{"id":1934,"date":"2018-11-30T08:49:40","date_gmt":"2018-11-30T08:49:40","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=1934"},"modified":"2018-11-30T08:49:40","modified_gmt":"2018-11-30T08:49:40","slug":"a-palavra-que-era-no-principio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-que-era-no-principio\/","title":{"rendered":"A Palavra que era no princ\u00edpio"},"content":{"rendered":"<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n<p>A quadra do Natal de Jesus, com o Advento que lhe est\u00e1 associado, suscitou ao longo dos s\u00e9culos crist\u00e3os elevadas reac\u00e7\u00f5es do g\u00e9nio humano: fez arte sublime, no teatro, no cinema, na pintura e na escultura, com as mais variadas representa\u00e7\u00f5es; fez poesia, literatura, linguagem; fez conto e fez canto; fez cultura e espiritualidade. Mas tamb\u00e9m fez teologia, procurando tornar razo\u00e1vel a f\u00e9 no mist\u00e9rio de Deus, com a ajuda da raz\u00e3o. Meditemos a sua rela\u00e7\u00e3o com o Nascimento de Jesus.<\/p>\n<p>O tempo lit\u00fargico que o celebra proclama mais de uma vez as palavras do portentoso p\u00f3rtico do evangelho de Jo\u00e3o: \u201cNo princ\u00edpio existia a Palavra. E a Palavra estava a apontar para Deus [tinha a ver com Deus, estava em rela\u00e7\u00e3o com Deus]. E a Palavra era Deus. Ela estava no princ\u00edpio junto de Deus\u201d. <em>Palavra<\/em> traduz aqui o original grego <em>L\u00f3gos<\/em>, que tamb\u00e9m se pode entender como <em>Raz\u00e3o<\/em>: raz\u00e3o de ser e fundamento de todos os seres, que preside \u00e0 vida do universo e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual todas as coisas acontecem. Dar ao Filho eterno de Deus este qualificativo sugere que ele \u00e9 quem d\u00e1 raz\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria humana e que \u00e9 nele, incarnado em Jesus Homem perfeito, que todo o ser humano encontra a raz\u00e3o de ser, a m\u00e1xima express\u00e3o, o mais excelso estatuto e o mais subido ponto de refer\u00eancia. Que \u201cestava a apontar para Deus\u201d pode entender-se que tinha a ver com Deus: tinha uma exist\u00eancia relativa a Deus, estava relacionada com Deus, como Filho com Pai. Com esta liga\u00e7\u00e3o de Deus a Jesus como sua <em>Palavra<\/em>, Jo\u00e3o revelou-nos o melhor de ambos, dizendo que o Filho \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o do Pai: \u201ca Deus jamais algu\u00e9m o viu. O Deus \u00fanico gerado, que est\u00e1 em \u00edntima comunh\u00e3o com o Pai, ele \u00e9 que o explicou [o deu a conhecer, o interpretou, o narrou]\u201d, com a sua vida e com a palavra deste evangelho. Jesus \u00e9 o rosto vis\u00edvel do Deus invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Chamar <em>Palavra<\/em> ao Filho de Deus \u00e9 contemplar o pr\u00f3prio Deus a querer dar-se, a querer falar, a querer \u2018dizer-se\u2019. \u00c9 o Mist\u00e9rio a querer comunicar-se aos humanos. A <em>Palavra<\/em> conota e realiza o <em>Projecto<\/em> salv\u00edfico de Deus para a humanidade, aquele <em>Projecto<\/em> que, ao longo da hist\u00f3ria do povo de Deus, os profetas foram dando a conhecer (falando <em>em nome d<\/em>\u2019Ele) e que agora tomou forma humana na pessoa de Jesus. Certas formas, ainda imperfeitas, de compreender o ser humano ficaram superadas quando o verdadeiro <em>Projecto<\/em> de Deus para o ser humano apareceu na pessoa de Jesus. Os leitores do evangelho de Jo\u00e3o puderam de facto contempl\u00e1-lo na sua vinda hist\u00f3rica, porque \u201ca Palavra fez-se carne e acampou entre n\u00f3s\u201d [\u00e0 letra: \u201c\u2026armou a sua tenda em n\u00f3s, no meio de n\u00f3s\u201d], sugerindo que, enquanto na experi\u00eancia libertadora de Israel \u2013 no \u00eaxodo da escravid\u00e3o do Egipto \u2013 a tenda no deserto era s\u00edmbolo da presen\u00e7a de Deus no meio do seu povo, agora \u00e9 Jesus que d\u00e1 a Deus <em>Presen\u00e7a<\/em> [<em>Shekinah<\/em>, em aramaico] \u201cem n\u00f3s\u201d. O <em>Projecto<\/em> divino de humanidade e para a humanidade realizou-se na exist\u00eancia humana e culminou na plenitude da Vida, que brilhou no Homem. A <em>Presen\u00e7a<\/em> activa de Deus n\u00e3o est\u00e1 ligada a um lugar material, nem a sua morada \u00e9 um recinto sagrado. N\u00e3o. Resplandeceu no Homem por excel\u00eancia, Jesus. \u201cE n\u00f3s contempl\u00e1mos a sua <em>gl\u00f3ria<\/em>\u2026\u201d, a sua riqueza, o resplendor da sua <em>Presen\u00e7a<\/em>, o seu ser pessoal projectado para o exterior e desvelado.