{"id":2108,"date":"2019-04-30T15:06:29","date_gmt":"2019-04-30T15:06:29","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2108"},"modified":"2019-04-26T13:32:29","modified_gmt":"2019-04-26T13:32:29","slug":"a-palavra-e-o-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-e-o-trabalho\/","title":{"rendered":"A palavra e o trabalho"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que h\u00e1 a festejar no\ndia 1 de Maio? O trabalho? Ou o emprego? O trabalho \u00e9 para idealizar ou para\nescrever com mai\u00fascula? \u00c9 que anda meio mundo em busca de emprego, mas depois\nparece n\u00e3o gostar do trabalho. Se gostasse, n\u00e3o faria tantas greves, impostas\ncom ou sem raz\u00e3o. Gosta-se de ter emprego, n\u00e3o de ter trabalho. \u00c9 compreens\u00edvel.\nJ\u00e1 para os gregos antigos, ele era uma pena, um fardo, um peso, porventura um\nmal necess\u00e1rio. E acerca de certos trabalhos p\u00f5e-se a quest\u00e3o: s\u00e3o valor ou\ninstrumento? Instrumento de\npress\u00f5es, injusti\u00e7as, viol\u00eancia, ditaduras\u2026, dos dadores e dos prestadores de\ntrabalho. Certos trabalhos de hoje,\nespecialmente os que usam novas tecnologias alienantes com ritmos fren\u00e9ticos,\ndesumanizam. No Jap\u00e3o progressista em termos de trabalho, jovens raparigas\nest\u00e3o a suicidar-se por n\u00e3o aguentarem os ritmos vertiginosos do trabalho.\nErigido em ideal absoluto de vida, \u00e9 um embuste. Se fosse assim t\u00e3o bom, os\ntrabalhadores n\u00e3o exigiriam ser mais bem pagos. A ign\u00f3bil palavra que encimava\nos campos de exterm\u00ednio nazi \u2013 \u00abArbeit macht frei\u00bb: \u00abO trabalho torna [a pessoa]\nlivre\u00bb \u2013 na realidade abria o caminho para a escravid\u00e3o e para a morte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, porqu\u00ea n\u00e3o\ndedicar antes uma festa ao \u00d3cio, o outro p\u00f3lo do trabalho?\nOs te\u00f3ricos do lazer facilmente concordariam em trabalhar s\u00f3 o indispens\u00e1vel\npara viver. Poder\u00edamos cultivar-nos mais, em vez de cultivar batatas. Mas, em\ncontrapartida, levantava-se outra quest\u00e3o: que comer\u00edamos ent\u00e3o? Os livros que\nlemos, os filmes que vemos, os passeios que damos no tempo do \u00f3cio? Os\ncamponeses sabem que sem trabalho nada cresce, a n\u00e3o ser ervas daninhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como\nse v\u00ea, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil lidar com o tema <em>trabalho<\/em>, em que toda a gente est\u00e1\nenvolvida. A B\u00edblia tem a sua forma de lidar com ele. Para o humanizar,\ncontempla-o como criado por Deus. Entre as realidades concretas que integram a humana\ncondi\u00e7\u00e3o e a definem, a narrativa de cria\u00e7\u00e3o divina inclui o trabalho. Como\nconta \u2013 pela f\u00e9 \u2013 que Deus criou tudo o que o ser humano \u00e9 e faz, tamb\u00e9m\n\u2018explica\u2019 o trabalho humano fazendo-o remontar \u00e0 palavra criadora de Deus\n(G\u00e9nesis 2-3). Sendo o trabalho j\u00e1 penoso, o narrador sublimava essa nota\ndizendo que foi atribu\u00eddo por Deus aos humanos em forma de castigo de uma\ntransgress\u00e3o cometida pela Mulher e pelo Homem primordiais (simbolicamente\nrepresentantes de toda a humanidade). Assim dava-lhe sentido de transcend\u00eancia:\nligava-o a Deus, meditava nele diante de Deus. Como pelo vestu\u00e1rio, pelo\nconhecimento, pela consci\u00eancia de si pr\u00f3prio, pela linguagem articulada e pela\ncapacidade de dar sentido ao sofrimento, tamb\u00e9m pelo trabalho distinguia o ser\nhumano dos animais. Sugerindo que \u00e9 por vontade de Deus que o ser humano\ntrabalha, a palavra