{"id":2182,"date":"2019-07-31T07:55:24","date_gmt":"2019-07-31T07:55:24","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2182"},"modified":"2019-07-31T07:55:30","modified_gmt":"2019-07-31T07:55:30","slug":"palavras-com-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/palavras-com-tempo\/","title":{"rendered":"Palavras com tempo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas f\u00e9rias,\npensamos no melhor uso a dar ao breve tempo que elas duram e ao tempo que nos \u00e9\ndado passar na pousada da vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do tempo de f\u00e9rias dir\u00e3o: \u2018Enquanto dura\u2026, vida\ndo\u00e7ura! Quando acaba\u2026, como te amava!\u2019 Do tempo em geral\ndizem: <em>Time is money<\/em>. Ent\u00e3o n\u00e3o o deixemos roubar: distrac\u00e7\u00f5es,\nbanalidades, murmura\u00e7\u00f5es, intrigas, mexericos e decis\u00f5es erradas\u2026 s\u00e3o ladr\u00f5es\nque n\u00e3o podemos levar \u00e0 justi\u00e7a dum tribunal. N\u00e3o o podemos perder: \u00e9 precioso.\n\u00c9 um amigo que se d\u00e1 todo: se por minha culpa o perder hoje, n\u00e3o o encontro\namanh\u00e3: n\u00e3o volta mais. Nem vale a pena cantar-lhe: \u00ab\u00d3 tempo, volta para tr\u00e1s!\nTraz-me tudo o que eu perdi\u2026\u201d. Da sua ess\u00eancia \u00e9 ser irrevers\u00edvel. At\u00e9 a\nfilosofia pregava sobre ele: \u201cA vontade nada pode sobre o que fica atr\u00e1s de si.\nN\u00e3o poder destruir o tempo nem a avidez devoradora do tempo: eis o fracasso\nmais solit\u00e1rio da vontade\u2026 N\u00e3o poder o tempo voltar atr\u00e1s, eis o que a\nenfurece. O facto c<em>onsumado<\/em> \u00e9 o rochedo que ela n\u00e3o pode mover\u201d: F.\nNietzsche, <em>Assim falava Zaratustra<\/em> (Presen\u00e7a; Oeiras 2010) 165-166.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas ao fil\u00f3sofo responde com\noutra vis\u00e3o o te\u00f3logo (S. Paulo, Ef 5,15-16): \u201cVede atentamente como caminhais\n<\/p>\n\n\n<p>[conduzis a vida]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">, n\u00e3o como insensatos, mas como s\u00e1bios, resgatando o tempo [<em>kair\u00f3n<\/em>]\u201d,\nisto \u00e9, comprando ou recuperando avidamente o tempo perdido, usando o que ele\nainda oferece como <em>ocasi\u00e3o oportuna<\/em>, <em>kair\u00f3s<\/em>, para a salva\u00e7\u00e3o.\nPaulo j\u00e1 tinha declarado: \u201cEis o que vos digo, irm\u00e3os: o tempo [<em>kair\u00f3s<\/em>]\n\u00e9 breve\u201d (1Cor 7,29), o <em>tempo oportuno<\/em> \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o na carreira\nterrestre tem dura\u00e7\u00e3o curta. \u00c9 um convite a explorar cada ocasi\u00e3o que se nos\noferece para ser integralmente felizes, para amar, para dar. Ent\u00e3o o tempo \u00e9\nmais que dinheiro: \u00e9 um tesouro a guardar bem, sem o malbaratar. Do ser <em>s\u00e1bio<\/em>\nfaz parte o sentido de oportunidade, sem dramatismo: horas desaproveitadas\ncausam perdas irrepar\u00e1veis. Os antigos aconselhavam: \u2018Vive intensamente\na hora presente, tendo sempre presente a \u00faltima\u2019. O\n<em>s\u00e1bio<\/em> faz do tempo horas vivas.\n\n<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mesmo fez Jesus. Quando em par\u00e1bolas (Mt 13,36-43) fala da \u201cceifa que \u00e9 o fim do mundo\u201d,\nparecendo amea\u00e7ar que \u201ctodos os que praticam a iniquidade ser\u00e3o lan\u00e7ados na\nfornalha ardente, onde haver\u00e1 choro e ranger de dentes\u201d, n\u00e3o amea\u00e7a. Usa\nlinguagem apocal\u00edptica, figurativa. Nem descreve o que suceder\u00e1 no fim dos\ntempos. Apela \u00e0 boa viv\u00eancia do tempo presente. Sugere que cada\nencontro com uma pessoa como oportunidade para fazer o bem \u00e9 um \u00abagora ou\nnunca\u00bb. N\u00e3o se repete. A mesma \u00e1gua n\u00e3o volta a passar debaixo da mesma ponte.\n\u201cVigiai, portanto, porque n\u00e3o sabeis nem o dia nem a hora\u201d (Mt 25,13).