{"id":1689,"date":"2018-07-31T03:05:04","date_gmt":"2018-07-31T03:05:04","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=1689"},"modified":"2018-07-25T10:59:42","modified_gmt":"2018-07-25T10:59:42","slug":"a-palavra-e-o-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-e-o-tempo\/","title":{"rendered":"A palavra e o tempo"},"content":{"rendered":"<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n<p>A nossa vida \u00e9 uma narrativa entretecida com o fio do tempo. E Dem\u00f3stenes disse que dispomos de dois meios para as boas rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas: a palavra e o tempo. O tempo, sempre desigual, \u00e9 a m\u00fasica que tonifica a palavra das nossas rela\u00e7\u00f5es. Esse grande construtor de vidas humanas, corre implac\u00e1vel nos dias e noites da nossa carreira terrestre. Mas o tempo que nos leva de <strong>f\u00e9rias<\/strong> faz correr mais devagar os ponteiros do rel\u00f3gio, entre as palavras cruzadas descontraidamente com os amigos. Pass\u00e1mos o ano sob a press\u00e3o do cron\u00f3metro, em que a palavra de ordem foi o trabalho fren\u00e9tico. Agora fazemos uma paragem, em que a palavra de ordem pode ser a da leitura pausada e da palavra meditada. Durante o ano, vivemos mais o tempo da <em>profiss\u00e3o<\/em>. Agora ocupamos o tempo mais naquilo para o qual sentimos <em>voca\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>Os gregos usavam duas palavras para entender e dizer o tempo: <em>kair\u00f3s<\/em> e <em>kr\u00f3nos<\/em>.<\/p>\n<p><em>Kr\u00f3nos<\/em> dizia o tempo <em>crono<\/em>l\u00f3gico do calend\u00e1rio, contado pelos astros. Segundo a mitologia grega, o deus <em>Kr\u00f3nos<\/em> mutilou o pai e engolia os filhos apenas nascidos, a fim de n\u00e3o ser por eles destronado. Essa sugestiva concep\u00e7\u00e3o m\u00edtica significava que o tempo <em>crono<\/em>l\u00f3gico nos devora. Ov\u00eddio definiu-o nas suas <em>Metamorfoses<\/em> (XV, 234) como\u00a0\u201c<em>tempus edax rerum<\/em>: \u00f3 tempo que tudo devoras\u201d. \u00c9 o tempo do rel\u00f3gio que nos deteriora, nos envelhece e nos mata, o tempo em que o urgente se sobrep\u00f5e teimosamente ao importante, o tempo indolor e incolor, atomizado, esboroado em m\u00faltiplos fragmentos. \u00c9 o tempo que a humanidade desde sempre mediu: com clepsidras ou rel\u00f3gios de \u00e1gua, de sol e de areia, com rel\u00f3gios de diamante, de pulso, de mesa ou de parede, com rel\u00f3gios at\u00f3micos, despertadores, cron\u00f3metros e calend\u00e1rios, almanaques e anu\u00e1rios, foi cadenciando esse fugitivo que n\u00e3o se deixa agarrar e que \u00e9 express\u00e3o inexor\u00e1vel da limita\u00e7\u00e3o radical e da finitude humana.<\/p>\n<p>Mas, se a luta contra o tempo <em>crono<\/em>l\u00f3gico \u00e9 contra-rel\u00f3gio em que fisicamente somos destru\u00eddos e vencidos, esta luta suscita em n\u00f3s uma reac\u00e7\u00e3o renovadora, em busca de um tempo diferente, aquele que os gregos chamavam<em> kair\u00f3s<\/em>, um tempo salv\u00edfico que nos pode salvar: \u00e9 o tempo definido e marcante, que nos lan\u00e7a para o futuro pelos caminhos do amor, da verdade e da bondade, da lealdade e da felicidade. \u00c9 o tempo purificador, o tempo livre e fecundo da festa e da celebra\u00e7\u00e3o, do descanso e das f\u00e9rias: <em>feriae<\/em>, em latim, \u2018diz\u2019 precisamente \u00abcessa\u00e7\u00e3o de trabalho, descanso em honra dos deuses, dias festivos\u00bb. \u00c9 o tempo com sentido, que d\u00e1 sentido ao tempo de trabalho e \u00e0 vida, vivida com responsabilidade e densidade. \u00c9 o tempo \u2018perdido\u2019 gratuitamente a gerar amizade, passado com as pessoas queridas e que n\u00e3o tem a mesma dura\u00e7\u00e3o que o tempo cronol\u00f3gico. \u00c9 o tempo para dizer e fazer aquilo de que mais gostamos, para viver o melhor que sabemos, usando palavras positivas.