{"id":2304,"date":"2019-12-29T20:59:16","date_gmt":"2019-12-29T20:59:16","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2304"},"modified":"2019-12-29T20:59:20","modified_gmt":"2019-12-29T20:59:20","slug":"nascimento-virginal-e-palavra-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/nascimento-virginal-e-palavra-de-deus\/","title":{"rendered":"Nascimento virginal e palavra de Deus"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No primeiro dia do ano\ncivil a liturgia cat\u00f3lica, ainda extasiada na contempla\u00e7\u00e3o do pres\u00e9pio, celebra\nMaria como Virgem M\u00e3e do Filho de Deus. Essa afirma\u00e7\u00e3o da f\u00e9, a Igreja vai\nbusc\u00e1-la \u00e0 palavra de Lucas e Mateus (1-2). Continuamos a medit\u00e1-la. Em linha\ncom a leitura que dela faz\u00edamos no anterior <em>BE<\/em>, n\u00e3o narra a concep\u00e7\u00e3o e\no nascimento virginais de Jesus como se estivesse a <em>v\u00ea-los<\/em> <em>por fora<\/em>.\nNarra o que a f\u00e9 apost\u00f3lica <em>via por dentro<\/em> desse acontecimento\nhist\u00f3rico: via o seu sentido teol\u00f3gico. A\u00ed, a palavra da f\u00e9 n\u00e3o perguntava\nsobre um facto biol\u00f3gico extraordin\u00e1rio e humanamente imposs\u00edvel; nem dava a\nideia de que as rela\u00e7\u00f5es matrimoniais tornariam a gera\u00e7\u00e3o de Jesus menos pura\nou indigna d\u2019Ele, numa esp\u00e9cie de exalta\u00e7\u00e3o da castidade da m\u00e3e. O que a f\u00e9 via\nest\u00e1 para al\u00e9m do <em>modo<\/em> como possam ter acontecido a concep\u00e7\u00e3o e o\nnascimento de Jesus ao n\u00edvel f\u00edsico, biol\u00f3gico, ginecol\u00f3gico. Como vimos, a\nnarrativa em forma de <em>midr\u00e1\u0161<\/em> n\u00e3o se exprime ao n\u00edvel de factos\nconstat\u00e1veis empiricamente, nem a sua espessura espiritual pode ser reduzida a\num assunto de gen\u00e9tica, totalmente estranha \u00e0 sua inten\u00e7\u00e3o. \u00c9 narrativa <em>religiosa<\/em>,\nde pura f\u00e9, para suscitar mais f\u00e9. N\u00e3o se podem colocar \u00e0 narrativa perguntas\nde fisiologia, \u00e0s quais ela n\u00e3o quer nem consegue dar resposta e para as quais\nn\u00e3o foi pensada. N\u00e3o tem inten\u00e7\u00e3o de fazer biografia ou informar sobre\nhist\u00f3ria. Quer formar a f\u00e9 sobre <em>o ser<\/em> daquele menino. Quer dizer que\nDeus se comprometeu, pelo seu Esp\u00edrito, no nascimento d\u2019Ele. Deter-se a\nperguntar \u00abcomo p\u00f4de Maria conceber sendo virgem?\u00bb seria t\u00e3o absurdo como\ncolocar perguntas de ci\u00eancias naturais ou de historiografia a uma poesia.\nPerguntas desse g\u00e9nerocondicionam e estorvam a capta\u00e7\u00e3o da mensagem religiosa,\nque \u00e9 a que constitui Palavra de Deus. Os leitores imediatos n\u00e3o faziam essas\nperguntas (nem o leitor sensato faz perguntas sobre como decorreu o conc\u00edlio\ndos deuses no canto V da <em>Odisseia<\/em>, de Homero). Acolhiam a verdade <em>E<\/em>spiritual\npara a qual a virgindade, <em>enquanto realidade absoluta,<\/em> aponta: entravam\ne ficavam na contempla\u00e7\u00e3o de Jesus como Filho de Deus e de Maria como sacr\u00e1rio\ndo Filho de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, a verdade da concep\u00e7\u00e3o de Jesus por ac\u00e7\u00e3o\ndo Esp\u00edrito n\u00e3o pode nem quer ser demonstrada; quer ser acreditada. S\u00f3 a f\u00e9\ncapta t\u00e3o sublime verdade. A afirma\u00e7\u00e3o do nascimento de Jesus <em>da virgem<\/em>\nMaria est\u00e1, narrativamente, ao servi\u00e7o da f\u00e9 pascal, para identificar <em>Jesus<\/em>\ncomo <em>Filho de Deus<\/em>: envolve-o no mist\u00e9rio de Deus. Ali\u00e1s, o acto de f\u00e9\nna concep\u00e7\u00e3o virginal de Jesus, expresso nas narrativas b\u00edblicas, s\u00f3 se pode\nentender no contexto da f\u00e9 na sua ressurrei\u00e7\u00e3o pela ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito de Deus.