Militar, Carmelita Descalço e Mártir
Marco Caldas, OCD
Nota de abertura
No dia 29 de novembro de 2023, assinalam-se os 425 anos do nascimento e os 385 anos do martírio de Frei Redento da Cruz, também conhecido na sociedade civil como Tomás Rodrigues da Cunha. Este ilustre personagem foi um dos portugueses que, em 1638, integrou a embaixada de Francisco de Sousa de Castro, enviada de Goa pelo vice-rei Pero da Silva ao reino de Achem, onde acabou sendo traiçoeiramente aprisionado. Nascido em 1598 na freguesia de Cunha, no concelho de Paredes de Coura, Tomás da Cunha partiu de Lisboa na armada do Conde de Redondo, D. João Moutinho, que ocuparia o cargo de vice-rei da Índia entre 1617-1619.
A trajetória de Tomás na Índia revelou-se notável, destacando-se não apenas como militar, mas também como líder de confiança, encarregado de missões de chefia. Contudo, após cerca de vinte anos, encontrou um destino trágico, sendo vitimado por golpes de azagaias e punhais dos soldados do Achem. Importante notar que, nesse momento crucial, Tomás Rodrigues da Cunha já havia abandonado uma promissora carreira nas armas, abraçando a vida religiosa ao vestir o hábito dos Carmelitas Descalços. Adotando o nome de Redento da Cruz na Ordem Carmelita Descalça, Frei Redento enfrentou o martírio, confessando a fé, em 29 de novembro de 1638. Reconhecendo sua devoção e sacrifício, a Igreja Católica beatificou solenemente este carmelita descalço em 19 de junho de 1900.
Apesar das honras de altar e do significado religioso que o Bem-aventurado Frei Redento da Cruz detém, é notório que sua figura é pouco conhecida, até mesmo na terra natal. Nesta modesta homenagem, buscamos resgatar e recordar a vida deste mártir através das páginas que se seguem, oferecendo um tributo à sua coragem e devoção.
1. O Berço de Tomás Rodrigues da Cunha
A trajetória de Tomás Rodrigues da Cunha é entrelaçada com os acontecimentos notáveis do século XVI em Portugal, marcado pela exploração audaciosa dos oceanos e a descoberta de novos mundos, como poeticamente retratado em “Os Lusíadas”. Contudo, esse mesmo período testemunhou grandes migrações, tanto internas quanto sazonais, influenciadas por doenças, guerras e perseguições religiosas.
Nascido em 1598, Tomás viu sua terra natal, Paredes de Coura, enfrentar desafios significativos durante a guerra da Restauração, destacando-se na batalha conhecida como “Combates da Travanca” (1663). A região, apesar de uma história marcada pela produção cerealífera, enfrentou declínio econômico no século XX, agravado pela guerra colonial e pela emigração em massa.
O flagelo da peste, que atingiu Lisboa em 1598, ano do nascimento de Tomás, também alcançou Paredes de Coura por meio de uma urca proveniente da Galiza. Nesse contexto, o jovem que mais tarde adotaria o nome Redento da Cruz, ao entrar para a Ordem dos Carmelitas Descalços, recebeu seu batismo em 15 de março de 1598.
A freguesia de Cunha, onde Tomás nasceu, era parte de um concelho descrito como montanhoso, com uma população escassa e dispersa, fazendo fronteira com a bacia hidrográfica do Coura. Durante a guerra da Restauração, Paredes de Coura desempenhou um papel crucial nas operações militares contra a Galiza e na defesa contra as invasões espanholas.
A família de Tomás, os Cunhas, parece ter tido uma presença significativa na região, possivelmente como proprietários de terras, embora sem indícios de uma nobreza ostensiva. A vida na comunidade, conforme refletida nos registros paroquiais, revela uma interconexão estreita entre os membros da família e a população local.
Tomás, filho de Baltazar Pereira e Maria da Cunha, cresceu provavelmente em um ambiente agro-pastoril. Apesar da falta de detalhes sobre a fortuna de seus pais, é sugerido que a condição social não era de pobreza, mas sim de uma vida confortável. A ascensão social da família Cunha, observada nos filhos de Baltazar e Maria, é notável, destacando-se António, que alcançou posições políticas importantes em Portugal.
A juventude de Tomás provavelmente transcorreu dedicada às atividades agro-pastoris até sua mudança para a capital. Ainda que possa não ter havido opulência, sua família certamente não vivia na pobreza. Tomás Rodrigues da Cunha, integrante destacado da linhagem dos Cunhas de Coura, emergiu como um militar e, posteriormente, um carmelita descalço, contribuindo para a riqueza histórica dessa família e da região de Paredes de Coura.
