{"id":1973,"date":"2018-12-31T09:56:00","date_gmt":"2018-12-31T09:56:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=1973"},"modified":"2018-12-31T09:56:11","modified_gmt":"2018-12-31T09:56:11","slug":"palavras-ao-lado-do-natal-de-jesus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/palavras-ao-lado-do-natal-de-jesus\/","title":{"rendered":"Palavras ao lado do Natal de Jesus"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde Francisco de Assis, o pres\u00e9pio inscreve-se na hist\u00f3ria da humanidade. Resume o esp\u00edrito do <em>Natal<\/em> de Jesus, a festa de um <em>nascimento<\/em> que cont\u00e9m o mist\u00e9rio da incarna\u00e7\u00e3o de Deus no ser humano e desvela d\u2019Ele uma nova imagem. A palavra religiosa, olhar feliz da alma pura, luz do pensamento e expira\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o inspirado, fornecia-lhe figuras, ao mesmo tempo que dava corpo \u00e0 Beleza incarnada por meio de palavras de amor n\u00e3o contido e de esperan\u00e7a no definitivo. Ao longo de s\u00e9culos, cora\u00e7\u00f5es abismados na medita\u00e7\u00e3o transbordaram de poesia, prosa, hinos, ora\u00e7\u00e3o, c\u00e2nticos, enaltecendo o mist\u00e9rio da Palavra incarnada que mal cabia em palavras. Desde os primeiros Padres da Igreja aos monges da Idade M\u00e9dia, de Teresa de Jesus a Teresa do Menino Jesus, de Jo\u00e3o da Cruz a Ana Catarina Emmerich, de Lu\u00eds de Cam\u00f5es a Jos\u00e9 R\u00e9gio, a literatura religiosa serviu de caixa-de-resson\u00e2ncia \u00e0 vitalidade da f\u00e9 no mist\u00e9rio que o Natal de Jesus vela e revela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De entre a exuberante e mais antiga literatura religiosa que cantou o nascimento de Jesus distinguem-se os <strong>livros ap\u00f3crifos<\/strong>, que influenciaram a express\u00e3o de sucessivos escritores, poetas, dramaturgos na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Apesar de exclu\u00eddos do c\u00e2none b\u00edblico por serem simples amplifica\u00e7\u00f5es tardias de textos can\u00f3nicos ou por darem largas \u00e0 ingenuidade e \u00e0 fantasia religiosas ou por conterem desvios da f\u00e9 mais pura, muitos ap\u00f3crifos crist\u00e3os, escritos com recta inten\u00e7\u00e3o entre os fins do s\u00e9c. I e o s\u00e9c. V, cont\u00eam s\u00e3s express\u00f5es da f\u00e9, como a virgindade de Maria e a concep\u00e7\u00e3o virginal de Jesus. Reflectem intensa piedade popular e prop\u00f5em-se preencher lacunas sobre momentos da vida de Jesus que os evangelhos can\u00f3nicos deixam na penumbra ou omitem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto a caracter\u00edstica sobriedade dos can\u00f3nicos s\u00f3 afirma que Maria \u201cdeu \u00e0 luz um filho e [Jos\u00e9] p\u00f4s-lhe o nome de Jesus\u201d (Mt 1,25) e que \u201cteve o seu filho primog\u00e9nito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por n\u00e3o haver lugar para eles na hospedaria\u201d (Lc 2,7), a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 situa o nascimento numa gruta. Vem de v\u00e1rios ap\u00f3crifos. O Livro da Inf\u00e2ncia do Salvador, dependente do Proto-evangelho de Tiago (s\u00e9c. II), conta que, tendo chegado a Bel\u00e9m, Jos\u00e9 procurou um s\u00edtio para Maria dar \u00e0 luz. Viu um est\u00e1bulo solit\u00e1rio e estabeleceu-se l\u00e1. E foi em busca de uma parteira. Chegando \u00e0 gruta, esta viu o excesso de esplendor. Entrando e verificando a virgindade de Maria, exclamou: \u201cVirgem concebeu, virgem deu \u00e0 luz e continua virgem\u201d. E contou a Sim\u00e3o, filho de Jos\u00e9, como viu o nascimento de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando entrei, encontrei [Maria] a olhar para o c\u00e9u e a falar sozinha. Penso que estava em ora\u00e7\u00e3o e bendizia o Alt\u00edssimo\u2026 Nesse momento parou tudo, em absoluto sil\u00eancio e rever\u00eancia: os ventos deixaram de soprar, nenhuma folha se movia nas \u00e1rvores, nem se ouvia o murm\u00fario das \u00e1guas; os rios ficaram im\u00f3veis e o mar sem ondula\u00e7\u00e3o\u2026 O menino resplandecia como o sol, limp\u00edssimo e agradabil\u00edssimo ao olhar, pois s\u00f3 ele apareceu como paz do universo. Na hora em que nasceu ouviu-se a voz de muitos esp\u00edritos invis\u00edveis que diziam \u00e0 uma: \u00ab\u00c1men\u00bb. E aquela luz multiplicou-se e escureceu com o seu esplendor o fulgor do sol, enquanto esta gruta foi inundada de intensa claridade e de um aroma suav\u00edssimo\u2026 Ent\u00e3o enchi-me de coragem: inclinei-me e toquei [no menino], levantei-o nas minhas m\u00e3os com grande rever\u00eancia\u2026 Estando eu admirada ao ver que n\u00e3o chorava como costumam os rec\u00e9m-nascidos e tendo eu o olhar fixo nele, dirigiu-me um sorriso jucund\u00edssimo; depois, abrindo os olhos, fixou em mim um olhar penetrante (62-76).