Armindo Vaz, OCD
Qualquer educador sabe que, mais do que simples profissão, educar é uma vocação, no sentido etimológico da palavra: de vocare, voz da consciência profunda que chama a humanizar as pessoas com quem lida e, assim, a tornar a sociedade mais humana. O ensino realizado pelo educador é dom, uma espécie de sacerdócio ao serviço do crescimento integral dos alunos: consiste nisso a sua própria realização (por isso, os verdadeiros mestres, como Sebastião da Gama, pensam que não deveriam ser remunerados pelo trabalho que constitui a sua razão de ser!).
Como o ensino, também a vocação para ensinar tem raízes bíblicas. Em termos emotivos, o profeta Jeremias evoca a sua vocação: “A palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: «Antes de te haver formado no ventre materno, Eu já te conhecia… Eu te constituí profeta das nações». E eu respondi: «Ah! Senhor Deus, eu não sei falar, pois ainda sou um jovem». Mas o Senhor replicou-me: «Não digas ‘sou um jovem’, pois irás aonde Eu te enviar e dirás tudo o que Eu te mandar…» O Senhor estendeu a sua mão, tocou-me nos lábios e disse-me: «Eis que ponho as minhas palavras na tua boca»” (1,4-9). O educador de mentalidades que foi Jeremias expôs-se a ser cativado pela palavra de Deus. Viu a imanência a ser iluminada pela transcendência. E intuiu que o divino é que dá sentido ao humano: que “o homem faz Metafísica quando busca uma orientação radical para a sua situação” física (como se exprime Ortega y Gasset em “Sobre o estudar e o estudante”: Quatro textos excêntricos [Relógio D’Água 2000] 102-103). Aconteceu-lhe como a Abraão, que se sentiu chamado pela palavra divina a deixar algo para ter tudo, a soltar as amarras e a pôr-se a caminho da liberdade. Aconteceu-lhe como a Moisés, que se sentiu vocacionado pela palavra de Deus para arrancar o seu povo às garras da escravidão, a fim de o conduzir para a terra prometida da liberdade (“vai: Eu te envio”: Ex 3,7-15). Aconteceu-lhe como a Samuel, que, à insistência da voz do alto – “Samuel, Samuel” – lhe respondeu: “fala, que o teu servo escuta” (1Sm 3,10-11). Aconteceu-lhe como a Isaías, que no esplendor de uma solene liturgia contemplou Deus a tocar-lhe os lábios com o fogo do altar sagrado, para o fazer mensageiro da sua palavra, para o fazer sua boca: “Percebi a voz do Senhor que dizia: A quem enviarei?… Eu disse: Aqui estou, envia-me. Ele disse-me: Vai e diz ao meu povo…” (6,1-9). Aconteceu-lhe como a Ezequiel, que ouviu a voz de Deus a “dizer-lhe: Ser humano, põe-te de pé, que te vou falar… Abre a boca e come o que te vou dar. Olhei e contemplei uma mão estendida para mim, que sustinha um livro enrolado. Desenrolou-o diante de mim… E disse-me…: Come este rolo e vai falar à casa de Israel… Comi-o e soube-me na boca doce como o mel” (2,1-3,3). Aconteceu-lhe ainda como ao rabbi (mestre) Saulo, que, “envolvido numa luz vinda do céu, mais resplandecente do que o sol”, no seu interior “ouvia uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo… E eu respondi: Quem és, Senhor? E o Senhor disse-me: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Mas levanta-te, põe-te de pé: …Eu te envio, para lhes abrires os olhos” (Act 26,13-18).
A máxima realização da vocação do professor consiste em formar nos educandos uma vida habitada pela verdade, onde mora a bondade e o amor: um amor total que edifica a personalidade, isto é, que respeita e dignifica o pessoal de cada um; e uma verdade que torne esta personalidade lúcida, livre, responsável. Viver o amor na verdade é exercitar um amor que vê. Amar para ver e ver para poder amar bem – este poderia ser o lema para o educador cristão que quer reservar um lugar de honra na arca do perdurável e do apreciável: ensinar os caminhos do amor através dos da verdade, porque só amamos quando amamos na verdade e só somos verdadeiros quando amamos a vida, a própria e a dos alunos. Incitar à verdade e motivar para o amor deverá ser o acto de fé do educador cristão, também enquanto «agitador dos espíritos» – como Miguel de Unamuno define o verdadeiro professor.
Para isso, cultiva a profundidade, a interioridade e a espiritualidade, não espiritualidades, essas que entulham as prateleiras das livrarias das grandes superfícies, como a de Nova Era. O educador tem neste ponto um campo aberto, imensa tarefa: fazer perceber aos educandos a necessidade de cultivarem a dimensão do espírito se querem ser homens; orientá-los nos projectos que eles próprios empreendem, trazendo ao de cima o melhor de cada um.
Segundo António Quadros, a escola é “lugar para o aperfeiçoamento ético, para a formação do intelecto activo e criador, para o conhecimento e para a vivência dos valores. Sem isso, o tecnicismo, o profissionalismo e o economicismo fabricam homens vazios, sujeitos dóceis da massificação, da perversão totalitária”. A ordem ética diz respeito à nossa interioridade, que a fé cristã vê habitada por Deus. Quanto mais cultivarmos a espiritualidade, mais fácil será cultivar os valores éticos da liberdade e lealdade. Assertividade? É capacidade de a pessoa se afirmar pela positiva no meio social em que vive. Quanto mais cultivar as virtudes que a revelação bíblica propõe, mais o educador e o educando conseguirão afirmar-se na vida.










