d (1Jo 4,15), tamb\u00e9m nesta situa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia\nface \u00e0 pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perante este \u00abexcesso do amor\u00bb, o que\nse espera n\u00e3o \u00e9 \u201ctapar o rosto para n\u00e3o v\u00ea-lo [o Desprezado e marginado, homem\nde dores, familiarizado com o sofrimento]\u201d (Is 53,3). O que \u00e9 suposto \u00e9\ncontempl\u00e1-lo para entranhar e aprender a&nbsp;<em>li\u00e7\u00e3o\ndo amor<\/em>&nbsp;e escutar o crucificado a segredar, tamb\u00e9m aos\nassustados com o&nbsp;<em>dem\u00f3nio<\/em>&nbsp;de\nhoje: \u00abEu amo-te\u00bb. \u201cNa hora da cruz\u2026, neste amor que n\u00e3o se subtraiu \u00e0 morte\npara me manifestar quanto me ama, \u00e9 poss\u00edvel crer\u201d (Papa Francisco,&nbsp;<em>Lumen fidei<\/em>, 16). Da contempla\u00e7\u00e3o de Jesus\ncrucificado nasce o disc\u00edpulo amado e amante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Jesus o amor morreu, como morreu o\nfilho do homem e Filho de Deus. Ent\u00e3o, n\u00e3o deveria acabar tudo ali? Para a f\u00e9\ncrist\u00e3, n\u00e3o. Ao morrer por amor, Jesus n\u00e3o estava sozinho: \u201cinclinando a cabe\u00e7a,\nentregou o Esp\u00edrito\u201d ao Pai (Jo 19,30), de quem o tinha recebido quando fora\nconcebido no seio da m\u00e3e (Lc 1,35). O Esp\u00edrito \u00e9 precisamente o Amor do Pai, o\nAmor&nbsp;<em>pessoal<\/em>&nbsp;que liga o Pai\nao Filho e com que o Pai ama o Filho. O Amor-Esp\u00edrito com que Jesus amou e foi\namado, unido ao do Pai, era t\u00e3o sublime e t\u00e3o poderoso que tirou Jesus da\nmorte: \u201co Esp\u00edrito d&#8217;Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos\u201d (Rm\n8,11). Realmente, \u00abOmnia vincit amor! O amor triunfa de tudo!\u00bb \u2013 j\u00e1 declamavam\nos cl\u00e1ssicos latinos, noutro sentido (Virg\u00edlio,&nbsp;<em>Buc\u00f3licas<\/em>&nbsp;X,\n69). O Esp\u00edrito criador e vivificador do Pai fez passar Jesus directamente da\nmorte para a vida nova sem fim, porque o Amor-Esp\u00edrito do Pai \u00e9 necessariamente\namor eterno. Tamb\u00e9m o sugere a filosofia: \u201camar uma pessoa n\u00e3o \u00e9 dizer-lhe\nimplicitamente: tu, tu n\u00e3o morrer\u00e1s?\u201d (<em>Tu ne\nmourras pas<\/em>&nbsp;\u2013 livro do fil\u00f3sofo Gabriel Marcel).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi a esse acontecimento teol\u00f3gico\nque os disc\u00edpulos chamaram&nbsp;<em>ressurrei\u00e7\u00e3o<\/em>.\nEra a vit\u00f3ria da cruz e do amor: o amor na cruz provocou a ressurrei\u00e7\u00e3o. S\u00f3 o\namor \u00e9 cred\u00edvel e convincente. S\u00f3 o amor consegue responder a outro amor e \u00e0\nmorte por amor. Ent\u00e3o s\u00f3 o amor desvela o mist\u00e9rio da ressurrei\u00e7\u00e3o real de\nJesus: realizada pelo Esp\u00edrito do Pai, foi a resposta devida ao Filho. Foi a\naprova\u00e7\u00e3o divina de tudo o que Jesus fez na sua vida e a consagra\u00e7\u00e3o do sentido\nde uma vida e de uma morte dedicadas ao amor e \u00e0 promo\u00e7\u00e3o do amor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Na Semana Maior da hist\u00f3ria e da f\u00e9 crist\u00e3, quando o tempo celebrativo se dilata para podermos acompanhar, em casa, quase hora a hora, a \u00faltima semana [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2359,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2358","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2358","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2358"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2358\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2360,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2358\/revisions\/2360"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2359"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2358"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2358"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2358"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}