{"id":1020,"date":"2017-10-31T00:00:58","date_gmt":"2017-10-31T00:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=1020"},"modified":"2017-10-26T07:48:44","modified_gmt":"2017-10-26T07:48:44","slug":"a-palavra-que-salva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-que-salva\/","title":{"rendered":"A palavra que salva"},"content":{"rendered":"<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n<p>A palavra humana exerce poder no campo social, pol\u00edtico, econ\u00f3mico, militar, atrav\u00e9s da ret\u00f3rica persuasiva, das movimenta\u00e7\u00f5es dos mercados atr\u00e1s dos bastidores, da geoestrat\u00e9gia com sede de conquista\u2026 Mao Ts\u00e9-tung dizia: poder \u00e9 o que sai do cano de uma arma. E os poderosos das na\u00e7\u00f5es amea\u00e7am os vizinhos com palavras de destrui\u00e7\u00e3o para manterem a hegemonia. Mas, tais ideias de \u00abpoder\u00bb desumanizam a humanidade, fazendo-a descer ao baixo n\u00edvel do poder material. Muito maior poder \u00e9 o da palavra: est\u00e1 no saber us\u00e1-la com acribia e maestria para gerar o bem comum na sociedade. Ela tem mais poder que um canh\u00e3o, porque edifica o inexistente, \u00abderruba os poderosos de seus tronos\u00bb, levanta do ch\u00e3o o oprimido, d\u00e1 alegria \u00e0 alma esga\u00e7ada da vida e constr\u00f3i a felicidade: o mais que um canh\u00e3o consegue \u00e9 destruir.<\/p>\n<p>Uma \u00abpalavra com poder\u00bb cristalizou especialmente na Sagrada Escritura, que a f\u00e9 judeo-crist\u00e3 v\u00ea impregnada do Esp\u00edrito divino. Ela \u201cpenetra at\u00e9 \u00e0 divis\u00e3o da alma e do corpo\u2026; discerne os sentimentos e as inten\u00e7\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o\u201d (Heb 4,12). Por isso, os judeus d\u00e3o \u00e0 sua leitura import\u00e2ncia salv\u00edfica. Falam de leitura (mikr\u00e1) e n\u00e3o s\u00f3 de Escritura: a sua leitura \u00e9 ao mesmo tempo fonte de salva\u00e7\u00e3o e desejo de supera\u00e7\u00e3o, porque \u2013 como para o crist\u00e3o \u2013 na espiritualidade judaica o caminho est\u00e1 aberto. \u00c9 preciso percorr\u00ea-lo, reinventando-o a cada passo, pelos desafios, novidades e surpresas que v\u00e3o surgindo no percurso.<\/p>\n<p>Mas a palavra mais humanizante que os humanos ouviram, a de Jesus, surge como palavra do pr\u00f3prio Pai, palavra nova e inovadora. Simone Weil, a judia com esp\u00edrito crist\u00e3o, disse que \u00abs\u00f3 aquilo que \u00e9 novo marca as consci\u00eancias\u00bb. Esse novo pode descobrir-se na palavra do evangelho, a boa nova, o c\u00e2ntico novo, a luz nova. \u201cO evangelho \u00e9 a for\u00e7a de Deus (dynamis theou) para salva\u00e7\u00e3o de todos os que cr\u00eaem\u201d (Rm 1,16). \u00c9 o poder de Deus a salvar o crente, a arranc\u00e1-lo do sem-sentido; poder n\u00e3o mec\u00e2nico nem coactivo, que pode ser recha\u00e7ado responsavelmente ou acolhido livremente: \u201ca esperan\u00e7a que vos est\u00e1 reservada nos c\u00e9us\u2026 pudestes escut\u00e1-la na palavra da verdade que \u00e9 o evangelho chegado at\u00e9 v\u00f3s\u201d (Cl 1,5). \u201cA prega\u00e7\u00e3o surge da palavra de Cristo\u00bb (Rm 10, 17). \u00c9 palavra dotada de for\u00e7a libertadora inigual\u00e1vel: \u201ca palavra de Deus n\u00e3o est\u00e1 acorrentada\u201d (2Tim 2,9). \u201cA palavra de Deus \u00e9 viva e en\u00e9rgica (energ\u00e8s) e mais penetrante que uma espada de dois gumes\u201d (Heb 4,12). \u201cA palavra de Deus exerce energia (energeitai) em v\u00f3s os crentes\u201d (1Tes 2,13). \u201cO Pai dos luzeiros por pr\u00f3pria iniciativa gerou-nos com a palavra que \u00e9 verdade&#8230; Por tanto, aceitai docilmente a palavra plantada em v\u00f3s, que \u00e9 capaz de salvar-vos\u201d (Tgo 1,18.21). O presente que Paulo legou aos fi\u00e9is ao despedir-se deles foi a palavra de Deus: \u201cencomendo-vos a Deus e \u00e0 palavra da sua gra\u00e7a, que pode edificar e dar a heran\u00e7a a todos os consagrados\u201d (Act 20,32).