2. Militar
Tomás Rodrigues da Cunha, ao que parece, não usufruiu de condições semelhantes às dos irmãos no que diz respeito à instrução, ou talvez não soube aproveitá-las. A instabilidade política do país, que se recuperava da tragédia de Alcácer-Quibir e estava sob o domínio da coroa espanhola, pode ter afetado a vida do casal de Lisouros, especialmente com dois filhos já fora do lar. Outras questões, como problemas de saúde dos filhos mais novos, Gaspar, Baltazar e Tomé, podem ter influenciado o rumo escolhido por Tomás. Não temos informações precisas sobre esses aspetos. De qualquer forma, é razoável supor que ele tenha recebido uma instrução inicial, conhecimentos básicos de escrita e contas, de algum dos padres da família, como o abade Gaspar Lamego, parente, ou o irmão do pai, Padre Duarte Pereira, que batizou Francisco.
A família, numerosa, incluía três rapazes seguidos por Maria, a primeira filha, e depois Isabel. João, o pequenino de casa, possivelmente nasceu após a perda de outro filho, quando Tomás tinha dezassete anos. Dois anos depois, Tomás tomou a decisão de deixar a aldeia e partir para a corte, a capital do reino na época.
A Crónica dos Carmelitas relata: “Já mancebo, (…) não cabendo em Paredes, lugar grande apenas por sua pátria, resolveu deixá-la e passar para as Índias de Portugal em serviço da Coroa e da Igreja.” Genealogistas mencionam outros Cunhas que foram para a Índia, várias gerações antes, possivelmente como soldados. Tomás, movido pelo espírito de aventura e ambição, escolheu seguir esse destino como a melhor oportunidade.
Assim, Tomás da Cunha partiu para Lisboa e, seguindo os passos da diligência e da fortuna, embarcou com o Vice-Rei D. João Coutinho, conde do Redondo, em direção ao Oriente, onde nasce o Sol.
A ventura que proporcionou a Tomás Rodrigues da Cunha acomodação à sombra do vice-rei era, supostamente, uma carta ou cartas de empenho, as quais os recrutas deveriam portar consigo. Mesmo sem outras recomendações, bastaria a exibição do “instrumento de geração,” conferindo-lhe o direito a certo patrocínio no exército, uma tradição que mais tarde seria institucionalizada.
A armada do vice-rei, bem provida e equipada com mais segurança do que as destinadas ordinariamente ao transporte de soldados para nossas praças além-mar – representando já um privilégio ser admitido nela –, partiu de Lisboa em 21 de abril de 1617, alcançando Goa em 18 de novembro seguinte.
Desconhecemos as ações militares específicas em que Tomás da Cunha participou durante sua permanência na guarnição de Goa. Contudo, nesse momento crítico da nossa conquista sob domínio filipino, as investidas dos holandeses contra as posições portuguesas, em terra e no mar, eram persistentes. Tomás provavelmente esteve envolvido em diversos conflitos navais e terrestres, demonstrando destemido valor. Foi enviado como cabo de uma esquadra para o presídio de Calamina (São Tomé de Meliapor), onde sua conduta o levou a ser alçado a Capitão da guarda pessoal do governador Ruy Dias de S. Payo.
Antes de sua partida para São Tomé de Meliapor, sob o governo do conde de Redondo, há indícios de uma possível passagem de Tomás da Cunha por Ormuz, com destino à Pérsia. Uma carta do vice-rei ao escrivão da feitoria em Ormuz menciona a partida de Tomás para a Pérsia em outubro de 1619. Talvez estivesse acompanhando algum emissário português na tentativa de estabelecer trato comercial com o soberano persa. Sua escolha para essa missão sugere atenção especial do rei Filipe III, mesmo sendo um simples soldado.
Na Crónica dos Carmelitas, Tomás é mencionado quando deixa a guarnição de Goa, agora como cabo de uma esquadra, comandando soldados com destino ao presídio de Meliapor, na Índia oriental. Se sua graduação visava distingui-lo, seu desempenho nesse novo posto, à frente da guarnição do forte, lhe valeu a confiança do governador Rui Dias de Sampaio, que o fez capitão da sua guarda pessoal.
Tomás permaneceu em Meliapor por alguns anos. Durante esse tempo, teve a oportunidade de experimentar a vida social da vila, sendo “brindado de muitas e nobres conveniências do estado conjugal,” embora tenha resistido a tais avanços, mantendo-se íntegro, sem quebras de moço.
3. Carmelita Descalço
Nas Crónicas dos Carmelitas há um hiato de informações sobre o ano exato em que Tomás Rodrigues da Cunha escolheu a vida religiosa. O cronista leva-nos abruptamente ao reino de Sinde, onde Tomás se hospeda no convento de Carmelitas Descalços, na cidade de Tatta. Lá, ele observa o modo de vida dos religiosos e decide pedir para ser aceito como donato, iniciando assim o seu noviciado. No entanto, os motivos que o levaram a realizar essa longa jornada até um convento distante não são mencionados. Pode-se supor que, após tomar essa grande decisão, Tomás tenha-se dirigido ao convento de Goa e, posteriormente, ao de Tatta para iniciar a sua vida religiosa.
