{"id":1164,"date":"2018-01-31T12:32:04","date_gmt":"2018-01-31T12:32:04","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=1164"},"modified":"2018-01-31T12:32:04","modified_gmt":"2018-01-31T12:32:04","slug":"a-palavra-e-o-sentido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-e-o-sentido\/","title":{"rendered":"A palavra e o sentido"},"content":{"rendered":"<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n<p>Temos enaltecido a <em>for\u00e7a da Palavra<\/em>. Agora \u00e9 preciso acrescentar: uma vez que a Palavra viva de Deus assumiu corpo na hist\u00f3ria e foi entregue ao tempo na Escritura poderosa\u2026; uma vez que a Palavra entrou no tempo humano e incarnou numa hist\u00f3ria humana, exige ser interpretada. A sua for\u00e7a n\u00e3o reside em palavras soltas, desligadas umas de outras: est\u00e1 no contexto que geram dentro de uma narrativa com conte\u00fado, gerado tamb\u00e9m ele pela articula\u00e7\u00e3o das palavras num todo que faz sentido, segundo as conven\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias da \u00e9poca em que vivia o autor b\u00edblico (desde o s\u00e9c. X a.C. at\u00e9 ao princ\u00edpio do s\u00e9c. II d.C.). A narrativa b\u00edblica faz sentido ao elevar a vida humana para a transcend\u00eancia, para a bondade, para o belo sem limites. Numa narra\u00e7\u00e3o figurativa, aquilo que o seu autor <em>quis dizer<\/em> atrav\u00e9s daquilo que <em>disse<\/em>\/contou n\u00e3o resulta de cada palavra (por exemplo, \u00abestejam os vossos rins cingidos\u00bb, Lc 12,35-38) mas do sentido metaf\u00f3rico delas: \u2018tende uma atitude de disponibilidade e de vigil\u00e2ncia\u2019, semelhante \u00e0 dos servos \u201cque esperam o seu senhor no regresso da boda, para lhe abrirem a porta quando chegar e bater\u201d.<\/p>\n<p>O sentido b\u00edblico de uma narra\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica necessariamente que os factos narrados tenham sucedido \u00e0 letra, pois est\u00e3o interpretados pela f\u00e9: o autor quis transmitir o sentido dos factos mais do que os seus pormenores, recorrendo ami\u00fade a palavras de carga imaginativa ou imag\u00e9tica, simb\u00f3lica. O sentido do narrado \u00e9 uma vis\u00e3o espiritual dos factos, que supera a hist\u00f3ria e quer dar sentido \u00e0 hist\u00f3ria dos sucessivos leitores. Esta vis\u00e3o da f\u00e9 n\u00e3o falsifica o facto hist\u00f3rico: projecta luz num certo aspecto dele, que \u00e9 a sua dimens\u00e3o transcendente, e fecunda a vida das pessoas que a ele se queiram ligar.<\/p>\n<p>Repassando um texto, percebemos melhor a fun\u00e7\u00e3o impressiva e <em>performativa<\/em> da palavra (que <em>real<\/em>iza o que significa). A <strong>narrativa da crucifix\u00e3o e morte de Jesus<\/strong> (Mt 27,32-54) foi um acontecimento hist\u00f3rico e cont\u00e9m elementos objectivos. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o significa que se passou tal como est\u00e1 contado. V\u00e1rios pormenores enfrentam dificuldades para ser considerados <em>factuais<\/em> e sugerem que n\u00e3o sucederam \u00e0 letra: as contradi\u00e7\u00f5es da hora a que aconteceu e o lugar certo onde aconteceu a crucifix\u00e3o de Jesus segundo os diversos evangelistas, o papel preciso das institui\u00e7\u00f5es judaicas (Sin\u00e9drio, sumos-sacerdotes\u2026), o eclipse do sol sobre toda a terra durante tr\u00eas horas, a cortina do templo a rasgar-se, o