{"id":2199,"date":"2019-08-31T02:26:36","date_gmt":"2019-08-31T02:26:36","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2199"},"modified":"2019-08-29T15:02:09","modified_gmt":"2019-08-29T15:02:09","slug":"educacao-e-palavra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/educacao-e-palavra\/","title":{"rendered":"Educa\u00e7\u00e3o e Palavra"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O curso dos acontecimentos de Setembro vai convocando alunos de\ntodos os cursos para a Escola B\u00e1sica, para o Liceu, para os Col\u00e9gios e para a\nUniversidade. Espontaneamente ocorre-nos a realidade da educa\u00e7\u00e3o pela palavra;\nocorre-nos o tema da forma\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e dos jovens para aprenderem a\nenfrentar a vida e a triunfar dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma ideia que perpassa a obra de Plat\u00e3o est\u00e1 expl\u00edcita neste seu\ntrecho: Os \u201cque fazem a totalidade da educa\u00e7\u00e3o\u2026 modelam \u00e0 sua vontade homens e\nmulheres, jovens e velhos\u201d (<em>A Rep\u00fablica<\/em>, livro VI, 492a-493a).\nFazendo-lhe eco, o pensador Ortega y Gasset, numa confer\u00eancia sobre \u00abA\npedagogia social\u2026\u00bb em 1910, interpelava os pais desta forma: \u201cReparai nos\nvossos filhos que entregais a um educador: estais a colocar o vosso ouro nas\nm\u00e3os de um ourives, cuja arte desconheceis. Que ideia acerca do homem ter\u00e1 a\npessoa que vai humanizar os vossos filhos? Qualquer que seja essa ideia, ser\u00e1\nindel\u00e9vel a marca que deixar\u00e1 neles\u201d (I, 510). De facto, ensinar a s\u00e9rio \u00e9\nlidar com o que de mais vital existe num ser humano. \u00c9 aceder ao \u00e2mago da\nintegridade de uma crian\u00e7a. \u00c9 invadir a sua intimidade. O acto de ensinar \u00e9\nessa assustadora interfer\u00eancia na alma, no desenvolvimento de outro ser humano:\nmolda-o, se ele escuta e aceita. O bom ensino pode construir e purificar a sua\nvida. O mau ensino, a rotina pedag\u00f3gica pode ser ruinosa e arrancar a esperan\u00e7a\npela raiz: pode ser o coveiro de uma flor a desabrochar. Para milh\u00f5es de\npessoas, a Matem\u00e1tica, a F\u00edsica, a Filosofia, a poesia e o pensamento l\u00f3gico\nforam destru\u00eddos por um ensino vazio, pela mediocridade de pedagogos\nfrustrados. Os professores que alimentam a chama nascente na alma do aluno s\u00e3o\nporventura mais raros do que os m\u00fasicos virtuosos ou os s\u00e1bios. Mas os que o\ns\u00e3o despertam o talento de uma crian\u00e7a ou de um adolescente; com a palavra p\u00f5em\nem marcha uma ideia mobilizadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De facto, desde os tempos romanos <em>educar<\/em> (de <em>eductio<\/em>,\n<em>educatio<\/em>) consiste em <em>tirar d<\/em>o educando o que ele j\u00e1 tem ou j\u00e1 \u00e9\ncomo potencialidade; consiste em converter algo menos bom em algo melhor.\nAssim, os educadores obt\u00eam de um indiv\u00edduo imperfeito um homem cheio de\nirradia\u00e7\u00f5es virtuosas. De um indiv\u00edduo que congenitamente n\u00e3o \u00e9 s\u00e1bio nem\nen\u00e9rgico, o educador por meio da sua bondade, de sabedoria e de alguma t\u00e9cnica\npedag\u00f3gica pode conseguir levar um indiv\u00edduo a ser o que deve ser, n\u00e3o a partir\nde qualquer ideia moralista, mas a partir do imperativo de autenticidade a que\ncada um tem de ser fiel. No melhor sentido, educar \u00e9 humanizar, \u00e9 tornar sempre\nmais humano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entendidos assim, o ensino e a educa\u00e7\u00e3o (\u00aba ensinar somos chamados\nalgumas horas; a educar, sempre\u00bb: Miguel de Unamuno) t\u00eam profundas ra\u00edzes\nb\u00edblicas, desde a transmiss\u00e3o da <em>T\u014dr\u00e1<\/em> escrita e oral por Mois\u00e9s ao povo\nde Israel (entenda-se a met\u00e1fora!), passando pela <em>instru\u00e7\u00e3o<\/em> ministrada\npelos profetas (<em>instru\u00e7\u00e3o<\/em> \u00e9 o mais genu\u00edno significado de <em>T\u014dr\u00e1<\/em>),\nat\u00e9 ao ensino de Jesus e de Paulo. