{"id":1629,"date":"2018-06-30T03:00:15","date_gmt":"2018-06-30T03:00:15","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=1629"},"modified":"2018-06-28T08:48:46","modified_gmt":"2018-06-28T08:48:46","slug":"omnipotencia-da-palavra-e-prepotencia-da-insanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/omnipotencia-da-palavra-e-prepotencia-da-insanidade\/","title":{"rendered":"Omnipot\u00eancia da Palavra\u00a0e prepot\u00eancia da insanidade"},"content":{"rendered":"<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n<p class=\"Textonoticiasnew\" style=\"margin-top: 0cm;\">Para descrever assimetrias na sociedade, recorremos a polaridades: pequenos e grandes, opressores e oprimidos, s\u00e1bios e iletrados, poderosos e humildes, famintos e ricos\u2026, que determinam as nossas atitudes e ac\u00e7\u00f5es. Elas tamb\u00e9m emergem na hist\u00f3ria b\u00edblica, em que o povo de Deus sofre, v\u00edtima de invasores prepotentes, de exploradores e malvados sem escr\u00fapulos, e em que Deus est\u00e1 do lado das v\u00edtimas, como libertador e consolador (Is 40,1).<\/p>\n<p class=\"Textonoticiasnew\">O profeta Isa\u00edas (10,5-7.13-16) contrap\u00f5e a arrog\u00e2ncia dos opressores \u00e0 dor das suas v\u00edtimas. No s\u00e9c. VIII a.C. a superpot\u00eancia que era a Ass\u00edria [no territ\u00f3rio do actual Iraque] tinha hegemonia sobre o Pr\u00f3ximo Oriente. A f\u00e9 de Isa\u00edas gostaria que ela fosse instrumento da pedagogia de Deus para provocar o seu povo a arrepender-se do pecado e a converter-se a um comportamento recto. \u201cMas a Ass\u00edria n\u00e3o pensava assim, o seu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha esse plano. O que ela pretendia era aniquilar, exterminar o maior n\u00famero de na\u00e7\u00f5es. Ela diz\u2026: \u00abmudei as fronteiras dos povos, saqueei os seus tesouros\u201d. Ignorava Deus. Queria ser \u00e1rbitro das rela\u00e7\u00f5es entre os povos.<\/p>\n<p class=\"Textonoticiasnew\">O profeta descrevia \u201co orgulho altivo\u201d e a fome insaci\u00e1vel de dom\u00ednio de um povo sobre outros. Quando hoje vemos os inumer\u00e1veis cen\u00e1rios de guerra no globo terrestre, constatamos como a hist\u00f3ria se repete, em dirigentes irrespons\u00e1veis que se servem a si pr\u00f3prios em vez de servirem os s\u00fabditos que os elegeram. A Ass\u00edria \u00e9 s\u00edmbolo b\u00edblico de arrog\u00e2ncia invasiva e demolidora. Pois ent\u00e3o \u2013 intuiu o profeta \u2013 sofrer\u00e1 as consequ\u00eancias da sua prepot\u00eancia: \u201co Senhor do universo enfraquecer\u00e1 com a doen\u00e7a aqueles robustos guerreiros\u201d. A imagem do castigo divino, aplicado com rigor geom\u00e9trico a punir o abuso ass\u00edrio da for\u00e7a, \u00e9 a forma simb\u00f3lica de meditar na prepot\u00eancia do mal moral e de apelar \u00e0 responsabilidade pela vida dos outros e \u00e0 convers\u00e3o ao bem. Os opressores, ao usarem o poder desmedido, n\u00e3o suspeitam \u2013 como os her\u00f3is da <i><span style=\"font-family: 'Open Sans',sans-serif;\">Il\u00edada<\/span><\/i> de Homero \u2013 que as consequ\u00eancias dos seus actos os ir\u00e3o vergar quando chegar a sua vez de desfalecer. Esquecem que as suas conquistas e vit\u00f3rias opressivas s\u00e3o um devaneio fugaz que conduz a uma queda estrondosa. Fazem lembrar os jogadores de futebol a celebrarem com grande espalhafato um golo, vindo a perder o jogo no fim: \u201cde que serve a uma pessoa ganhar o mundo inteiro se perde a sua vida?\u201d (Mc 8,36). O sofista grego do s\u00e9c. V a.C., Prot\u00e1goras, dizia: \u201cO homem \u00e9 a medida [crit\u00e9rio ou dom\u00ednio?] de todas as coisas [\u00fateis]\u201d: das coisas \u201cque s\u00e3o, enquanto existem; das coisas que n\u00e3o s\u00e3o, enquanto n\u00e3o existem\u201d (<i><span style=\"font-family: 'Open Sans',sans-serif;\">A Verdade<\/span><\/i>, fragmento 1). Mas o contempor\u00e2neo Plat\u00e3o respondeu-lhe: \u201cNada imperfeito pode ser medida de alguma coisa\u201d (<i><span style=\"font-family: 'Open Sans',sans-serif;\">Rep\u00fablica<\/span><\/i>, VI, 504c), \u201cO deus \u00e9 para n\u00f3s a m\u00e1xima medida de todas as coisas\u201d (<i><span style=\"font-family: 'Open Sans',sans-serif;\">Leis<\/span><\/i>, IV, 716c). Para a f\u00e9 b\u00edblica, Senhor da hist\u00f3ria humana n\u00e3o s\u00e3o os poderosos mas Deus. Sem generosidade e sem alma, os poderosos s\u00f3 t\u00eam poder de transformar os humanos em coisas. Esta p\u00e1gina de Isa\u00edas \u00e9, pois, busca de pontes ainda n\u00e3o lan\u00e7adas entre a prepot\u00eancia humana e a omnipot\u00eancia divina.