{"id":2282,"date":"2019-12-03T16:18:57","date_gmt":"2019-12-03T16:18:57","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2282"},"modified":"2019-12-03T16:19:05","modified_gmt":"2019-12-03T16:19:05","slug":"virgindade-de-maria-e-palavra-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/virgindade-de-maria-e-palavra-de-deus\/","title":{"rendered":"Virgindade de Maria e Palavra de Deus"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em tempo de Advento, a virgem\nMaria \u00e9 uma centralidade inevit\u00e1vel, sublinhada a cores pela liturgia da\nIgreja. Ela \u00e9 a M\u00e3e que cede o protagonismo ao Natal do filho. Mas, quando a\nrevela\u00e7\u00e3o b\u00edblica descreve o <em>Natal<\/em> de Jesus, implica\nMaria no mist\u00e9rio desse <em>Nascimento<\/em>, contando que ela era virgem e\nque, antes de coabitar com Jos\u00e9, seu esposo, \u201cse encontrou gr\u00e1vida por obra do\nEsp\u00edrito Santo\u201d. O mensageiro do Senhor diz a Jos\u00e9: \u201co gerado nela \u00e9 do\nEsp\u00edrito Santo; dar\u00e1 \u00e0 luz um filho e p\u00f4r-lhe-\u00e1s o nome de Jesus\u201d (Mt 1,18-25).\nLucas (1,26-38) explicita que ela era \u201cvirgem desposada\u201d com Jos\u00e9 e que \u201cn\u00e3o\nconhecia var\u00e3o\u201d; um anjo anuncia-lhe: \u201cconceber\u00e1s no teu seio e dar\u00e1s \u00e0 luz um\nfilho, a quem dar\u00e1s o nome de Jesus\u2026; o Esp\u00edrito Santo vir\u00e1 sobre ti\u2026; por\nisso, aquele que nascer\u00e1 ser\u00e1 chamado Filho de Deus\u201d. Afirmando assim a <em>virgindade de\nMaria<\/em> e a concep\u00e7\u00e3o virginal do filho, a tradi\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica queria\nconfessar a sua f\u00e9 em Jesus como <em>Filho de Deus<\/em>, que\nassumiu a natureza humana: a virgindade de Maria e o nascimento virginal de\nJesus simbolizam a transcend\u00eancia e divindade dele. Depois a Teologia procurou,\nn\u00e3o demonstrar\/comprovar, mas tornar razo\u00e1vel para a f\u00e9 esta verdade b\u00edblica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos relatos de Mateus e de Lucas que a descrevem\nchama logo a aten\u00e7\u00e3o o g\u00e9nero de linguagem, toda ela evocativa das Escrituras\njudaicas inspiradas e da atmosfera espiritual e liter\u00e1ria do mundo b\u00edblico. O\nleitor mergulha logo em tantas passagens do Antigo Testamento crist\u00e3o. Cada uma\ndas cinco cenas de Mt 1-2 est\u00e1 sugestivamente iluminada por uma cita\u00e7\u00e3o\nprincipal do Antigo Testamento, tendo como refer\u00eancia o tema do <em>menino<\/em>: s\u00e3o um ramalhete\nde flores colhidas do campo das Escrituras para ornar a figura de Jesus. Tamb\u00e9m\nLc 1-2 envolve a imagem de Jesus menino na roupagem liter\u00e1ria do Antigo\nTestamento, pintada com as suas cores, tra\u00e7os caracter\u00edsticos e conte\u00fados. Os <em>textos<\/em> da anuncia\u00e7\u00e3o do\nanjo a Maria, do seu <em>Magnificat<\/em>\ne do <em>Benedictus<\/em>\nde Zacarias est\u00e3o <em>tecidos<\/em>\ncom as malhas (temas, imagens, figuras, personagens, an\u00fancio do nascimento de\nmeninos, express\u00f5es e palavras) da <em>p\u00e1gina\nsagrada<\/em>, significando assim que Jesus realizava j\u00e1 desde a sua\nconcep\u00e7\u00e3o na natureza humana o projecto de Deus para salvar a humanidade, l\u00e1\ndescrito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ora, este procedimento liter\u00e1rio que recorria \u00e0s\nEscrituras com a inten\u00e7\u00e3o de iluminar realidades e acontecimentos do tempo\npresente era corrente no mundo judaico ao tempo da redac\u00e7\u00e3o dos evangelhos. Era\nconhecido com o nome hebraico <em>midr\u00e1\u0161<\/em>.