{"id":2246,"date":"2019-09-30T02:06:54","date_gmt":"2019-09-30T02:06:54","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2246"},"modified":"2019-09-26T08:42:36","modified_gmt":"2019-09-26T08:42:36","slug":"o-professor-e-o-mestre-da-palavra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/o-professor-e-o-mestre-da-palavra\/","title":{"rendered":"O professor e o Mestre da palavra"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jesus \u00e9 chamado\nexpressamente <em>rabbi<\/em> e reconhecido como tal. A palavra at\u00e9 aparece\ntraduzida do hebraico e do aramaico para o grego do Novo Testamento como <em>did\u00e1skalos<\/em>:\n<em>mestre<\/em>, <em>professor<\/em>. <em>Did\u00e1skalos<\/em> aparece 48 vezes e <em>rabbi<\/em>\n18 vezes, s\u00f3 nos evangelhos. \u00c9 uma faceta de Jesus pouco atendida. Ele, que n\u00e3o\nera sacerdote nem pertencia \u00e0 tribo sacerdotal de Levi, aparece rodeado da aura\nde Mestre: \u201cOs escribas sentaram-se na c\u00e1tedra de Mois\u00e9s\u2026; querem que a gente\nos chame <em>rabbi<\/em>; v\u00f3s, por\u00e9m, n\u00e3o vos deixeis chamar <em>rabbi<\/em>, porque\num s\u00f3 \u00e9 o vosso Mestre [<em>did\u00e1skalos<\/em>]\u201d (Mt 23,7-8). O pedagogo itinerante\nda Galileia, o dial\u00e9ctico virtuoso da palavra apresenta-se como professor aos\nque se disp\u00f5em a escut\u00e1-lo. Juntando-se em Esp\u00edrito aos dois disc\u00edpulos de\nEma\u00fas, aparece como aut\u00eantico Mestre. Primeiro tratou-os como alunos\ndesatentos: \u201c\u00d3 homens sem intelig\u00eancia e lentos de esp\u00edrito para crer em tudo o\nque os profetas anunciaram!\u201d Depois ensinou-os a interpretar os cl\u00e1ssicos:\n\u201ccome\u00e7ando por Mois\u00e9s e seguindo por todos os profetas, explicou-lhes [<em>di<\/em>&#8211;<em>erm\u00e9neusen<\/em>:\nfez-lhes <em>hermen\u00eautica<\/em>] em todas as Escrituras tudo o que lhe dizia\nrespeito\u201d (Lc 24,25-27). Esse ensino fascinante seduziu-os: \u201cfica connosco\u2026\u201d C\u00e1\nest\u00e1 o ensino a elevar o n\u00edvel das rela\u00e7\u00f5es humanas e a gerar comunh\u00e3o de\npessoas, a gerar amor. A sedu\u00e7\u00e3o in\u00e9dita que sentiram pelo Mestre deu \u00e0s suas\nsensa\u00e7\u00f5es uma virgindade ardente, inviol\u00e1vel: \u201cn\u00e3o nos ardia o cora\u00e7\u00e3o quando\nele nos falava pelo caminho e nos abria de par em par [<em>di\u00e9noigen<\/em>] as\nEscrituras?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao contr\u00e1rio do grego S\u00f3crates, o Mestre Galileu escolhe os seus\ndisc\u00edpulos: \u201cMestre, seguir-te-ei para qualquer parte que v\u00e1s. Jesus\nacautelou-o: as raposas t\u00eam tocas e as aves do c\u00e9u t\u00eam ninhos, mas o Filho do\nhomem n\u00e3o tem onde reclinar a cabe\u00e7a. A outro disse: Segue-me. Ele respondeu:\ndeixa-me primeiro enterrar o meu pai. Jesus retorquiu: deixa que os mortos\nenterrem os seus mortos\u201d (Lc 9,57-60). Recruta-os com radicalismo. Mas n\u00e3o\nexclui ningu\u00e9m. Tinha multid\u00f5es de disc\u00edpulos, que seguiam lealmente a sua\ninstru\u00e7\u00e3o: \u201cas multid\u00f5es ficavam vivamente impressionadas com o seu ensino (<em>didakh\u00e9<\/em>),\nporque ele os ensinava (<em>did\u00e1skon<\/em>) como quem tem autoridade e n\u00e3o como os\ndoutores da Lei\u201d (Mt 7,29).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Habituados como estamos a ver Jesus como salvador, descuramos a\ninflu\u00eancia que ele exerceu na forma\u00e7\u00e3o da nossa mentalidade e cultura enquanto\nmestre da palavra, ele que era <em>a<\/em> Palavra. Mas o insuspeito judeu G.