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pensar o povo b\u00edblico\ndesligado do ensino. Ele \u00e9 inflexivelmente did\u00e1ctico. O ensino \u00e9 inerente \u00e0 f\u00e9\nb\u00edblica. O di\u00e1logo cont\u00ednuo entre Deus e o seu povo tem, na B\u00edblia, a marca de\numa rela\u00e7\u00e3o de magist\u00e9rio. A <em>T\u014dr\u00e1<\/em> atribu\u00edda a Mois\u00e9s, os an\u00fancios e as\nden\u00fancias dos profetas, os Salmos inspirados no g\u00e9nio de David e os tesouros da\nsabedoria de Israel s\u00e3o um aut\u00eantico programa de estudo, um manual para a\ninstru\u00e7\u00e3o, um vi\u00e1tico para a vida, uma palavra para a ac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os s\u00e1bios b\u00edblicos projectavam jorros de luz sobre o lugar a dar a\nDeus na hist\u00f3ria humana. Com a sua palavra sobre a vida, as suas senten\u00e7as s\u00e3o\nconcentrados de vida vivida, que se oferece e se d\u00e1 gratuitamente para iluminar\noutras vidas. A sabedoria b\u00edblica era educa\u00e7\u00e3o do olhar para a vida. Mas\nsimultaneamente estava permeada de f\u00e9 em Deus. Uma espiritualidade subliminar\nimpregnava todo o viver e a reflex\u00e3o sobre a experi\u00eancia. Os s\u00e1bios tinham em\ncomum com os profetas o seu olhar atento \u00e0 hist\u00f3ria humana. Tiravam li\u00e7\u00f5es da\nhist\u00f3ria passada para tra\u00e7arem os caminhos da hist\u00f3ria presente e futura.\nSobretudo, ensinavam que as pequenas e grandes escolhas, as ac\u00e7\u00f5es e atitudes\nhumanas n\u00e3o s\u00e3o indiferentes: t\u00eam consequ\u00eancias na vida, determinando-a para o\nbem ou para ao mal. Isso nota-se ainda hoje na forte ideia de <em>tradi\u00e7\u00e3o<\/em>\nque inspira o povo judeu e lhe d\u00e1 o sentido de equil\u00edbrio na diversidade social\ne na unidade familiar: \u00e9 decantada no delicioso filme <em>Fiddler on the roof<\/em>,\ncom o constante escrut\u00ednio das op\u00e7\u00f5es fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u2018homem b\u00edblico\u2019 est\u00e1\npermanentemente a ser examinado, na fidelidade e no amor, tomando assiduamente\nconsci\u00eancia da fidelidade da sua rota ao mapa dos des\u00edgnios de Deus. A sua\nforma\u00e7\u00e3o dura a vida inteira. Esta rela\u00e7\u00e3o did\u00e1ctica \u00e9 um di\u00e1logo variado,\ndesde a adora\u00e7\u00e3o e a obedi\u00eancia, como nas pessoas de Isa\u00edas e de Jeremias, at\u00e9\n\u00e0 ora\u00e7\u00e3o confiante e \u00e0 interroga\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, como nalguns salmos e no\nQoh\u00e9let, e at\u00e9 ao protesto vivo que quer entender mais, como na figura de Job.\nIsrael define-se a si pr\u00f3prio pela rela\u00e7\u00e3o de disc\u00edpulo de Deus. O Deus de\nIsrael \u00e9 o reitor da escola que \u00e9 a vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD O curso dos acontecimentos de Setembro vai convocando alunos de todos os cursos para a Escola B\u00e1sica, para o Liceu, para os Col\u00e9gios e para a Universidade. 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