terramoto, as pedras a racharem-se, os sepulcros a abrirem-se\u2026 N\u00e3o \u00e9 a palavra da historiografia. \u00c9 palavra de g\u00e9nero apocal\u00edptico, simb\u00f3lica, que aponta para a rela\u00e7\u00e3o desse facto com o mundo divino e visa sublinhar a carga salv\u00edfica daquela morte, aceite por amor aos que a quisessem contemplar em vez de s\u00f3 a considerarem como facto hist\u00f3rico entre outras crucifix\u00f5es que aconteciam e que tamb\u00e9m s\u00e3o relatadas\u2026; morte aceite como manifesta\u00e7\u00e3o suprema do amor do Pai aos filhos e do Filho aos irm\u00e3os.<\/p>\n<p>A narrativa evang\u00e9lica, dando ao facto hist\u00f3rico um tom espiritual por meio da f\u00e9, n\u00e3o <em>desfigurava<\/em> a hist\u00f3ria: <em>transfigurava<\/em>-a, fixava a irrenunci\u00e1vel dimens\u00e3o religiosa do facto, fazendo incidir o foco principal no interesse que ele tinha para a sociedade que se quisesse deixar impressionar e \u2018banhar\u2019 por ele. A historiografia equipararia a crucifix\u00e3o de Jesus \u00e0 de outros condenados que sofreram morte obscena e ignominiosa. A narra\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica conta-a do ponto de vista de Deus e de Jesus, como um \u00abacontecimento de Deus\u00bb, n\u00e3o no sentido de que Deus o quisesse, mas no sentido de que o crime perpetrado pelos humanos foi atendido por Deus na sua pr\u00f3pria perspectiva, que tamb\u00e9m era a de Jesus: a de um acto de amor aos humanos. A perspectiva da f\u00e9 que \u00e9 a da narra\u00e7\u00e3o abre o leitor \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o dessa crucifix\u00e3o e a deixar-se salvar por ela. Enquanto a sua vis\u00e3o profana reage com esc\u00e1rnio para com o condenado, como a soldadesca romana, a sua vis\u00e3o <em>E<\/em>spiritual leva a reagir como \u201co centuri\u00e3o e os que com ele estavam a guardar Jesus: verdadeiramente, este era filho de Deus\u201d (Mt 27,54). A palavra historiogr\u00e1fica fixa o sucedido num momento do passado; a <em>hist\u00f3ria sagrada<\/em> narrada pela palavra simb\u00f3lica da f\u00e9 d\u00e1-lhe car\u00e1cter de sentido perp\u00e9tuo, estendendo a sua efic\u00e1cia ao presente do leitor. A historiografia relataria a viol\u00eancia de um assassinato na cruz (como pretendem alguns filmes sobre <em>A paix\u00e3o de Cristo<\/em>). Os evangelhos preocupam-se com a inoc\u00eancia de Jesus: \u201cpelo contr\u00e1rio, este n\u00e3o fez nada de mau\u201d (Lc 23,41). Sublinham que o cristianismo nasceu de um acto de viol\u00eancia contra um ser humano (\u201cFilho do homem\u201d) para sugerir que dali em diante j\u00e1 n\u00e3o deveria haver mais viol\u00eancia humana. Portanto, o que tem maior impacto existencial e d\u00e1 poder salv\u00edfico ao acontecimento hist\u00f3rico da crucifix\u00e3o de Jesus n\u00e3o seria um relato historiogr\u00e1fico objectivo e neutral, mas a narrativa da f\u00e9, que com a palavra conotativa e re-<em>present<\/em>ativa mostra <em>presente<\/em> e activo o amor de Deus entre os humanos. \u00c9 por isso que a <em>recit<\/em>a\u00e7\u00e3o (por exemplo, na sexta-feira santa) do \u00abacontecido de uma vez para sempre\u00bb torna sempre actual a sua for\u00e7a redentora para os que o celebram na liturgia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Temos enaltecido a for\u00e7a da Palavra. 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