\nA palavra significa \u00abinvestiga\u00e7\u00e3o, procura, busca\u00bb. <em>Procurava<\/em> o sentido para a vida em textos\ndas Escrituras can\u00f3nicas. Buscava Deus para dar sentido humano e espiritual a\numa situa\u00e7\u00e3o concreta, social, familiar, cultual\u2026 Partia de factos reais do\npresente, procurando interpret\u00e1-los e ilumin\u00e1-los com as Escrituras. Produzia\nv\u00e1rios <em>g\u00e9neros liter\u00e1rios<\/em>,\npor exemplo, <em>midr\u00e1\u0161<\/em>\nem forma de homilia, quando comentava a Escritura na sinagoga. Quando cruzava a\nnarrativa fundadora da f\u00e9 na Escritura com a vida do narrador suscitando uma\nnova narrativa, acontecia <strong><em>midr\u00e1\u0161<\/em><\/strong><strong> narrativo<\/strong>, que abunda no\nNovo Testamento, cujos escritores conheciam \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o princ\u00edpios,\nprocedimentos, t\u00e9cnicas e regras do seu funcionamento. \u00c9 essa a forma liter\u00e1ria\nespec\u00edfica das narrativas do nascimento e da inf\u00e2ncia de Jesus em Mt e Lc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o s\u00e3o hist\u00f3ria propriamente dita. S\u00e3o medita\u00e7\u00e3o em\nforma de narra\u00e7\u00e3o. O <em>midr\u00e1\u0161<\/em>\nbrinda a chave de interpreta\u00e7\u00e3o de factos hist\u00f3ricos, do futuro Jesus e da sua\nobra. \u00c9 linguagem imag\u00e9tica, qual \u2018abertura\u2019 que d\u00e1 o tom divino e o alcance\nhumano \u00e0 sinfonia da sua vida. Celebra o assombro e o encantamento perante as\nmaravilhas de Deus naquele menino. Narrando, n\u00e3o inventa nada sobre Jesus:\nproclama a sua identidade e a sua miss\u00e3o messi\u00e2nica, usando a linguagem da\npr\u00f3pria palavra de Deus nas Escrituras. Elas ajudam a penetrar no mist\u00e9rio e a\nexprimi-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <em>midr\u00e1\u0161<\/em>\nfaz dizer, \u00e0 passagem da Escritura que cita, uma ideia nova: rescreve-a,\ndando-lhe um sentido novo. \u00c9 o salto que d\u00e1 Mt 1,22-23 citando Isa\u00edas 7,14. O\nprofeta tinha dito: \u201cEis que uma <em>donzela<\/em>\nconcebeu e dar\u00e1 \u00e0 luz um filho e p\u00f4r-lhe-\u00e1 o nome de <em>Emanuel<\/em>\u201d. Referia-se ao nascimento do filho\nda rainha donzela, o rei Ezequias, com um nome prof\u00e9tico, simb\u00f3lico, \u00ab<em>Deus connosco<\/em>\u00bb, porque no\nseu reinado de 29 anos fora s\u00edmbolo da presen\u00e7a, protec\u00e7\u00e3o e b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus\npara o povo de Jud\u00e1. Mateus, narrando a concep\u00e7\u00e3o e o nascimento de Jesus, para\nsignificar que ele era agora a verdadeira Presen\u00e7a de Deus no meio do seu povo,\nadoptou e adaptou a cita\u00e7\u00e3o de Isa\u00edas, propositadamente segundo a vers\u00e3o grega\nj\u00e1 existente desde o s\u00e9c. II a.C. Esta tinha traduzido a \u201cdonzela\u201d do hebraico\npor <em>parth\u00e9nos<\/em>,\nque significa <em>donzela<\/em>\nmas tamb\u00e9m <em>virgem<\/em>.\nPegando na significa\u00e7\u00e3o \u2013 poss\u00edvel \u2013 de <em>virgem<\/em>,\nMateus afirmava que Jesus n\u00e3o era um homem qualquer mas sim filho de Maria\nvirgem. Este acrescento de sentido \u00e9 a maravilha realizada pelo <em>midr\u00e1\u0161<\/em>, que mostra a\ncontinuidade \u2013 e faz acontecer progresso \u2013 na revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica. O <em>midr\u00e1\u0161<\/em> permitia ver no\nplano salv\u00edfico de Deus uma orienta\u00e7\u00e3o dos acontecimentos e da vida para um\nfuturo melhor e para a sua realiza\u00e7\u00e3o: via os factos narrados nas Escrituras\ngr\u00e1vidos de sentido humano e religioso, sentido dado pela iniciativa divina,\nsentida na hist\u00f3ria por meio da f\u00e9.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;\n(<em>continuar\u00e1<\/em>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Em tempo de Advento, a virgem Maria \u00e9 uma centralidade inevit\u00e1vel, sublinhada a cores pela liturgia da Igreja. 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