— Descobre a luz na tua noite —

Verónica Parente

[A escolha de apresentar este texto sob a forma duma carta aos jovens portugueses, na voz de Frei João da Cruz, obedece a uma opção propositada ainda que um pouco ousada. Reconhece-se, desde logo, que o próprio místico expressaria as suas experiências e ensinamentos de maneira muito mais discreta, e também mais profunda, poética e sublime do que qualquer tentativa atual possa alcançar. No entanto, esta abordagem apenas pretende criar uma ponte entre a sua espiritualidade e a vida dos adolescentes portugueses de hoje, tornando alguns dos seus conceitos mais acessíveis e experimentais.

Ao assumir a voz de Frei João da Cruz, procurarei transmitir não apenas informação histórica ou formativa, mas também a dimensão interior, contemplativa e experiencial da sua mensagem, convidando-os a reconhecer a sua própria noite escura como um caminho de crescimento, autoconhecimento e encontro com o Amor que tudo ilumina.]

Caros jovens Carmelitas Portugueses, filhas e filhos muito queridos e amados:

Escrevo-vos desde o silêncio do meu coração, da intimidade da minha alma, porque desejo partilhar convosco um pouco do que foi a minha vida e alguns dos segredos que Deus me deu, quer calcorreando os vossos lusos caminhos, quer por tantos que percorri pelas terras dos vossos irmãos ibéricos, na minha querida Espanha.

Tal como vós, também eu fui criança, adolescente e jovem, cheio de perguntas, muitos medos e muitos sonhos, embora em tempos muito diferentes dos vossos, sem ecrãs, sem cliques, sem redes. Mas, reparai: o coração humano permanece o mesmo: todos procuramos sentido, esperança e amor verdadeiros.

Sabei que nasci a meio do ano de 1542, no lugarejo de Fontiveros, numa família muito pobre. Meu pai, Gonçalo Yepes, renunciou aos bens da sua família rica para casar com minha mãe, Catarina Álvarez, mulher simples e órfã. Ainda pequenino, perdi meu pai e a pobreza transformou-se em verdadeira miséria. A partir daí, minha mãe peregrinou de terra em terra à procura de sustento, e eu achei-me acolhido num orfanato. Recordo as noites muito frias e o medo que sentia, sem o aconchego do abraço materno, mas também os risos partilhados com outras crianças que, como eu, aprendiam a sobreviver por não terem um regaço para as acolher. Foi nesse silêncio e nessa privação primeiras que Deus começou a ensinar-me a senti-lO e a amá-lO com o coração. Ali soube que Ele me abraçava como filho; ali, na sombra discreta, e a olhar a vida com os olhos do Amor que deseja ser amado, reconheci a Luz que guia mais certeira que a luz do meio-dia.

Ainda criança, conheci um homem generoso que se apercebeu da minha inteligência e bondade, e me proporcionou estudo e trabalho no Hospital da Conceição, em Medina del Campo. Durante anos cuidei de doentes com enfermidades incuráveis, como a sífilis, e testemunhei sofrimentos de toda a espécie. Sim, entre os cheiros das ervas medicinais e das carnes corrompidas, entre os desleixos dos enfermeiros e os gemidos silenciosos, aprendi eu a escutar não apenas o corpo, mas também a alma.

Queridos jovens:

quanto aprendi e amei nas enfermarias daquele hospital! Quanto ali compreendi que Deus habita nos pequenos gestos, no cuidado silencioso, na atenção ao outro. Na entrega dedicada. Quanto…

Aos dez anos entrei no Colégio da Doutrina, onde aprendi latim e catequese. Aos dezassete anos ingressei no Colégio Jesuíta de Medina del Campo, onde estudei latim, retórica e humanidades. Passava horas – entre elas, muitas noturnas, depois dos meus afazeres – a meditar, entre livros e pensamentos, e pouco a pouco foi crescendo em mim uma inquietação que não sabia explicar. Que fogo me ardia e me queimava por dentro?! Já então o meu coração procurava algo maior, mais profundo do que o mundo visível dos humanos.

