{"id":1912,"date":"2018-10-31T09:11:53","date_gmt":"2018-10-31T09:11:53","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=1912"},"modified":"2018-10-31T09:11:53","modified_gmt":"2018-10-31T09:11:53","slug":"a-palavra-e-a-accao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-e-a-accao\/","title":{"rendered":"A palavra e a ac\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n<p>Na vida pessoal e comunit\u00e1ria, constantemente temos de tomar decis\u00f5es e de fazer op\u00e7\u00f5es. Elas \u00e9 que realizam a vida, que n\u00e3o est\u00e1 predeterminada desde toda a eternidade mas se vai fazendo em cada minuto que vivemos, em cada passo que damos, em cada preciosa palavra que pronunciamos. N\u00e3o h\u00e1 fado-<em>fatum<\/em>-destino, no sentido de que eu n\u00e3o me poderia desviar do caminho pr\u00e9-estabelecido por for\u00e7as divinas que friamente o teriam tra\u00e7ado. Para o crist\u00e3o, o que h\u00e1 \u00e9 a vontade humana de secundar a gra\u00e7a do Esp\u00edrito de Deus, dando <em>com determinada determina\u00e7\u00e3o<\/em> uma orienta\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica \u00e0 pr\u00f3pria vida, fazendo as melhores escolhas nas palavras e nas ac\u00e7\u00f5es e traduzindo as palavras em ac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De facto, entre muitos tipos de pessoas na sociedade, um v\u00ea as coisas a acontecerem; o outro faz acontecer as coisas. \u00c9 na direc\u00e7\u00e3o do segundo que nos conduz o evangelho de Jesus, por exemplo, na par\u00e1bola dos dois filhos convidados pelo pai a irem trabalhar para a vinha. O primeiro disse que n\u00e3o ia, \u201cmas depois arrependeu-se e foi\u201d. O segundo disse que ia, mas n\u00e3o foi (Mt 21,28-32). H\u00e1 aqui uma disson\u00e2ncia perturbadora entre palavra e ac\u00e7\u00e3o, entre pensar e fazer, entre intelig\u00eancia e cora\u00e7\u00e3o. Jesus distinguia assim o juda\u00edsmo que n\u00e3o o seguia (simbolizado no filho que n\u00e3o foi trabalhar) dos pecadores que o seguiam entusiasticamente, aderindo, convertidos, ao <em>reino de Deus<\/em> (simbolizados no filho que foi trabalhar).<\/p>\n<p>Caracter\u00edstico das par\u00e1bolas \u00e9 serem provocantes modelos de ac\u00e7\u00e3o, induzindo o ouvinte a optar pela imita\u00e7\u00e3o de uma das personagens. Atingem a nossa vida no essencial. S\u00e3o uma forma de narrar que desarma os nossos mecanismos de defesa. Interpretam-nos, como um espelho onde nos revemos com as nossas rugas e os nossos pontos sombrios, iluminando tamb\u00e9m a verdade da nossa vida. Nesta par\u00e1bola, o que conta \u00e9 a atitude final de cada filho: n\u00e3o o que <em>disse<\/em> mas o que <em>fez<\/em>. A f\u00e9 b\u00edblica traduz-se em compromisso. S\u00f3 o amor escutou eficazmente o pai, s\u00f3 o amor encontrou raz\u00f5es para se dar, onde a raz\u00e3o n\u00e3o as encontrava. N\u00e3o \u00e9 quem diz \u201cSenhor, Senhor\u201d que entra no reino em que Deus quer todos felizes, mas quem faz a vontade do Pai de todos dedicando-se a fazer frutificar a bondade do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jesus n\u00e3o teve inten\u00e7\u00e3o de granjear admiradores. Chamou seguidores. Os admiradores n\u00e3o est\u00e3o \u00e0 margem do evangelho. Todavia, seguem Jesus de longe, sem se comprometerem. N\u00e3o percebem bem que a vida e a mensagem de Jesus s\u00e3o exig\u00eancia e tarefa, ao