{"id":2076,"date":"2019-03-31T15:05:07","date_gmt":"2019-03-31T15:05:07","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=2076"},"modified":"2019-03-29T16:34:46","modified_gmt":"2019-03-29T16:34:46","slug":"palavra-para-a-quaresma-renuncia-ou-dom","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/palavra-para-a-quaresma-renuncia-ou-dom\/","title":{"rendered":"Palavra para a Quaresma: Ren\u00fancia ou dom?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEntre n\u00f3s e as palavras h\u00e1\u2026 portas por abrir\u201d \u2013 disse o poeta M\u00e1rio Cesariny. E n\u00f3s parafraseamos: Entre n\u00f3s e palavras h\u00e1 la\u00e7os por dar. Muitas palavras est\u00e3o a pedir que lhes abramos mais o sentido e as re-<em>lacio<\/em>nemos, para que respirem melhor, em vez de as apertarmos com um n\u00f3-cego.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, na Quaresma sai-nos ao caminho a palavra \u00abren\u00fancia\u00bb. Est\u00e1 tradicionalmente conotada com conte\u00fados negativos: privar-se, recusar, abdicar, resignar, desistir daquilo a que se tem direito. Mas etimologicamente, do latim&nbsp;<em>renuntiare<\/em>, tamb\u00e9m tem a ver com \u00abanunciar em resposta, expor, proclamar\u00bb. Jesus, convidando \u00e0 radicalidade do seguimento dele, usa a palavra que sempre deixou muita gente perplexa ou a encolher os ombros: \u201cAquele que n\u00e3o&nbsp;<em>renunciar<\/em>&nbsp;aos seus bens n\u00e3o pode ser meu disc\u00edpulo\u201d (Lc 14,33). O receptor desta mensagem mais facilmente v\u00ea em Jesus o rival dos seus bens terrenos do que um atractivo convincente. Mas ent\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 a gerar um mal-entendido? O arauto das bem-aventuran\u00e7as n\u00e3o pode querer o mal de ningu\u00e9m! Logo, seja bem entendido.<\/p>\n\n\n\n<p>O que est\u00e1 em causa no pedido de ren\u00fancia \u00e0s coisas \u00e9, no fundo, a ess\u00eancia do ser humano: a liberdade. \u00c9 o que Jesus pede. Sem ela, n\u00e3o h\u00e1 dignidade humana. Ser humano e ser livre identificam-se. Como \u00e9 que a pessoa demonstra ser livre? Sendo capaz de se erguer acima do simplesmente agrad\u00e1vel ou \u00fatil, para se colocar no seu bem superior e no bem do&nbsp;<em>outro<\/em>, transcendendo os interesses particulares e tratando-se a si pr\u00f3pria e ao&nbsp;<em>outro<\/em>&nbsp;como fim e nunca como meio. Renunciar aos bens \u2013 ser livre \u2013 \u00e9 ser senhor de si e dos seus actos e escolher entre v\u00e1rias coisas boas. Tendencialmente, o ser humano quer tudo o que agrada. Mas tem de escolher um caminho s\u00f3 de cada vez, tendo de renunciar a outros, como nos afectos mais caros: n\u00e3o se podem amar dois senhores do mesmo modo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tocando as fibras humanas mais fundas, a proposta evang\u00e9lica da&nbsp;<em>ren\u00fancia<\/em>&nbsp;\u00e9 subtil. De facto, deixar cair o secund\u00e1rio, despojar-se do relativo para se enriquecer com o absoluto \u00e9 relativamente f\u00e1cil. Mais dif\u00edcil \u00e9 ter de optar entre dois bens igualmente importantes e queridos para ficar s\u00f3 com um. Tal op\u00e7\u00e3o exige saber perder. Mas quando a proposta prov\u00e9m de Jesus, trata-se de perder algo para ganhar tudo! O que porventura mais custa \u00e9 acreditar que na ren\u00fancia o ganho ser\u00e1 maior do que a perda. Custa acreditar que a ren\u00fancia vale a pena: que, afinal, \u00e9 positiva, n\u00e3o negativa. As resist\u00eancias para renunciar, para dar, podem dever-se ao