Recebido pelos Carmelitas Descalços por volta de 1627/1629, Tomás completou o seu noviciado em dois ou três anos, sujeito a um regime bastante austero. Após esse período, fez a sua profissão, provavelmente no convento de Tatta, e pronunciou os votos solenes ao transferir-se para a residência carmelitana de Diu. Agora conhecido como o irmão donato Redento da Cruz, devido à falta de instrução que o impedia de aspirar ao sacerdócio, ele foi enviado de Diu para o convento de Goa (fundado pelo Padre Frei Leandro da Anunciação, natural de Burgos, que fundou aí em 1620 o convento de Nossa Senhora do Carmo, e fê-lo com verdadeira grandeza oriental) onde passou a maior parte de sua vida religiosa.
Em 1631, já professo e sacristão, ele estava em Goa, como nos conta o Padre Frei Filipe da Trindade na biografia que escreveu dos dois protomártires carmelitas, onde ocupou humildes funções como sacristão e porteiro, tarefas que geralmente eram atribuídas aos donatos. Essas ocupações modestas, no entanto, contribuíram para a sua notoriedade, pois era reconhecido pela sua bondade e afabilidade, recebendo respeito e afeto de todos, independentemente da sua posição social.
Tomás Rodrigues da Cunha parece ter sido um homem de firmeza de caráter, alguém que não tolerava a corrupção e que resistia a práticas imorais que testemunhara durante o seu tempo como militar. A sua decisão de renunciar à oportunidade de enriquecer na Índia e dedicar-se à pobreza carmelita é elogiável. Apesar da sua modesta posição como donato, a sua vocação teria um desfecho notável ao colaborar com o irmão Dionísio da Natividade numa viagem ao Achem, na Indonésia, tornando-se os protomártires dos Carmelitas Descalços.
4. Mártir e Bem-aventurado
Os Carmelitas Descalços empenharam-se na promoção do processo de reconhecimento do martírio pela fé dos seus dois religiosos. Em 26 de agosto de 1639, muito antes de passar um ano sobre os eventos, foi colhido um primeiro depoimento sobre os mesmos, por ordem do arcebispo primaz de Goa.
Em 20 de março de 1642, diversos depoimentos foram tomados, incluindo o do embaixador Francisco de Sousa de Castro, já em Goa, e em 12 de março de 1643 registou-se mais um depoimento. O próprio Francisco de Sousa de Castro, por carta ao superior geral dos Carmelitas Descalços em Roma, em 3 de março de 1643, informou que também escrevia ao cardeal da Congregação dos Ritos solicitando a verdadeira inquirição do sucedido, pedindo apoio com a sua autoridade. A causa foi introduzida em 18 de maio de 1675.
Passados alguns anos, porém, a dúvida surgiu, e o andamento do processo foi suspenso, alegando-se que a morte dos dois carmelitas teria tido uma motivação mais política do que religiosa. Dois séculos decorreram até que, em 1876, a Ordem decidiu retomar a causa. Na época, no arcebispado de Goa, já não havia memória do processo, o que resultou em novos obstáculos.
Em 1890, os Carmelitas Descalços pediram ao Papa Leão XIII que se concluísse a causa da beatificação dos seus religiosos, entrando-se então na fase definitiva. Em 25 de março de 1900, o Promotor da Fé considerou, entre outras conclusões do seu relatório, que a causa do martírio dos dois carmelitas não foi, como poderia parecer, a sua qualidade de portugueses, mas o ódio ao nome de cristãos.
Finalmente, o processo culminou com a beatificação dos mártires, Padre Dionísio da Natividade e Frei Redento da Cruz, em 25 de março de 1900, na festa da Anunciação. A leitura do mesmo foi agendada para 10 de junho seguinte, na festa da Santíssima Trindade, e ocorreu na basílica de São Pedro do Vaticano, com toda a solenidade, diante de muitos milhares de fiéis.
Tomás Rodrigues da Cunha experimentou uma transformação espiritual significativa. A sua vida, embora tenha sido em grande parte esquecida pela história ao longo dos séculos, emerge como uma história igualmente ilustre, proporcionando insights profundos sobre as complexidades da vida familiar, os desafios sociais e as escolhas individuais durante uma época marcante na história de Portugal.
A procura da contemplação, a entrega à vida de oração, a busca pela simplicidade e o comprometimento com o serviço aos outros definem o ethos da figura de Frei Redento da Cruz.
No contexto do século XXI, a sua vida personifica os contrastes e desafios da sua época, em que a busca por riquezas se entrelaçava com uma profunda busca de uma vida de entrega e missão. Seu legado persiste como um inspirador exemplo de coragem, fé e dedicação ao serviço do outro.










