{"id":1040,"date":"2017-11-30T00:00:27","date_gmt":"2017-11-30T00:00:27","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=1040"},"modified":"2017-11-28T08:46:35","modified_gmt":"2017-11-28T08:46:35","slug":"a-virgem-do-silencio-e-a-palavra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-virgem-do-silencio-e-a-palavra\/","title":{"rendered":"A Virgem do sil\u00eancio\u00a0e a Palavra"},"content":{"rendered":"<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n<p>No contexto do Advento crist\u00e3o, que tem como personagem central a Virgem do sil\u00eancio que espera o natal do Filho Jesus, assumem relevo luminoso a palavra virginal e a Palavra de Deus. Realmente, o evangelho narra: \u201cno princ\u00edpio j\u00e1 existia a Palavra e a Palavra estava junto de Deus e a Palavra era Deus\u2026; e a Palavra fez-se <em>carne<\/em> e acampou [armou a tenda] entre n\u00f3s; e n\u00f3s contempl\u00e1mos a sua gl\u00f3ria [o seu ser, a sua riqueza, o seu resplendor], gl\u00f3ria de Filho \u00fanico do Pai, cheio de amor e de lealdade\u201d (Jo 1,1.14). Ora, esta in<em>carna<\/em>\u00e7\u00e3o da Palavra deu-se no seio \u201cde uma virgem: e o nome da virgem era Maria\u201d.<\/p>\n<p>Neste quadro da <em>anuncia\u00e7\u00e3o feita a Maria<\/em> pintado por Lucas (1,26-38) assumem protagonismo avassalador a Palavra, provinda do pr\u00f3prio Deus, e a palavra com que Maria acolhe a Palavra. A Palavra de Deus aparece representada no <em>mensageiro<\/em> que anuncia a Maria a concep\u00e7\u00e3o e o nascimento de Jesus. O <em>anjo<\/em>, a mesma figura que j\u00e1 aparecia nas Escrituras judaicas, \u00e9 uma <em>imagem<\/em> do pr\u00f3prio Deus, re-<em>presenta<\/em>-o, torna <em>presente<\/em> e \u2018vis\u00edvel\u2019 a pessoa e o agir de Deus, salvaguardando a Sua invisibilidade e transcend\u00eancia mas projectando-O para o exterior em forma de comunica\u00e7\u00e3o do seu amor constante aos humanos; \u00e9 o pr\u00f3prio Deus enquanto manifestado e comunicado. O <em>anjo<\/em> da palavra \u00e9 um \u00edcone da Palavra de Deus a Maria. De facto, o \u201cenviado por Deus\u201d fala a Maria usando um ros\u00e1rio de palavras da pr\u00f3pria Escritura, que lhe eram familiares. P\u00f4r a palavra ang\u00e9lica a anunciar o nascimento de Jesus queria dizer que estava em quest\u00e3o uma verdade vinda n\u00e3o s\u00f3 da raz\u00e3o, da hist\u00f3ria e da intelig\u00eancia humanas, mas tamb\u00e9m de Deus: tinha a fun\u00e7\u00e3o de apontar para Deus como sentido \u00faltimo da hist\u00f3ria real; apelava para a f\u00e9 no Mist\u00e9rio oferecendo a interpreta\u00e7\u00e3o <em>E<\/em>spiritual do acontecimento hist\u00f3rico anunciado: via o nascimento de Jesus na perspectiva do <em>E<\/em>sp\u00edrito de Deus, como nascimento do que \u201cser\u00e1 chamado Filho de Deus\u201d.<\/p>\n<p>O emocionante di\u00e1logo do <em>anjo<\/em> com a Virgem exprime a intensa medita\u00e7\u00e3o dela com a Palavra de Deus: porque continuamente \u201cguardava todas estas palavras, ponderando-as no seu cora\u00e7\u00e3o\u201d (Lc 2,19), concebia os acontecimentos \u00e0 luz do Transcendente e do <em>poder do Alt\u00edssimo<\/em>. E, ao querer compreender a possibilidade da incarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus no seu seio, o <em>anjo<\/em> responde: \u201cn\u00e3o ser\u00e1 imposs\u00edvel da parte de Deus a realiza\u00e7\u00e3o de nenhuma palavra\u201d.<\/p>\n<p>Nesse momento determinante da hist\u00f3ria humana, S. Bernardo, em jeito de coment\u00e1rio, como que pressiona dramaticamente Maria:<\/p>\n<p>\u201cO anjo espera a resposta\u2026 Todo o mundo est\u00e1 \u00e0 espera\u2026 Da tua boca depende\u2026 a salva\u00e7\u00e3o de todo o g\u00e9nero humano. \u00d3 Virgem, d\u00e1 depressa a resposta\u2026 Responde a tua palavra e acolhe a Palavra divina, pronuncia a palavra que passa e recebe a Palavra eterna. Porqu\u00ea demoras?