Aos vinte e um anos entrei no Convento de Santa Ana, dos Carmelitas. Lembro-me do dia em que vesti o hábito da Senhora do Carmo: medo e paz misturavam-se no meu interior.  Mas venceu a paz. No convento aprendi a valorizar ainda mais o silêncio, a oração e o desapego. Aprendi também a enfrentar a minha própria escuridão: noites de dúvida, angústia, medo e sensação de abandono. Foi aí que começou a nascer aquilo a que mais tarde chamariam a doutrina da noite escura: cada sombra e cada vazio da alma eram, afinal, um convite precioso de Deus à confiança e à entrega total. Ao abandono.

Mais tarde, nos primeiros dias do meu sacerdócio, fui chamado a colaborar na reforma do Carmelo. Muitos não compreenderam o desejo duma vida mais austera, centrada na oração silenciosa e profunda. Estive preso em Toledo, confinado a uma cela, ora fria, ora um forno, sem livros nem conforto, sem eucaristia. Que dias ali não vivi, cheios de sofrimento, dúvidas, torturas e solidão forçados! Contudo, mesmo no tormento, Deus estava presente, estava ali comigo. Ali escrevi o mais amoroso e belo dos poemas, o Cântico Espiritual, tentando dar voz ao que o meu coração vivia. Houve noites em que experimentei uma presença de Deus tão intensa que me senti transportado para além de mim mesmo, nas asas duma paz desconhecida no mundo. É difícil expressar isto por palavras.

Mas entre aquilo que escrevi, brotavam pensamentos como este: «A esperança do céu / tanto alcança quanto espera» (Romance X.4). Reparai: ali, em Toledo, como desde os meus dias primeiros, não surgiam ensinamentos teóricos, mas experiências vivas e amorosas. Ali, mais uma vez, aprendi que o sofrimento, a espera e o silêncio podem tornar-se pontes firmes para o Amor divino. Só quem assim ama se deixa amar.

Queridos jovens,

sei que a adolescência que viveis é um tempo de grande transformação. Em Portugal, tal como no mundo, nos adolescentes e jovens estão a acontecer mudanças profundas na forma como se veem, como se relacionam e como imaginam o futuro. Entre as exigências da escola, da família, a presença constante do mundo digital e as incertezas que geram ansiedade com o mundo do trabalho, a nível profissional, ou com a opção fundamental para as vossas vidas, surgem também, par a par, o sentido crítico, a coragem e o desejo de justiça. Assim vos vejo!

Esta transformação estende-se igualmente à vossa relação com a Igreja de Cristo: muitos de vós questionais a fé que recebestes e procurais uma experiência mais pessoal, mais próxima e autêntica. Quereis ser ouvidos, caminhar lado a lado com a Igreja e encontrar espaços de acolhimento e diálogo onde a fé possa ser vivida com liberdade, sentido e esperança. Sim, sei, não quereis a fé dos homens, mas a fé de Deus – quanta incerteza tenho no que também eu questiono! A vossa forma de ser e de pensar, o vosso mundo emocional e relacional mudam rapidamente, e é normal sentirdes medo, confusão e, muitas vezes, mesmo rodeados de pessoas, viveis em completa solidão. Mas é precisamente neste contexto que nasce uma oportunidade: e que tal se fizéssemos renascer o Carmo Jovem, com garra, com força e vontade de agir? Ser jovem hoje é ter coragem de viver plenamente, de acreditar, de lutar pelas causas em que acreditamos, de construir laços verdadeiros e de transformar o mundo à vossa volta.

No Carmo Jovem, cada um encontra espaço para crescer, partilhar, questionar e sonhar. Este é o momento de vos unirdes, com força e amor, para serdes uma geração que vive a fé em modo carmelita de forma autêntica e criardes um futuro cheio de esperança. Contudo, sei-o bem, dias há em que tudo parece noite e silêncio, sem sentido nem esperança.

É precisamente para esses dias que vos quero falar da noite escura.

A noite não é castigo nem fracasso. É oportunidade de purificação e crescimento interior, é um tempo para aprender a confiar e a amar verdadeiramente. Quando sentirdes inquietação, tristeza ou vazio, não vireis as costas. Escutai-O. Deixai Deus habitar essas sombras. É no aparente nada que Ele faz nascer o Tudo. Cada lágrima, cada silêncio, cada dúvida e cada momento difícil são valiosas sementes lançadas à terra da vida.