<\/p>\n<p class=\"Textonoticiasnew\">N\u00e3o admira, ent\u00e3o, encontrar esta polaridade na s\u00edntese da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o que \u00e9 o <i><span style=\"font-family: 'Open Sans',sans-serif;\">magnificat<\/span><\/i>, ora\u00e7\u00e3o favorita e bandeira de tantos ideais, que p\u00f5e Maria a louvar Deus: \u201cderrubou os <b><span style=\"font-family: 'Open Sans',sans-serif;\">poderosos<\/span><\/b> de seus tronos e exaltou os <b><span style=\"font-family: 'Open Sans',sans-serif;\">humildes<\/span><\/b>; aos <b><span style=\"font-family: 'Open Sans',sans-serif;\">famintos<\/span><\/b> encheu de bens e aos <b><span style=\"font-family: 'Open Sans',sans-serif;\">ricos<\/span><\/b> despediu de m\u00e3os vazias\u201d. O<i><span style=\"font-family: 'Open Sans',sans-serif;\"> magnificat<\/span><\/i> tamb\u00e9m \u00e9 clamor dos <i><span style=\"font-family: 'Open Sans',sans-serif;\">humilhados e ofendidos<\/span><\/i>, dos injusti\u00e7ados e deserdados da terra, reclamando uma sociedade fraterna ao Deus de todos.<\/p>\n<p class=\"Textonoticiasnew\">Em linha com este hino da M\u00e3e, Jesus bendiz o Pai por \u201cesconder\u201d os mist\u00e9rios do Seu reino aos s\u00e1bios fariseus e por \u201crevel\u00e1-los aos pequeninos\u201d (Mt 11,25-27), abertos ao amor de Deus. Esta prefer\u00eancia pelos pobres e simples, nunca desmentida pela hist\u00f3ria da revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica, \u00e9 confirmada na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus pelo Pai, dando raz\u00e3o ao Filho. Consagrou o sentido de uma vida e de uma morte, dedicadas ao amor e \u00e0 promo\u00e7\u00e3o do amor. Aprovou os seus gestos de bondade para com os desfavorecidos, validou a sua solidariedade com os fracos e as suas lutas pela verdade e pela justi\u00e7a, confirmou o seu investimento total na dignidade humana, consagrou a sua fidelidade, at\u00e9 \u00e0 morte, ao plano de salva\u00e7\u00e3o dos humanos, desfeiteando os planos daqueles que usam a for\u00e7a contra o ser humano e ceifam uma vida t\u00e3o naturalmente como cortamos flores para uma campa. Ao ressuscitar Jesus da morte, o Pai significava que estava com ele e que n\u00e3o abandona as v\u00edtimas; confirmava que ele tinha raz\u00e3o no que tinha dito e feito pelos doentes e carenciados. O desautorizado pelos poderosos do mundo ficava autorizado por Deus: \u201cmatastes o autor da vida; mas Deus ressuscitou-o dos mortos\u201d (Act 3,15).<\/p>\n<p class=\"Textonoticiasnew\">De que lado queremos estar? Se alinhamos com os humildes, ficamos com Maria a contemplar o amor na cruz de Jesus. Se estamos com os poderosos, pomo-nos do lado dos que o crucificaram. O evangelho n\u00e3o sugere a l\u00f3gica do poder mas o servi\u00e7o do amor. N\u00e3o somos crist\u00e3os para partilhar a for\u00e7a mas o amor. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel amar, se, conhecendo o imp\u00e9rio da for\u00e7a, soubermos n\u00e3o o respeitar. E o g\u00e9nio b\u00edblico agiganta-se ainda mais, ao n\u00e3o admirar a for\u00e7a dos prepotentes e ao n\u00e3o desprezar a impot\u00eancia dos humildes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Para descrever assimetrias na sociedade, recorremos a polaridades: pequenos e grandes, opressores e oprimidos, s\u00e1bios e iletrados, poderosos e humildes, famintos e ricos\u2026, que determinam as nossas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1630,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1629","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1629","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1629"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1629\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1631,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1629\/revisions\/1631"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1630"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1629"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1629"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1629"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}