\nDe facto, essas narrativas pressup\u00f5em uma medita\u00e7\u00e3o retrospectiva sobre as\norigens de Jesus \u00e0 luz da ressurrei\u00e7\u00e3o, que revelou plenamente o mist\u00e9rio do\nseu ser. Como a f\u00e9 dizia que foi o Esp\u00edrito do Pai a faz\u00ea-l\u2019O ressuscitar para\na vida <em>E<\/em>spiritual, tamb\u00e9m disse que foi o Esp\u00edrito a faz\u00ea-lo nascer para\na vida f\u00edsica: \u201cO anjo do Senhor respondeu [a Maria]: o Esp\u00edrito Santo vir\u00e1\nsobre ti\u2026; por isso, aquele que h\u00e1-de nascer \u00e9 santo e ser\u00e1 chamado <em>Filho de\nDeus<\/em>\u201d (Lc 1,35). O t\u00edtulo <em>filho de Deus<\/em> \u00e9 posto na palavra do \u201canjo\ndo Senhor\u201d como a <em>boa nova<\/em> da ressurrei\u00e7\u00e3o, significando que, no\nnascimento como na ressurrei\u00e7\u00e3o, \u00e9, afinal, Deus que pode revelar quem \u00e9 o seu <em>Ungido<\/em>\n(Lc 1,26-38; 2,9-15 e 24,4-7).\nO acontecimento da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus projectou luz sobre a sua vida\nterrena, tamb\u00e9m sobre a concep\u00e7\u00e3o e o nascimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo <em>midr\u00e1\u0161<\/em>, as narrativas desses dois acontecimentos\nn\u00e3o inventam nem s\u00e3o literatura de fic\u00e7\u00e3o. Mas eles, nos pormenores, n\u00e3o\nsucederam \u00e0 letra com a exactid\u00e3o factual que uma vis\u00e3o historicista gostaria\nde descobrir nelas: s\u00e3o fus\u00e3o do factual com o <em>imaginado<\/em>. Jesus, Maria,\nJos\u00e9, Jo\u00e3o, Isabel, Zacarias, os pastores\u2026 s\u00e3o personagens hist\u00f3ricas: a\nconcep\u00e7\u00e3o e o nascimento de Jesus aconteceram mesmo. Bel\u00e9m, Jerusal\u00e9m s\u00e3o\nlugares conhecidos. Aquilo que \u00e9 literariamente tecido com <em>imagens<\/em> \u00e9 a\ntrama pormenorizada do an\u00fancio da concep\u00e7\u00e3o e do nascimento do menino, o <em>magnificat<\/em>\nque o celebra, a narrativa dos magos&#8230; As cita\u00e7\u00f5es trazidas do Antigo\nTestamento querem iluminar teologicamente os mist\u00e9rios relacionados com o\nnascimento de Jesus. Por meio do <em>midr\u00e1\u0161<\/em>, o seu nascimento, objectivo,\nevidenciava \u201ca plenitude dos tempos\u201d e realizava a esperan\u00e7a do povo ligado \u00e0\nrevela\u00e7\u00e3o b\u00edblica: aparecia como <em>anel central da cadeia da hist\u00f3ria\nsalv\u00edfica<\/em>, entre o Antigo Testamento e o Novo. O <em>midr\u00e1\u0161<\/em>, com o\nramalhete de palavras das Escrituras, sugeria que Jesus tinha \u201ccumprido\u201d \u00e0\nperfei\u00e7\u00e3o as profecias e promessas nelas contidas, isto \u00e9, o des\u00edgnio salvador\nde Deus para a humanidade. Os embelezamentos liter\u00e1rios (anuncia\u00e7\u00e3o do anjo,\nchacina dos inocentes\u2026) fecundavam de sentido transcendente os factos\nhist\u00f3ricos mencionados: eram espiritualidade a meditar a hist\u00f3ria: sugeriam o\ninvis\u00edvel, que o historiador n\u00e3o poderia contar. O <em>midr\u00e1\u0161<\/em> narrativo\nconvida o leitor a ver para al\u00e9m de si mesmo, a transferir-se para dentro do\nmist\u00e9rio e a deixar-se orientar por ele a partir <em>do Alto<\/em>, enlevado na\ncontempla\u00e7\u00e3o pela virtude da palavra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD No primeiro dia do ano civil a liturgia cat\u00f3lica, ainda extasiada na contempla\u00e7\u00e3o do pres\u00e9pio, celebra Maria como Virgem M\u00e3e do Filho de Deus. 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