<\/p>\n<p>Os primeiros herdeiros da f\u00e9 crist\u00e3, os Padres da Igreja, acolheram \u00aba palavra da gra\u00e7a\u00bb, tesouro precioso para a edifica\u00e7\u00e3o e fundamenta\u00e7\u00e3o do cristianismo. Eles foram ass\u00edduos leitores desta palavra. Tal era a intensidade com que viviam dela que \u201crespiravam a Escritura\u201d, pensavam e falavam por ela, \u00e0 procura de alimento para a pastoral, pondo-a no centro da vida das comunidades.<br \/>\nA tradi\u00e7\u00e3o com o registo do dinamismo da palavra b\u00edblica continuou no magist\u00e9rio eclesial:<br \/>\nEsta \u00e9 a for\u00e7a pr\u00f3pria e singular da Sagrada Escritura, inspirada pelo Esp\u00edrito Santo, que d\u00e1 autoridade ao orador sagrado&#8230; Quem no seu discurso tem a for\u00e7a espiritual da palavra de Deus n\u00e3o fala s\u00f3 com palavras, mas tamb\u00e9m com for\u00e7a, com o Esp\u00edrito Santo (Le\u00e3o XIII, Providentissimus Deus).<\/p>\n<p>A P\u00e1gina Sagrada, redigida por inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito de Deus&#8230;, dotada de poder divino, tem for\u00e7a em si; adornada de beleza sublime, por si resplandece e brilha. Basta que o int\u00e9rprete a explique \u00edntegra e exactamente, para virem a lume os tesouros de sabedoria que encerra (Pio XII, Divino afflante Spiritu).<\/p>\n<p>Esta tradi\u00e7\u00e3o tem fundamento consistente e chega at\u00e9 hoje:<br \/>\nA Palavra de Deus tem import\u00e2ncia nuclear na vida da Igreja, no percurso de f\u00e9 dos crentes e na constru\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria personalidade. Ela faz nascer a Igreja e desperta a f\u00e9 em cada momento da vida. \u00c9 urgente recolocar a Palavra de Deus no centro das comunidades crist\u00e3s\u2026: seja conhecida, escutada, meditada, rezada, celebrada, cantada, vivida, testemunhada e bem proclamada (EG 174-175). Neste sentido, promova-se a leitura orante da Escritura (Constitui\u00e7\u00e3o Sinodal de Lisboa, tri\u00e9nio 2017-2020, n\u00ba 38: prop\u00f5e \u00abfazer da Palavra de Deus o lugar onde nasce a f\u00e9\u00bb).<\/p>\n<p>A f\u00e9, pelo que tem de radical e por ser uma gra\u00e7a, nota a presen\u00e7a do Esp\u00edrito, que por sua vez gera um contexto espiritual onde ressoa vivificante a palavra por Ele inspirada. Nesse contexto do Esp\u00edrito e da f\u00e9, a leitura da palavra da Escritura pode ver-se como salv\u00edfica: a abertura do humano ao divino contribui para a comunh\u00e3o de vida realizada pela ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito divino no esp\u00edrito humano.<\/p>\n<p>Pensaremos mais em que sentido a palavra da Escritura \u00e9 salvadora.<\/p>\n<p>31<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Boletim_Espiritualidade_n039_2017Nov.pdf\"><em>Artigo publicado no Boletim de Espiritualidade n.\u00ba 39.<\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD A palavra humana exerce poder no campo social, pol\u00edtico, econ\u00f3mico, militar, atrav\u00e9s da ret\u00f3rica persuasiva, das movimenta\u00e7\u00f5es dos mercados atr\u00e1s dos bastidores, da geoestrat\u00e9gia com sede de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1021,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1020","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1020","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1020"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1020\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1022,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1020\/revisions\/1022"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1021"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1020"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1020"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1020"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}