{"id":1335,"date":"2018-03-31T00:02:03","date_gmt":"2018-03-31T00:02:03","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=1335"},"modified":"2018-03-30T17:54:45","modified_gmt":"2018-03-30T17:54:45","slug":"ressuscitou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/ressuscitou\/","title":{"rendered":"Ressuscitou!"},"content":{"rendered":"<p class=\"p2\"><em><span class=\"s2\">Armindo Vaz, OCD<\/span><\/em><\/p>\n<p class=\"p3\">\u00abNingu\u00e9m pode viver a pensar que s\u00f3 existe a Morte\u00bb \u2013 diz o cavaleiro do filme \u201cO s\u00e9timo selo\u201d, de Bergman. Este pensamento condiz com a vis\u00e3o que o Novo Testamento tem da morte de Jesus: n\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo, \u00e9 o pen\u00faltimo. E Deus n\u00e3o gera a salva\u00e7\u00e3o simplesmente na morte de Jesus, mas superando-a na sua ressurrei\u00e7\u00e3o. A morte \u00e9 salv\u00edfica enquanto associada \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o, que completa a significa\u00e7\u00e3o e a efic\u00e1cia da morte de Jesus: constitui o \u00eaxito positivo dela. Se entre a morte de Jesus e a sua ressurrei\u00e7\u00e3o h\u00e1 uma ruptura, tamb\u00e9m h\u00e1 \u00edntima continuidade: com a for\u00e7a interior do amor, Jesus transformou o sofrimento e a morte em fonte fecunda de uma Vida nova, uma vida de total uni\u00e3o com Deus na gl\u00f3ria, suscitada pelo Esp\u00edrito do Pai: \u00e9 a ressurrei\u00e7\u00e3o. De facto, quando Paulo fala da entrega amorosa da vida por parte de Jesus, associa-lhe sempre a ressurrei\u00e7\u00e3o: \u201cJesus, Senhor nosso, foi <span class=\"s3\"><i>entregue<\/i><\/span> pelos nossos pecados e <span class=\"s3\"><i>ressuscitou<\/i><\/span> para nossa justifica\u00e7\u00e3o\u201d (Rm 4,25); \u201cquem condenar\u00e1 os eleitos de Deus? Cristo Jesus que <span class=\"s3\"><i>morreu<\/i><\/span> e, ainda mais, que <span class=\"s3\"><i>ressuscitou<\/i><\/span>?\u201d (Rm 8,34); \u201cele morreu por todos, a fim de que os que vivem n\u00e3o vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles <span class=\"s3\"><i>morreu<\/i><\/span> e <span class=\"s3\"><i>ressuscitou<\/i><\/span>\u201d (2Cor 5,15).<\/p>\n<p class=\"p3\">Como entender a ressurrei\u00e7\u00e3o? Ser\u00e1 sempre mist\u00e9rio, a experi\u00eancia <span class=\"s3\"><i>metaf\u00edsica<\/i><\/span> que vem dar resposta \u00e0 nossa vida <span class=\"s3\"><i>f\u00edsica<\/i><\/span>. Mas o mist\u00e9rio pode ser meditado, com a f\u00e9 e a raz\u00e3o. Ora, a experi\u00eancia real que Jesus tinha de Deus era de que Ele \u00e9 o Amor e Pai. Enquanto tal, n\u00e3o podia \u00ababandonar\u00bb o Filho \u00e0 mans\u00e3o dos mortos. Teria de continuar a am\u00e1-lo depois de ter morrido. Ao grito pronunciado na ang\u00fastia da morte (\u201cmeu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?\u201d: Mc 15,34) respondeu a exclama\u00e7\u00e3o: \u201cPai, nas tuas m\u00e3os entrego o meu esp\u00edrito\u201d (Lc 23,46). Para quem deu a pr\u00f3pria vida a Deus e aos outros, a morte n\u00e3o podia ser a \u00faltima palavra: n\u00e3o o lan\u00e7ou no vazio mas na plenitude da Vida de Deus. \u00c9 isso o que Paulo diz do Ressuscitado: \u201ca sua vida \u00e9 um viver para Deus\u201d (Rm 6,10).<\/p>\n<p class=\"p3\">Ent\u00e3o, o domingo de P\u00e1scoa \u00e9 o s\u00edmbolo e a afirma\u00e7\u00e3o do Amor que venceu a morte. \u00c0 morte do Amor Incarnado na Sexta-Feira Santa respondeu a vit\u00f3ria do Amor <span class=\"s3\"><i>E<\/i><\/span>spiritual no Domingo de P\u00e1scoa. Dando-se todo, imolando-se infinitamente inocente, o Amor mostrou a sua omnipot\u00eancia: sendo o pr\u00f3prio <span class=\"s3\"><i>E<\/i><\/span>sp\u00edrito do Pai comunicado ao Filho, tem a for\u00e7a infinita para o levantar da morte. \u201cOnde est\u00e1, \u00f3 morte, a tua vit\u00f3ria?