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando alcan\u00e7amos a maturidade,\nparece que, para os nossos sonhos e projectos, j\u00e1 \u00e9 tarde. \u00c9 verdade:\nrelativamente ao dia em que nascemos o nosso <em>hoje<\/em> \u00e9 sempre tarde. Porque\ntrazemos dentro de n\u00f3s um poeta, um jogador, um artista, um profissional, um\nher\u00f3i que aspira a realizar-se e ainda se sente insatisfeito, podemos dar por\nn\u00f3s a pensar: juventude do meu corpo, que longe me vais ficando! Mas Dem\u00f3stenes\ndisse: o tempo para tirar uma li\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria est\u00e1 sempre \u00e0 m\u00e3o dos s\u00e1bios.\nE, para a f\u00e9 crist\u00e3, em rela\u00e7\u00e3o a Deus estamos sempre a tempo de recome\u00e7ar com\nf\u00f4lego renovado. Vivendo no amor eterno de Deus, <em>hoje<\/em> nunca \u00e9 tarde de\nmais para acordar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A isso ajudam as f\u00e9rias.\nBem passadas, transportam-nos do tempo para o eterno. Ali\u00e1s, o amor aut\u00eantico\nvivido no tempo quer e exige eternidade. As f\u00e9rias oferecem-nos uma degusta\u00e7\u00e3o\nantecipada do \u00abdolce far niente\u00bb, o \u00f3cio m\u00edtico que d\u00e1 real conte\u00fado a\ndeliciosos sabores, a inebriantes sons e a suaves cores, que servem de\nenquadramento a conversa\u00e7\u00f5es temperadas com n\u00e9ctar e ambr\u00f3sia, palavras\napraz\u00edveis e infind\u00e1veis. O tempo <em>pausado<\/em> das f\u00e9rias \u00e9 terapia pessoal\npara a experi\u00eancia da <em>fugacidade<\/em> do ano de trabalho,\ndo ano lectivo, do ano pastoral. \u00c9 uma gra\u00e7a que retempera os restantes dias do\nano civil com a sua for\u00e7a simb\u00f3lica: \u00e9 perfume que liberta a\nvida. Carrega as baterias com alento para os caminhos pedregosos percorridos ao\nlongo do ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O gozo do <em>tempo livre<\/em>,\ntempo sem tempo, os dias de festa da aldeia, da vila, do concelho \u2013\ncomo as celebra\u00e7\u00f5es em honra dos santos ao longo do ano \u2013 s\u00e3o o lugar onde o\nhumano melhor se <em>diz<\/em>. Celebrar \u00e9 o melhor viver, n\u00e3o tanto por causa da\nfestan\u00e7a, do festim ou da festarola, mas pelo tempo <em>festivo<\/em>, que sublinha\na import\u00e2ncia da vida e acentua a alegria de viver. Quando as f\u00e9rias, al\u00e9m de\noutros banhos, s\u00e3o banhadas por boas leituras, pela conversa\u00e7\u00e3o restauradora e\npela ora\u00e7\u00e3o silenciosa \u2013 palavras sem tempo a Deus a partir de dentro \u2013\nsinto-me ro\u00e7ado pela alegria inextingu\u00edvel: oi\u00e7o o canto submisso da lira a\nsalmodiar em un\u00edssono com a natureza, m\u00fasica que toca o cora\u00e7\u00e3o, melodia\nverdadeira que se reconhece mas que n\u00e3o se pode transcrever. \u201cNo abra\u00e7o do\nhomem interior que h\u00e1 em mim, brilha para a minha alma o que n\u00e3o ocupa lugar e\u2026\nressoa o que o tempo n\u00e3o rouba\u201d (S. Agostinho, <em>Confiss\u00f5es<\/em>, X, 6, 8). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto vamos abrindo sulcos\nimperfeitos no terreno da vida e semeamos amores-perfeitos com os companheiros\nde viagem, o tempo faz que o amor cres\u00e7a e perfume outras vidas. Tudo o tempo\nlevou: menos o amor investido no que fomos fazendo e dando. Tudo o tempo leva:\nmenos os nossos sonhos, car\u00edcias e afectos, a f\u00e9 e a esperan\u00e7a que vira o vento\nao contr\u00e1rio e o faz soprar a nosso favor. Do alto trono da transcend\u00eancia,\nDeus olha para os jogos das mar\u00e9s e do mar, do sol e da areia dourada na praia\nde todos os que fazem f\u00e9rias, aben\u00e7oando-as.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Nas f\u00e9rias, pensamos no melhor uso a dar ao breve tempo que elas duram e ao tempo que nos \u00e9 dado passar na pousada da vida. 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