&#8230; Se no sil\u00eancio \u00e9 aceite a mod\u00e9stia, agora \u00e9 mais necess\u00e1ria a piedade na palavra. Abre, \u00f3 Virgem bendita, o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00e9, os l\u00e1bios \u00e0 palavra, o seio ao Criador\u201d (<em>Das homilias sobre a Virgem Maria<\/em>, 4,8-9).<\/p>\n<p>\u201cA anuncia\u00e7\u00e3o pedia o consentimento da Virgem em representa\u00e7\u00e3o de toda a natureza humana\u201d (S. Tom\u00e1s de Aquino, <em>Summa Theologiae<\/em> III q. 30,1). E teve-o. A Virgem deixou-se <em>entranhar<\/em> e <em>impregnar<\/em> da Palavra de Deus, que se condensou na sua pureza virginal e transparente at\u00e9 aparecer como Menino. Ou, de outra perspectiva, a contempla\u00e7\u00e3o de Maria \u00e0 luz da Palavra de Deus compreendeu que o filho que ela ia conceber era a Palavra de Deus feita carne nela: era o Filho de Deus. A cont\u00ednua ilumina\u00e7\u00e3o dos acontecimentos pela Palavra de Deus levou Maria a concluir: \u201cfa\u00e7a-se em mim segundo a tua Palavra\u201d, aconte\u00e7a segundo o teu plano de salva\u00e7\u00e3o para os humanos. De facto, a cena da <em>anuncia\u00e7\u00e3o a Maria<\/em> revela que Deus desde sempre tinha um projecto de vida a oferecer-lhes, revelado plenamente na incarna\u00e7\u00e3o de Deus no homem Jesus. A caixa-de-resson\u00e2ncia da medita\u00e7\u00e3o amplificou o som do <em>fiat<\/em> de Maria ao <em>anjo<\/em> e deixa pensar que n\u00e3o o fez s\u00f3 em nome pessoal mas tamb\u00e9m em nome de todos os que estavam, estariam e est\u00e3o abertos a incluir-se nesse plano salvador, cuja fase decisiva teve a\u00ed o in\u00edcio e chegou at\u00e9 mim. O seu <em>sim<\/em>, <em>\u00e1men<\/em> seguro e vinculante, coincide com a m\u00e1xima dignifica\u00e7\u00e3o do ser humano e com a eleva\u00e7\u00e3o da personalidade crente. Sem nenhum determinismo, \u00e9 resposta \u00e0 eterna vontade de salva\u00e7\u00e3o, totalmente coincidente com o ser de Deus, e permitiu a sua realiza\u00e7\u00e3o total na pessoa de Jesus, a vinda do divino ao humano. \u00c9 o \u00abtermo fixado de um plano eterno\u00bb \u2013 diria Dante. O bot\u00e3o de rosa abriu-se e deu \u00e0 luz a Palavra feita carne. A feliz conjun\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus com a palavra de Maria mudou a vida dela e, por ela, aurora do dia novo e geradora do Homem Novo, deu rumo novo \u00e0 hist\u00f3ria da humanidade. Maria corporiza o perfeito acolhimento da gra\u00e7a divina por parte dos humanos: tudo o que Deus queria comunicar-lhes encontrou nela total abertura e passou para eles. A \u201cserva do Senhor\u201d \u00e9 a serva da Palavra.<\/p>\n<p>S\u00f3 a palavra inocente de uma alma virgem pode dizer algo que se pare\u00e7a ao acolhimento com que a Mulher Nova deu corpo no tempo \u00e0 Palavra eterna: \u201c\u00d3 Verbo eterno, Palavra do meu Deus, quero passar a minha vida a escutar-vos, quero tornar-me inteiramente d\u00f3cil ao vosso ensino, a fim de tudo aprender de v\u00f3s\u201d (S. Isabel da Trindade, <em>Notas \u00edntimas<\/em>, NI 15).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD No contexto do Advento crist\u00e3o, que tem como personagem central a Virgem do sil\u00eancio que espera o natal do Filho Jesus, assumem relevo luminoso a palavra virginal [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1041,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1040","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1040","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1040"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1040\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1042,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1040\/revisions\/1042"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1041"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1040"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1040"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1040"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}