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo o Evangelho do Pseudo-Mateus, n\u00ba 14, o nascimento de Jesus numa gruta contou com a presen\u00e7a do boi e do burro. \u00c9 desse texto que prov\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 de os colocar no pres\u00e9pio:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tr\u00eas dias depois do nascimento do Senhor, Maria saiu da gruta e aposentou-se num est\u00e1bulo. Foi l\u00e1 que reclinou o menino num pres\u00e9pio; e o boi e o burro adoraram-no. Ent\u00e3o cumpriu-se o que tinha sido anunciado pelo profeta Isa\u00edas [1,3]: \u00abo boi conheceu o seu dono e o asno o pres\u00e9pio do seu senhor\u00bb. At\u00e9 os pr\u00f3prios animais, entre os quais se encontrava, o adoravam sem cessar. Nisso teve cumprimento o que tinha predito o profeta Habacuc [em 3,2 na tradu\u00e7\u00e3o grega]: \u00abdar-te-\u00e1s a conhecer no meio de dois animais\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Associada ao \u201cnascimento de Jesus em Bel\u00e9m\u201d est\u00e1 a narrativa da \u201cchegada a Jerusal\u00e9m de uns magos vindos do Oriente\u201d, para \u201cadorarem o rei dos judeus que acaba de nascer\u201d (Mt 2,1). Na inten\u00e7\u00e3o de Mateus, essa s\u00f3bria narra\u00e7\u00e3o bastava para significar que Jesus era luz e salva\u00e7\u00e3o para os gentios como para os judeus. Mas os ap\u00f3crifos legaram-nos a tradi\u00e7\u00e3o com n\u00famero e nomes dos magos e a sua designa\u00e7\u00e3o de reis:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um anjo do Senhor foi ao pa\u00eds dos persas prevenir os reis magos e ordenar-lhes que fossem adorar o menino rec\u00e9m-nascido. Depois de viajarem nove meses guiados por uma estrela, chegaram ao lugar de destino no momento em que Maria se tornava m\u00e3e\u2026 Tendo vindo com armada numerosa, chegaram \u00e0 cidade de Jerusal\u00e9m. E os tr\u00eas reis\u2026 eram tr\u00eas irm\u00e3os. O primeiro era Melchior: reinava sobre os persas. O segundo era Gaspar, rei dos indianos. O terceiro era Baltasar: dominava sobre os \u00e1rabes\u2026 Acamparam ao redor da cidade e l\u00e1 permaneceram tr\u00eas dias&#8230; Melchior, o primeiro rei, \u00e9 o que tinha trazido mirra, alo\u00e9s, p\u00farpura, pe\u00e7as de linho e tamb\u00e9m livros, escritos e sigilados com o dedo de Deus. O segundo, rei dos indianos, Gaspar, \u00e9 o que tinha trazido como dons em honra do menino, nardo precioso, mirra, canela, incenso e outros perfumes. O terceiro, rei dos \u00e1rabes, Baltasar, \u00e9 o que tinha consigo ouro, prata, pedras preciosas, safiras de grande valor e p\u00e9rolas apreciadas (Evangelho Arm\u00e9nio da Inf\u00e2ncia, 5,10 e 11,1-2).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A inspiradora imag\u00e9tica dos ap\u00f3crifos assegurou-lhes continuada popularidade na palavra religiosa. Tem o m\u00e9rito de apontar para o mist\u00e9rio que ela canta e a n\u00f3s encanta, porque \u201cs\u00f3 o mist\u00e9rio nos faz viver, s\u00f3 o mist\u00e9rio\u201d \u2013 diz Garc\u00eda Lorca. Contribui para construirmos dentro de n\u00f3s o pres\u00e9pio com Jesus, Maria e Jos\u00e9, de hist\u00f3ria feito. As suas figuras reais e as pintadas pelo imagin\u00e1rio religioso v\u00eam preencher o vazio de s\u00edmbolos natal\u00edcios na actual ornamenta\u00e7\u00e3o das nossas cidades e vilas, onde o resplendor das luzes \u00e9 sedu\u00e7\u00e3o comercial para <em>ter mais<\/em> para si, em vez de apelo espiritual para <em>ser melhor<\/em> para os outros. Continuar a meditar o Natal faz renascer a esperan\u00e7a e n\u00e3o a deixa esvaziar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Desde Francisco de Assis, o pres\u00e9pio inscreve-se na hist\u00f3ria da humanidade. 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