da f\u00e9 b\u00edblica aceitava o trabalho e dava o mais alto\nsentido ao seu valor ineg\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De facto, enquanto os\nanimais pegam no que a natureza lhes oferece e trabalham obrigados pelo ser\nhumano, este, trabalhando, domina e transforma a natureza (por vezes hostil) a\nseu proveito, arrancando-lhe aquilo de que precisa para viver. Transformando-a,\ntorna-a habit\u00e1vel, d\u00e1-lhe rosto humano, d\u00e1-lhe o fulgor do <em>acabado<\/em>. E\ncresce e evolui ele pr\u00f3prio, procurando equil\u00edbrios diferentes com as pessoas e\ncom as coisas. Com o trabalho, humaniza o seu meio ambiente, humaniza-se e\nrealiza-se a si pr\u00f3prio. Al\u00e9m do mais, o trabalho torna-se lugar de encontro,\nde entreajuda e de solidariedade com outros humanos, contribuindo para eles se\ntornarem sociais e soci\u00e1veis e para constru\u00edrem a sua hist\u00f3ria (esta vis\u00e3o toca\nas raias do trabalho por amor). Na medida em que G\u00e9nesis 2-3 define o humano\ncomo <em>ser para o outro e com o outro<\/em>, o trabalho tamb\u00e9m contribui para a\nsua identidade. Ajuda a\ndescobrir e p\u00f5e \u00e0 prova a capacidade de\nnos superarmos a n\u00f3s pr\u00f3prios.\nE transforma o talento em g\u00e9nio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, a palavra da\nnarrativa sagrada oxigenava o trabalho: j\u00e1 n\u00e3o aparece negativamente marcado\npelo estigma da escravid\u00e3o. N\u00e3o tritura, nem <em>aliena<\/em> o ser humano, como\nse s\u00f3 o <em>tempo livre<\/em> o realizasse e o trabalho o penalizasse. O trabalho\ns\u00f3 o desumaniza se for tomado como sentido \u00faltimo da sua condi\u00e7\u00e3o. A palavra de\ncria\u00e7\u00e3o em G\u00e9nesis 2-3 sugere que, procurando o sentido \u00faltimo do trabalho, a\npessoa \u00e9 remetida para Deus. Esta vis\u00e3o do trabalho n\u00e3o esconde a sua vertente\ndura, cinzenta, \u00e0s vezes \u00e1tona e sem brilho; mas suaviza-a, desvelando a\nvertente positiva, cultural e pessoal como aquela que deve prevalecer. E at\u00e9 consegue\ninjectar-lhe gosto e alegria. A t\u00edtulo de exemplo, o verdadeiro professor,\naquele que ensina a arte de pensar, viver e amar, distingue mal entre trabalho\ne lazer, entre aula de educa\u00e7\u00e3o e recria\u00e7\u00e3o. Procura a excel\u00eancia no que faz e\ndeixa ao patr\u00e3o ou ao Governo a distin\u00e7\u00e3o entre uma e a outra. Sebasti\u00e3o da\nGama, modelo insuspeito de bom professor, diz que este deveria poder dizer:\n\u00abEnt\u00e3o a gente anda aqui t\u00e3o feliz [a ensinar] e no fim do m\u00eas ainda nos d\u00e3o\ndinheiro?\u00bb (<em>Di\u00e1rio<\/em>, p. 53 da edi\u00e7\u00e3o 1962). Onde est\u00e1 hoje Sebasti\u00e3o da\nGama?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Que h\u00e1 a festejar no dia 1 de Maio? O trabalho? Ou o emprego? O trabalho \u00e9 para idealizar ou para escrever com mai\u00fascula? \u00c9 que anda [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2109,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2108","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2108","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2108"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2108\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2110,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2108\/revisions\/2110"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2109"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2108"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2108"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2108"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}