{"id":1771,"date":"2018-08-31T03:06:43","date_gmt":"2018-08-31T03:06:43","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=1771"},"modified":"2018-08-30T08:01:53","modified_gmt":"2018-08-30T08:01:53","slug":"a-palavra-a-agostinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-a-agostinho\/","title":{"rendered":"A palavra a Agostinho"},"content":{"rendered":"<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n<p>Aur\u00e9lio Agostinho, fil\u00f3sofo, bispo crist\u00e3o, te\u00f3logo, Doutor da Igreja. Nasceu berbere, no norte da \u00c1frica, Imp\u00e9rio romano, em 354; morreu em 430. Filho de m\u00e3e crist\u00e3, de pai pag\u00e3o. Grande int\u00e9rprete da Palavra. Gigante em intelig\u00eancia, g\u00e9nio do Ocidente. A sua palavra escrita influenciou o pensamento, a sociedade, a cultura, a pol\u00edtica, a catequese, a moral. Nunca se contentou com a superficialidade. Se algo caracteriza a sua exist\u00eancia, isso foi a sede da Verdade que d\u00e1 sentido ao Caminho e \u00e0 Vida, da Verdade que \u00e9 a <em>morada<\/em> onde o cora\u00e7\u00e3o encontra paz e alegria. N\u00e3o teve caminho f\u00e1cil. Em jovem pensou encontrar a verdade no prest\u00edgio, na carreira, na posse de coisas, em vozes blandiciosas que lhe prometiam felicidade imediata. Cometeu erros; mas disse: \u201cse erro, existo\u201d (<em>A Cidade de Deus<\/em>, 11, 26). Afrontou insucessos mas n\u00e3o parou enquanto n\u00e3o encontrou Deus no Jesus dos evangelhos. Foi um dos primeiros pensadores a conjugar a exist\u00eancia na primeira pessoa.<\/p>\n<p>Teve a sabedoria de olhar para dentro de si pr\u00f3prio e ent\u00e3o apercebeu-se de que aquela Verdade, aquele Deus que procurava com as suas for\u00e7as era mais \u00edntimo a si do que ele pr\u00f3prio: \u201cDebatia-me e inquietava-me com a falta de verdade, embora te procurasse, meu Deus\u2026, n\u00e3o segundo o entendimento da mente\u2026, mas segundo o sentir da carne. Mas tu estavas mais interior do que o \u00edntimo de mim mesmo e mais sublime do que o mais sublime de mim mesmo\u201d (<em>Confiss\u00f5es<\/em> III, 6,11). A inquieta\u00e7\u00e3o \u00e9 companheira insepar\u00e1vel do ser humano nesta vida mortal: \u201cSenhor\u2026, tu fizeste-nos para ti e o nosso cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 inquieto enquanto n\u00e3o repousar em ti\u201d (<em>Conf.<\/em>, I, 1,1). \u201cTarde te amei, \u00f3 Beleza t\u00e3o antiga e t\u00e3o nova! Tarde te amei! E eis que estavas dentro de mim e eu fora e a\u00ed eu te procurava\u2026 Tu estavas comigo e eu n\u00e3o estava contigo\u2026 Chamaste e clamaste e rompeste a minha surdez; brilhaste, cintilaste e afastaste a minha cegueira; exalaste o teu perfume, e eu aspirei e suspiro por ti; saboreei-te e tenho fome e sede\u201d (<em>Conf.,<\/em> X, 27,38).<\/p>\n<p>Para quem tiver medo do sil\u00eancio, do recolhimento, de se p\u00f4r \u00e0 escuta de si pr\u00f3prio e do mundo de hoje, com receio de que a Verdade o encontre, S. Agostinho tem uma palavra a dizer, uma palavra declamada com gracilidade. Certas passagens das <em>Confiss\u00f5es<\/em> e da <em>Cidade de Deus<\/em> ombreiam com a flu\u00eancia de C\u00edcero em complexidade e eloqu\u00eancia. \u00c9 c\u00e9lebre pela concentra\u00e7\u00e3o do pensamento em poucas palavras, explorando a densidade do latim: \u201cN\u00e3o procures compreender para acreditar, mas acredita para poderes compreender\u201d (Trat. 29 <em>in Jo<\/em>. 