<\/p>\n<p>Ora, porque no tempo dos computadores, telem\u00f3veis e <em>smartphones<\/em>, o tempo nos escorre por entre os dedos a baterem teclas, tornando-se um tempo l\u00edquido em que quase nada persiste como verdadeiramente necess\u00e1rio\u2026, um tempo em que tudo \u00e9 tempor\u00e1rio, transit\u00f3rio, sem espa\u00e7o para a palavra pausada sobre o que experimentamos, fotografamos, compramos e comparamos\u2026, \u00e9 imperioso aprender a conjugar esses dois tempos. A vida <em>cumpre-se<\/em> no tempo todo de cada um de n\u00f3s e n\u00e3o s\u00f3 no tempo de f\u00e9rias. N\u00e3o \u00e9 vivida s\u00f3 no tempo da bonan\u00e7a e ao sol da Primavera, ao calor da praia de cada um ou \u00e0 espera de que a chuva passe. Tamb\u00e9m conv\u00e9m aprender a \u00abcantar e a dan\u00e7ar \u00e0 chuva\u00bb do Inverno (<em>singing and dancing in the rain<\/em>), em sintonia com rel\u00e2mpagos cintilantes e trov\u00f5es dissonantes dos melhores desejos. \u00c9 que as esquinas do tempo surpreendem-nos com a dor e o afecto, com o absinto e o b\u00e1lsamo. Nos desertos e cidades do mundo, o tempo cronol\u00f3gico vai abrindo feridas sem fim, ao mesmo tempo que o tempo salv\u00edfico vai curando m\u00e1goas indiz\u00edveis.<\/p>\n<p>A Filosofia, a Literatura e a Espiritualidade pairam frequentemente sobre o <em>tempo<\/em>. \u00c9 porque ele remete para a pergunta sobre Deus, como aconteceu ao fil\u00f3sofo S. Agostinho. O tempo \u00e9 uma concretiza\u00e7\u00e3o pontual da eternidade: fixa-a no momento que estou a viver e que j\u00e1 passou. Ora, Deus \u00e9 \u00abO sem tempo\u00bb: s\u00f3 pode ser eterno. Puxamo-lo por meio da f\u00e9 para o tempo, imaginando o inimagin\u00e1vel \u2018momento\u2019 da cria\u00e7\u00e3o do mundo e da humanidade. E assim falamos do \u2018tempo\u2019 de Deus, o tempo <em>kair\u00f3s<\/em> e meta-hist\u00f3rico que d\u00e1 sentido ao nosso tempo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Aqui adquire significa\u00e7\u00e3o intensa a invoca\u00e7\u00e3o b\u00edblica do Salmo 90:<\/p>\n<p>Sob o olhar de Deus \u201cdeclinam os nossos dias,<\/p>\n<p>Como um suspiro gastamos os nossos anos\u2026:<\/p>\n<p>Passam depressa e n\u00f3s voamos\u2026<\/p>\n<p>Ensina-nos [, Senhor,] a contar os nossos dias,<\/p>\n<p>para entrarmos no p\u00f3rtico da sabedoria.<\/p>\n<p>Que a tua miseric\u00f3rdia nos sacie pela manh\u00e3,<\/p>\n<p>para exultarmos e nos alegrarmos todos os nossos dias\u201d.<\/p>\n<p>O descanso contemplativo nas f\u00e9rias gera um cora\u00e7\u00e3o s\u00e1bio e alegre, que nos lan\u00e7a na aventura de aproximar o c\u00e9u da terra. O tempo <em>kair\u00f3s<\/em> das f\u00e9rias rejuvenesce o que o tempo <em>Kr\u00f3nos<\/em> envelheceu: d\u00e1 frescura e alegria para \u00abcantar \u00e0 chuva\u00bb do ano inteiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD A nossa vida \u00e9 uma narrativa entretecida com o fio do tempo. E Dem\u00f3stenes disse que dispomos de dois meios para as boas rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas: [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1679,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1689","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1689","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1689"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1689\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1690,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1689\/revisions\/1690"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1679"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1689"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1689"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1689"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}