Durante o caminho da adolescência encontrareis decisões difíceis e riscos vários. A ciência mostra hoje que muitos jovens vivem com ansiedade, tristeza profunda ou medo de não serem suficientes (Steinberg, 2014; Sroufe, 2009). Mas a noite não vos define. Ela convida-vos a conhecer o vosso coração e a descobrir a força que Deus colocou em cada um de vós. Sim, não existe coração humano tão ferido que não possa ser iluminado.

Acreditai!

Cuidai do corpo e da mente, mas também do espírito. Aprender a escutar o silêncio, a integrar as emoções e a discernir os caminhos é exercício diário. Aprender a parar, a esperar, a sofrer e a amar sem medo é caminhar na luz escondida da noite. A adolescência é um tempo precioso para desenvolver estas capacidades e construir hábitos que vos acompanharão ao longo de toda a vossa vida.

Queridos amigos,

não vos assusteis com os erros ou fracassos, próprios ou alheios, nem com o tropeçar nos degraus. Eles são como sombras que fazem sobressair uma luz ainda mais forte quando são assumidos com verdade. Cada dificuldade por que passais é um convite à paciência e ao crescimento da alma. Aprender a suportar provações com fé, é cultivar a liberdade interior. Aprender a perdoar – primeiro a vós mesmos e depois aos outros – é abrir espaço à paz do coração.

Se hoje me perguntásseis: «Frei João da Cruz, como encontraremos a Deus num mundo tão barulhento e confuso?», eu responder-vos-ia como sempre respondi: não O procureis fora, mas dentro de vós! Aprendei a permanecer em silêncio, a contemplar, a confiar e a amar, porque só assim se vive plenamente! Cada noite, cada dificuldade e cada dúvida é um poderoso convite a abrirdes o coração ao Amor que nunca falha. Os Homens podem abandonar-vos, mas Deus não vos abandona jamais, nem mesmo quando não O sentis. Aliás, é nesses momentos que mais está com cada um de vós.  Silencioso e fiel, Ele sempre caminha convosco. As vossas emoções são guias preciosos; não as ignoreis jamais. A alegria, a tristeza, o medo ou a raiva são mensagens do coração que vos convidam a vos conhecerdes melhor e a vos aproximardes mais e mais de Deus. Cada desafio que enfrentais é um passo na construção de uma vida íntegra e verdadeira. Escutar a voz interior, acolher o sofrimento e agradecer a beleza é viver com plenitude. É Ser!

A noite assusta. E quantas vezes a vida se parece a uma noite escura! Porém, caminhar de noite não é perder, mas encontrar! Não tenhais medo de caminhar a vossa interioridade, nem jamais do que ainda não compreendeis. A vossa vida tem um valor imenso. Deus habita cada uma das vossas noites, dos vossos desejos, dos vossos sonhos e conquistas, dos vossos percalços e derrotas; e de tudo isso Ele faz nascer a luz mais pura e verdadeira.

Amigos:

caminhai com confiança, paciência e esperança, e descobrireis que no silêncio da alma se encontram a verdadeira liberdade e a plenitude do Amor e, repito, do Amor que quer ser amado.

Caminhai, jovens, com coragem, fé e esperança. Mesmo quando a noite parecer longa e o caminho incerto ou perdido, nunca vos esqueçais: no coração da noite, Deus ensina a voar. Caminhai, porque cada lágrima, cada dúvida e cada medo são sementes da vossa liberdade interior e do encontro com o infinito Amor.

E não esqueçais nunca: «A esperança, tanto alcança quanto espera!», não é assim o lema com que celebrais os trezentos anos da minha canonização e os cem do meu doutoramento eclesial?!

REFERENCIAS

Cruz, São João da (2005). Obras completas de São João da Cruz (6. ed.). Marco de Canaveses: Edições Carmelo.

Steinberg, L. (2014). A adolescência: Uma perspetiva psicológica. Porto: Porto Editora.

Sroufe, L. A. (2009). Adolescência e desenvolvimento emocional. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.