receio de que quem d\u00e1 perde o que d\u00e1. Mas Jesus n\u00e3o tem d\u00favidas quanto ao ganho escondido na aparente perda. Sugere que tudo o que tem valor, ao dar-se, multiplica-se. Ao dar de um lado, ganha-se de outro: \u201cSe algu\u00e9m quiser seguir-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me. Pois quem quiser salvar [n\u00e3o dar] a sua vida, perd\u00ea-la-\u00e1; mas quem perder\/der a sua vida por mim salv\u00e1-la-\u00e1. Pois, de que serve ao homem ter ganhado o mundo inteiro, se ele pr\u00f3prio se perde ou se arru\u00edna?\u201d (Lc 9,23-25 e 17,32-33). \u00c9 o paradoxo que consiste em libertar-se de peias que prendem, para ser livre, impulsionado pela energia de um amor real: isso \u00e9 seguir Jesus. O dom da vida \u00e9 s\u00edmbolo da liberdade, mais do que condi\u00e7\u00e3o para ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Os bens, as riquezas n\u00e3o s\u00e3o m\u00e1s. O seu problema est\u00e1 em serem boas, podendo instituir-se por isso em rivais de Deus, tamb\u00e9m bom, e da liberdade, o maior dom do&nbsp;<em>ser<\/em>&nbsp;humano. Aos ricos Jesus prop\u00f5e a op\u00e7\u00e3o fundamental: \u201cN\u00e3o podeis servir Deus e o dinheiro\u201d (Lc 16,13). N\u00e3o condena a riqueza: sugere que seja serva e n\u00e3o senhora, ao servi\u00e7o do amor aos outros. Outro problema seu \u00e9 poder ocupar com tal fartura a ess\u00eancia do humano que n\u00e3o deixa espa\u00e7o para o essencial, para o sentido definitivo da vida: \u201cOlhai bem\u2026, mesmo que uma pessoa viva na abund\u00e2ncia, a sua vida n\u00e3o depende dos seus bens\u201d (Lc 12,15). S\u00f3 Deus \u00e9 capaz de transformar o cora\u00e7\u00e3o, para que, com abertura, transcenda a rela\u00e7\u00e3o er\u00f3tica com os bens materiais:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Dado que, para procurar Deus, \u00e9 preciso possuir um cora\u00e7\u00e3o desprendido e forte, livre de todos os males e bens que puramente n\u00e3o s\u00e3o Deus, a alma apresenta\u2026 a liberdade e a fortaleza que h\u00e1-de ter para o procurar\u2026 Repare-se que n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os bens temporais e os prazeres corporais que impedem e contrariam o caminho de Deus. Tamb\u00e9m as consola\u00e7\u00f5es e os prazeres espirituais\u2026 impedem o caminho da cruz do Esposo Cristo (S. Jo\u00e3o da Cruz,\u00a0<em>C\u00e2ntico espiritual<\/em>, can\u00e7\u00e3o 3,5).<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A ren\u00fancia aos bens&nbsp;da terra n\u00e3o sup\u00f5e fugir para o deserto; prop\u00f5e tornar-se e sentir-se livre no lidar com eles. Estar preso a eles \u00e9 fonte de ang\u00fastia, especialmente ao n\u00e3o haver oportunidade ou tempo para os gastar. Importante \u00e9 n\u00e3o tornarem a pessoa autocentrada, fechada em si pr\u00f3pria pelas muitas posses.<\/p>\n\n\n\n<p>A cena de Zaqueu a querer seguir Jesus repartindo os seus bens (Lc 19,8) sugere que o seguimos sendo solid\u00e1rios com os outros. A ren\u00fancia que Jesus pede \u00e9 relacionamento novo com ele e com os bens materiais: o amor a ele e \u00e0 sua causa, abra\u00e7ar o seu estilo de vida, fecunda toda a vida e d\u00e1 o sentido \u00faltimo a todos os outros amores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD \u201cEntre n\u00f3s e as palavras h\u00e1\u2026 portas por abrir\u201d \u2013 disse o poeta M\u00e1rio Cesariny. E n\u00f3s parafraseamos: Entre n\u00f3s e palavras h\u00e1 la\u00e7os por dar. 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