\nSteiner diz: \u201c\u00c9 virtualmente imposs\u00edvel compreender a evolu\u00e7\u00e3o do intelecto\nocidental, de Herder a Hegel, de Kierkegaard a Nietzsche\u2026, sem as presen\u00e7as\ninspiradoras de S\u00f3crates e de Jesus\u201d (<em>As li\u00e7\u00f5es dos mestres<\/em> [Gradiva;\nLisboa 2005] 37). Os professores atentem nesta nota: quando os evangelhos\ndeclaram Jesus <em>rabbi<\/em>, proclamam-no <em>Mestre<\/em>, algu\u00e9m que tem muito a\nensinar: \u201caprendei de mim, que sou manso e humilde de cora\u00e7\u00e3o\u201d (Mt 11,29). O\nque ele tem a ensinar est\u00e1 no Novo Testamento. As suas par\u00e1bolas incarnam\naquilo que \u00e9 decisivo e inexplic\u00e1vel na arte de ensinar: a nossa rela\u00e7\u00e3o com o\nreino de Deus, que nos transcende e completa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acima de tudo, Jesus ensina \u201ccome l\u2019uom s\u2019etterna\u201d, como diria\nDante (<em>Divina Com\u00e9dia<\/em>, Inferno, XV, 85): \u201censina como o homem se\neterniza\u201d, se imortaliza. O ser humano \u00e9, n\u00e3o s\u00f3 aquele que vive, mas tamb\u00e9m\naquele que sobrevive. Afortunados os disc\u00edpulos e os mestres cujo Mestre\nsupremo deu sentido \u00e0 morte: \u201cEu sou a ressurrei\u00e7\u00e3o. Quem cr\u00ea em mim, mesmo que\ntenha morrido, viver\u00e1; e todo aquele que vive e cr\u00ea em mim n\u00e3o morrer\u00e1 para\nsempre\u201d (Jo 11,25-26).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fome do radical sentido da alma obriga o disc\u00edpulo a regressar\nrepetidamente aos mestres b\u00edblicos fundadores, que para Dante seriam a \u201c<em>nostra\nmaggior musa<\/em>\u201d (<em>Divina Com\u00e9dia<\/em>, Para\u00edso, XV, 26). Rel\u00ea-los como\nnossos contempor\u00e2neos, deixar-se cativar por eles \u00e9 um acto de inspira\u00e7\u00e3o e de\noxigena\u00e7\u00e3o da mente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o qualificativo <em>Rabbi<\/em> n\u00e3o \u00e9 exclusivo de Jesus. O\nrabino Saulo era professor versado nas Sagradas Escrituras: aut\u00eantico biblista\nde hoje, sumo artista da palavra, formado na melhor escola de Sagrada Escritura\nde ent\u00e3o, em Jerusal\u00e9m, \u201caos p\u00e9s de Gamaliel\u201d, \u201cdoutor da Lei respeitado por\ntodo o povo\u201d (Act 22,3; 5,34). Sabemos como ele influenciou, mais do que\nqualquer escritor antigo, a literatura e os mestres do Ocidente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em linha com a revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica, S.\nAgostinho resume nos <em>Serm\u00f5es<\/em>: \u00abn\u00f3s falamos; mas \u00e9 Deus que ensina\u00bb. Os\nmestres cl\u00e1ssicos n\u00e3o faziam por menos: invocavam as musas transcendentes, as\ncantoras da alma, para inspirarem o seu <em>dizer<\/em>. No fundo assentava a\nideia de que, apelando para o transcendente, superamos as nossas capacidades de\nsentir e dizer: abrindo-nos \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o divina, sentimos que somos mais do que\naquilo que fazemos, que valemos mais do que aquilo que sabemos e sabemos mais\ndo que aquilo que pensamos. Na <em>Divina Com\u00e9dia<\/em>, Dante dizia que <em>mio\nmaestro<\/em> \u00faltimo \u00e9 a Divindade. \u00c9 a intui\u00e7\u00e3o que j\u00e1 emerge de cada p\u00e1gina da\nB\u00edblia. Os mestres que foram os profetas fazem remontar a Deus a mensagem que\ncomunicam: \u00abDeus disse a Mois\u00e9s&#8230;\u00bb, \u00abo Senhor disse-me\u00bb, \u00abo Senhor disse a\nJeremias\u00bb. Assim, a palavra b\u00edblica aparece como <em>t\u014dr\u00e1<\/em>\/instru\u00e7\u00e3o divina\ninspirada e inspiradora, suscitando atitudes de abertura, tanto rara quanto\nraros s\u00e3o os verdadeiros Mestres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Jesus \u00e9 chamado expressamente rabbi e reconhecido como tal. 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