1. Por qual razão SJ+ não apreciava falar de si?

No Prefácio deste livro – João da Cruz, o rosto humano do mistério – encontramos a afirmação de Emílio Martinez: «Ao contrário de santa Teresa, o escritor João da Cruz não gosta de nos falar de si próprio; é um companheiro e, quando escreve, fá-lo para descrever o caminho que vai do homem para Deus e de Deus para o homem». Arrisco a razão principal: Ele era verdadeiramente uma alma enamorada por Deus. Não falava muito de si mesmo porque a sua vida e obra eram um caminho para desaparecer em Deus, não para se autopromover, buscando a total nudez e o vazio de si mesmo para ser preenchido pelo amor divino. Deus era em tudo o protagonista principal. Também não me repugna a influência da sentença atribuída a Santa Teresa de Jesus, colocada na porta dos locutórios de vários Carmelos: «Irmãs, ou falem de Deus ou não falem, pois na casa de Teresa esta ciência se professa» (ou «Irmão, uma de duas: ou não entre ou fale de Deus»). João da Cruz, antes de começar a reforma dos frades em Duruelo, viveu com as Carmelitas Descalças de Valladolid para aprender o “carisma teresiano”; ou seja, a ciência de se centrar em Deus, e não em banalidades, porque a «ciência» que se professa é a do amor divino e da oração. A propósito, lembro o que ele escreve na Carta 8, às Carmelitas Descalças de Beas: «A maior necessidade que temos diante deste grande Deus é de guardar silêncio no espírito e na língua, pois a linguagem que Ele ouve é só a do amor silencioso».

2. Uma biografia tão pequena (parece um sumário!) pode falar-nos dum santo de altíssima talha como SJ+?

A biografia de um santo não depende do número de páginas de um livro. O contexto foi outro, mas não posso deixar de lembrar aqui a visão mística de São Tomás de Aquino em 1273, que, ao celebrar a santa Missa, o fez perceber que a grandeza de Deus superava qualquer compreensão ou expressão humana, tornando as suas obras intelectuais, por mais grandiosas que fossem, meras “palha”. E o resultado foi que ele deixou de escrever. Em relação à talha de santidade de João da Cruz talvez ninguém tenha dito melhor que Teresa de Jesus: «Não encontrei em toda a Castela outro como ele, que tanto afervore no caminho do Céu (Carta 277). E foram apenas meia dúzia de linhas! O que eu digo é que ninguém pode conhecer cabalmente a vida de São João da Cruz sem ler as suas Obras. Pessoalmente defendo que a melhor biografia espiritual do nosso Santo são os seus escritos. Esta biografia agora apresentada é pequena, mas, de forma bem peneirada, contém toda a talha de São João da Cruz.

3. Na ótica de SJ+ é uma malfeitoria ou um pecado contra Deus se lhe retiramos protagonismo?

Mirando eu as três palavras – ótica, malfeitoria e pecado – atiro-me para a visão de S. João da Cruz, para quem «o olhar de Deus é amar” (CB 19,6). «Importa saber que o olhar de Deus produz na alma quatro bens: purifica, agracia, enriquece e ilumina. É como o sol quando envia os seus raios: enxuga, aquece, aformoseia e resplandece» (CB 33,1). Aqui está o protagonismo de Deus que entra na alma, enche-a de luz e tira-lhe os medos. Por muito que queiramos nunca retiramos protagonismo a Deus, pois Ele é omnipotente e omnisciente. As questões de malfeitoria ou pecado do homem não me encantam, pois na ótica de João da Cruz Deus e o homem são dois amigos que fazem uma viagem juntos em direção à união e plenitude do Amor. Eu diria que Deus só tem uma questão: amar-nos perdidamente, «pois para este fim de amor fomos criados» (CB 29,3). As malfeitorias e pecados dos homens podem entristecê-lo, mas não lhe desviam o olhar nem a medida do amor, que é sem medida. A ótica de João da Cruz não se fixa só em Deus ou só no homem, mas nos dois. Daí que o seu foco esteja posto n’Aquele que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem: Jesus Cristo. «Põe os olhos só n’Ele, porque n’Ele tudo disse e revelei, e acharás ainda mais do que pedes e desejas» (CB 22,5).

e 4. Porque tanto gostas tu, P. Agostinho, de falar de SJ+?

Para responder, por incrível que pareça, tenho de começar com a primeira estrofe da Poesia IX de S. João da Cruz: Eu não sabia aonde entrava, / porém quando lá me vi/ sem saber eu onde estava, / grandes coisas entendi. Explico-me. Quando entrei para o Seminário, sendo ainda menino, eu não sabia aonde entrava. Quando fui para o noviciado, eu não sabia onde estava, e os escritos de São João da Cruz fugiam-me das mãos, embora tivesse escolhido o meu nome religioso – Agostinho da Cruz – como o João tinha feito. Fazendo a viagem de carmelita descalço caí na conta que estava numa Ordem com Santos de top, pois, além de grandes santos são doutores da Igreja. João da Cruz é como uma mina onde encontramos veios de riqueza sempre novos. Espiritualmente estou muito grato ao nosso “pai” João da Cruz e sinto uma necessidade de o dar a conhecer.

Mais informações sobre o livro: https://carmelo.pt/inicio/233-joao-da-cruz-o-rosto-humano-do-misterio.html