<\/p>\n<p>A f\u00e9 crist\u00e3 que v\u00ea Deus no Homem desencadeia uma cultura original: proporciona uma superior compreens\u00e3o do ser humano e da sua dignidade. \u00c9 o fundamento da antropologia crist\u00e3. \u201cS\u00f3 no mist\u00e9rio da Palavra incarnada se esclarece verdadeiramente o mist\u00e9rio do homem\u201d (<em>Lumen Gentium<\/em>, 22). S\u00f3 em Jesus se capta toda a grandeza do homem: ele d\u00e1-lhe a maior estatura.<\/p>\n<p>O Natal \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o do cristianismo na paisagem das religi\u00f5es. A inova\u00e7\u00e3o est\u00e1 na revela\u00e7\u00e3o de um \u00abDeus para n\u00f3s\u00bb, um \u00abDeus por n\u00f3s\u00bb e mesmo um \u00abDeus em n\u00f3s\u00bb, j\u00e1 que Jesus \u00e9 da mesma ra\u00e7a e natureza humana que n\u00f3s. Nele e por ele, todos nos consideramos irm\u00e3os. Se o Natal n\u00e3o \u00e9 o nascimento de Deus, \u00e9 sim o nascimento de uma nova imagem de Deus: o Deus da pessoa (\u201co Deus de Abra\u00e3o\u201d) e com a pessoa, o Deus para a pessoa, revelou-se finalmente como Deus na pessoa, de Jesus; o <em>Deus connosco<\/em> revelou-se como <em>Deus em n\u00f3s<\/em>.<\/p>\n<p>E, com Jesus, desapareceu a dist\u00e2ncia entre Deus e homem. Deus veio ao mundo, apareceu em Jesus. Para encontr\u00e1-lo, s\u00f3 \u00e9 preciso conhecer e encontrar Jesus, pela f\u00e9. A experi\u00eancia b\u00edblica de Deus, que pro\u00edbe qualquer imagem material d\u2019Ele, defende que Deus pode ser conhecido e reconhecido de forma \u00fanica em Jesus, \u201cimagem do Deus invis\u00edvel\u201d (Cl 1,15), \u201cimagem fiel do seu ser\u201d (Heb 1,3). \u201cQuem acredita em mim n\u00e3o acredita em mim mas naquele que me enviou; quem me v\u00ea a mim v\u00ea Aquele que me enviou\u2026\u201d (Jo 12,44-45; 13,20); \u201cEu estou no Pai e o Pai est\u00e1 em mim\u201d (Jo 14,10); \u201cquem me v\u00ea v\u00ea o Pai\u201d (Jo 14,9). Jo\u00e3o sugere: a partir da incarna\u00e7\u00e3o de Deus em Jesus reaprendemos o que se pode saber sobre Deus.<\/p>\n<p>Assim entendido, o Natal de Jesus tem s\u00e9rias consequ\u00eancias: Deus, \u2018nascendo\u2019 entre n\u00f3s, apostou tudo a benef\u00edcio dos humanos. A resposta humana a Deus passa pelo amor ao ser humano, amado por Deus. A avalia\u00e7\u00e3o da vida \u00e9 feita s\u00f3 numa mat\u00e9ria: seremos julgados no amor. Amando daremos sentido definitivo \u00e0 nossa exist\u00eancia: ter\u00e1 valido a pena ter vivido!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD A quadra do Natal de Jesus, com o Advento que lhe est\u00e1 associado, suscitou ao longo dos s\u00e9culos crist\u00e3os elevadas reac\u00e7\u00f5es do g\u00e9nio humano: fez arte sublime, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1935,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1934","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1934","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1934"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1934\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1936,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1934\/revisions\/1936"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1935"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1934"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1934"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1934"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}