7,14-18, \u00a76).<\/p>\n<p>A sua palavra parava com particular deleite no <em>amor<\/em> e nas maravilhas que ele realiza: \u201cA pessoa que tem caridade no cora\u00e7\u00e3o tem sempre qualquer coisa para dar\u201d. Por isso, sublinhava: \u201cAma e o que queres faz\u201d (<em>In Io. Ep. tr.<\/em> 7, 8). Tudo \u00e9 permitido, desde que seja amor. \u201cA Beleza cresce em ti \u00e0 medida que cresce o amor, porque a pr\u00f3pria caridade \u00e9 a beleza da alma\u201d (<em>Homil. in 1Jo.,<\/em> homilia 9, \u00a79). \u201cA verdadeira medida do amor \u00e9 n\u00e3o ter medida\u201d. \u201cO meu peso \u00e9 o meu amor [peso tanto quanto amo, o meu verdadeiro valor est\u00e1 no meu amor]. Sou levado por ele para onde quer que eu v\u00e1\u201d (<em>Conf.<\/em>, XIII, 9,10).<\/p>\n<p>\u201cO Esp\u00edrito Santo faz-nos habitar em Deus e faz habitar Deus em n\u00f3s. Mas \u00e9 o amor que causa isto. Portanto, o Esp\u00edrito \u00e9 Deus como amor\u201d (<em>De Trinitate)<\/em>. \u201c[Deus] n\u00e3o nos prescreve mais nada sen\u00e3o que nos amemos uns aos outros&#8230; N\u00e3o \u00e9 porventura evidente que a obra do Esp\u00edrito Santo no homem \u00e9 p\u00f4r nele o amor de caridade, segundo as palavras do Ap\u00f3stolo Paulo \u2018a caridade de Deus [com a qual Deus nos ama] foi derramada nos nossos cora\u00e7\u00f5es por meio do Esp\u00edrito Santo que nos foi dado\u2019 (Rm 5,5)?&#8230; Se encontras em ti a caridade, \u00e9 porque tens em ti o Esp\u00edrito Santo&#8230; Interroga o teu cora\u00e7\u00e3o; se nele encontras o amor pelo teu irm\u00e3o, fica em paz: tal amor n\u00e3o pode estar l\u00e1 sem l\u00e1 estar o Esp\u00edrito Santo\u201d (<em>In 1Jo<\/em>, tr. 6,9-10 e 9,10).<\/p>\n<p>\u201cTu, com o teu amor, tinhas trespassado o nosso cora\u00e7\u00e3o e traz\u00edamos as tuas palavras cravadas nas nossas entranhas; e os exemplos dos teus santos\u2026, acumulados no \u00edntimo do nosso pensamento, queimavam e consumiam o nosso pesado torpor, para n\u00e3o nos inclinarmos para as coisas inferiores, e abrasavam-nos intensamente\u201d (<em>Conf.<\/em>, IX, 2,3). \u201cOh! Profundidade admir\u00e1vel das tuas palavras [da Escritura]\u2026: profundidade admir\u00e1vel, meu Deus, profundidade admir\u00e1vel! Voltar-me para ela infunde-me horror, horror de honor e tremor de amor\u201d (<em>Conf.<\/em>, XII, 14,17).<\/p>\n<p>Agostinho teve a pacificadora certeza de quem finalmente compreendeu; mas sobretudo teve a felicidade de quem sabe que o amor \u00e9 tudo e que isso nos basta (cf. Bento XVI, 25.8.2010). Compreendeu que, encontrando a Verdade, foi a pr\u00f3pria Verdade, que \u00e9 Deus, a encontr\u00e1-lo a ele. Ele teve o m\u00e9rito de procurar e de se deixar encontrar. Nas <em>Confiss\u00f5es<\/em> rezou e n\u00f3s rezamos com ele: Senhor, \u201cd\u00e1-me o que me ordenas e ordena-me o que quiseres\u201d (X, 29,40); \u201cdiante de ti est\u00e1 a minha for\u00e7a e a minha debilidade: conserva aquela, cura esta\u2026 Faz que eu me recorde de ti, que te escute, que te ame. Amen!&#8221; (<em>De Trinitate<\/em>, 15, 28,51).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Aur\u00e9lio Agostinho, fil\u00f3sofo, bispo crist\u00e3o, te\u00f3logo, Doutor da Igreja. Nasceu berbere, no norte da \u00c1frica, Imp\u00e9rio romano, em 354; morreu em 430. 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