&#8230; Gra\u00e7as a Deus que nos d\u00e1 a vit\u00f3ria por meio de nosso Senhor Jesus Cristo\u201d (1Cor 15,55-56). A transforma\u00e7\u00e3o realizada pelo amor na paix\u00e3o desaguou na ressurrei\u00e7\u00e3o. \u201cOnde est\u00e1 a cruz [por amor], est\u00e1 perto a ressurrei\u00e7\u00e3o\u201d (D. Bonh\u00f6ffer, <span class=\"s3\"><i>Risposta alle nostre domande<\/i><\/span> [Brescia 2005<sup>2<\/sup>] 44).<\/p>\n<p class=\"p3\">A palavra da P\u00e1scoa, que os disc\u00edpulos foram anunciando pelo mundo at\u00e9 chegar a n\u00f3s, d\u00e1 conte\u00fado de verdade \u00e0 esperan\u00e7a. Institui a certeza da liberta\u00e7\u00e3o de todas as limita\u00e7\u00f5es humanas. Tornou-se princ\u00edpio activo da ressurrei\u00e7\u00e3o dos humanos. \u201cSe confessares com a tua boca \u00abJesus \u00e9 o Senhor\u00bb e acreditares com o teu cora\u00e7\u00e3o que Deus o ressuscitou de entre os mortos, ser\u00e1s salvo\u201d (Rm 10,9). Como, pela incarna\u00e7\u00e3o no corpo de Jesus, Deus agraciou toda a humanidade, a sua ressurrei\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se tornava fundamento e garantia para a ressurrei\u00e7\u00e3o da humanidade: \u201cDeus, que ressuscitou o Senhor, tamb\u00e9m nos ressuscitar\u00e1 a n\u00f3s pelo seu poder\u201d (1Cor 6,14); \u201cse fomos enxertados nele por uma morte semelhante \u00e0 sua, tamb\u00e9m o estaremos por uma ressurrei\u00e7\u00e3o semelhante\u201d (Rm 6,5). A f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus e de todos os seus seguidores \u00e9, al\u00e9m do mais, uma convic\u00e7\u00e3o que permite ao crente viver a sua f\u00e9 em presente e acreditar que a ac\u00e7\u00e3o de Jesus hoje \u00e9 capaz de transformar a vida e de inspirar a melhor postura humana.<\/p>\n<p class=\"p3\">A vida de f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 acima de tudo um encontro pessoal com o Ressuscitado: \u00e9 o reconhecimento de que o verdadeiro Deus se entregou na pessoa do Filho aos humanos para eles vencerem a morte. Na cruz morreu uma pessoa que era Filho de Deus. Com essa morte aniquilou a morte e todas as situa\u00e7\u00f5es de morte da exist\u00eancia humana. Tamb\u00e9m nisto irrompe o grande sentido da P\u00e1scoa. Jesus fez com que na sua pessoa se instalassem toda a ang\u00fastia, a fragilidade e a vulnerabilidade da humanidade, para as queimar no fogo da sua divindade. N\u00e3o foi propriamente a morte que tragou um homem: ela foi devorada por Deus. A \u2018morte de Deus\u2019 na cruz \u00e9 fonte de vida.<\/p>\n<p class=\"p3\">Para compreender minimamente a narrativa <span class=\"s3\"><i>Crist\u00e3<\/i><\/span> da ressurrei\u00e7\u00e3o, o ideal seria viver uma hist\u00f3ria de ressuscitado. Quem se satisfaz com viver para si uma exist\u00eancia que mais n\u00e3o \u00e9 do que \u00abvida na carne\u00bb (como diria S. Paulo), a ressurrei\u00e7\u00e3o aparecer\u00e1 como ilus\u00e3o \u00f3ptica ou como uma vida de sonho. Mas quem procura viver no futuro, ser superior a si pr\u00f3prio e perder a vida em proveito dos demais, \u00abvida segundo o Esp\u00edrito\u00bb, est\u00e1 predisposto a intuir na narrativa da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus a manifesta\u00e7\u00e3o do Deus cuja vida \u00e9 dar a vida e est\u00e1 disposto a arrisc\u00e1-la na gratuidade do amor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD \u00abNingu\u00e9m pode viver a pensar que s\u00f3 existe a Morte\u00bb \u2013 diz o cavaleiro do filme \u201cO s\u00e9timo selo\u201d, de Bergman. 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