mesmo tempo que dom e gra\u00e7a. No evangelho, exemplo t\u00edpico do admirador de Jesus \u00e9 o judeu Nicodemos: parece fascinado por ele, mas talvez ainda n\u00e3o est\u00e1 disposto a arriscar tudo por ele e a tornar-se disc\u00edpulo seguidor. Os imponentes chefes do juda\u00edsmo do tempo de Jesus eram bons de palavra e desenhavam muitas leis e teorias, que, por\u00e9m, escondiam muitos <em>n\u00e3o<\/em> \u00e0 pr\u00e1tica do bem a favor do pr\u00f3ximo. Enquanto o admirador pode manter-se neutral ou desprendido, o seguidor procura ser como aquele a quem segue e admira. \u00abSer, n\u00e3o pertencer\u00bb n\u00e3o \u00e9 o lema ideal de liga\u00e7\u00e3o ao evangelho e ao reino de Deus. Nem basta colar um distintivo \u00e0 lapela, envergar um uniforme, ir de vez em quando a uma igreja e recitar f\u00f3rmulas devotas, para nos vangloriarmos de ser filhos de Deus: n\u00e3o basta a perten\u00e7a exterior. \u00c9 preciso assumir a responsabilidade pela f\u00e9 que professamos: trabalhar na vinha da sociedade para ela produzir o bom vinho da alegria e do amor. Essa \u00e9 a proposta que Jesus selou, vivendo-a at\u00e9 \u00e0 \u00faltima gota de sangue. Afinal, um casamento n\u00e3o se reduz \u00e0 breve festa de n\u00fapcias: realiza-se no quotidiano longo e mon\u00f3tono, num amor interior ao amado, que se manifesta em actos tamb\u00e9m nas asperezas da vida.<\/p>\n<p>Ambos os filhos da par\u00e1bola receberam o mesmo convite ao trabalho. Ambos, igualmente amados pelo pai, tiveram a mesma oportunidade de responder com toda a liberdade. A par\u00e1bola deixa intuir que os considerados <em>impuros<\/em> e os \u2018mal vistos\u2019, os que tinham atr\u00e1s de si uma hist\u00f3ria pouco abonat\u00f3ria, \u00e9 que responderam concreta e positivamente ao convite. Traziam a alma ferida de erros mas faminta de verdade. E acreditaram: aderiram \u00e0 gra\u00e7a, corresponderam com amor ao Amor!<\/p>\n<p>Os dois filhos da par\u00e1bola t\u00eam correspondentes nos dias de hoje. Tanto um como o outro sobrevive em muito daquilo que somos, dizemos e fazemos (ou n\u00e3o fazemos). Desenhamo-los em alguns <em>sim<\/em> epid\u00e9rmicos que n\u00e3o produzem efeito e em alguns <em>n\u00e3o<\/em> impulsivos que depois convertemos em apostas entusi\u00e1sticas a favor dos que precisam de n\u00f3s. O \u201cvou, senhor, mas n\u00e3o foi\u201d soa a drama. O que importa \u00e9 a atitude de convers\u00e3o para melhor. Importa intensificar a consci\u00eancia de que o Pai nos ama e de que somos amados, independentemente do nosso valor e m\u00e9rito e do nosso pecado. Se interioriz\u00e1ssemos o seu amor por n\u00f3s sem medida, n\u00e3o ousar\u00edamos desiludi-Lo!<\/p>\n<p>\u00abAs palavras que n\u00e3o s\u00e3o seguidas dos respectivos factos s\u00e3o palavras v\u00e3s\u00bb \u2013 dizia Dem\u00f3stenes. De facto, at\u00e9 \u00e9 f\u00e1cil lutar por princ\u00edpios \u00e9ticos e humanizantes. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil cumpri-los na vida <em>real<\/em>. Mas a <em>real<\/em>iza\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios e da palavra do homem \u00e9 que \u00e9 a prova <em>real<\/em> do \u00abhomem de palavra\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Na vida pessoal e comunit\u00e1ria, constantemente temos de tomar decis\u00f5es e de fazer op\u00e7\u00f5es. 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