História da Espiritualidade
Redação
O fenómeno de vitalidade interior que surgiu nos finais de 1800 no mundo católico e que se denomina “movimento místico” é caracterizado, por um lado, pela necessidade de encontrar os fundamentos e âmbito dogmáticos da vida “interior ou espiritual” (inicialmente graça santificante e inabitação, e mais tarde corpo místico, Igreja, Sacramentos, Liturgia) e, por outro, pela sua atenção à experiência contemplativo-mística como figura concreta e pedra de toque da perfeição cristã já conseguida ou ainda em processo.
Este “movimento” digno de ser melhor conhecido e mais estudado por parte dos historiadores que se ocupam da História da Igreja do século XIX, ainda que não tenha nascido da teologia, atraiu a atenção dos teólogos, mais a nível de trabalhos monográficos de divulgação do que de tratados formalmente académicos ou institucionais. Parece que, de fato, sem este contributo, o “movimento” não teria assimilado estes horizontes teológicos, e menos ainda a formulação do problema da perfeição em termos de “contemplação” e de “mística”.
Historicamente, a Teologia Espiritual foi relacionada com a moral e a dogmática: com a primeira, tal relação remete à sobreposição que tradicionalmente se deram entre ambas as disciplinas; em relação à segunda, são significativos os contínuos desencontros. Quanto às relações moral-espiritualidade, devemos reconhecer que ambas se referem diretamente ao viver cristão, e se movem no âmbito da antropologia cristã. Quanto às relações entre espiritualidade e dogmática, é certo que o divórcio entre ambas disciplinas foi (e continua a ser) evidente. Talvez se pudesse dizer que a diferença entre a teologia dogmática e a teologia espiritual depende da importância decisiva que reveste para esta última o conceito de “experiência”.
Von Balthasar aprofundou com acerto as divisões entre as duas disciplinas. Historicamente, é conhecida a tensão crescente e a oposição que se foi formando entre os monges e os “mestres”. Daí advém que os novos “mestres” se enfrentem dialeticamente entre si (basta pensar em S. Boaventura e S. Tomás como máxima expressão deste enfrentamento). Assim, aparece uma literatura que, ora se insurgia contra a teologia de escola ora se coloca voluntariamente à margem da mesma, preferindo a “scientia” nascida da “experiência”.
A partir da Escolástica, poucos teólogos foram reconhecidos como santos. Até então, os grandes santos foram na sua maioria também os grandes dogmáticos. Anselmo, abade, bispo e doutor da Igreja não conhece outro cânon da verdade da Igreja que não seja a unidade de inteligência e vida. Beda, Bernardo, Pedro Damião pensam da mesma forma. Pelo contrário, a crescente escolarização da teologia, na forma de “escolástica”, e ainda mais a receção do aristotelismo, trouxe um duro golpe a essa unidade.
A época posterior já não conhece o teólogo “completo” no sentido antes descrito, ou seja, o teólogo santo. A sobrecarga exagerada da teologia com filosofia afastou da primeira os homens espirituais. Deste modo começou a surgir, ao lado da dogmática, uma nova ciência da “vida cristã”. Tal ciência tem a sua origem na mística medieval, e torna-se definitivamente independente na “devotio moderna”. É nesta via marginal onde, nos séculos seguintes, encontraremos os santos.
Na interpretação do grande teólogo Von Balthasar, o resultado será o seguinte: por um lado, teríamos os ossos sem carne – a dogmática tradicional; do outro, a carne sem ossos – todo um conjunto de literatura piadosa, espelhando uma espiritualidade ascética, mística e retórica, que alimenta os espíritos mas com o tempo torna-se indigerível, pois carece de substância.
O mesmo autor fala da espiritualidade como “a face subjetiva da dogmática”. Neste sentido, seria legítimo falar, uma vez mais, das duas faces da mesma moeda e da necessidade que existe de ambas as faces: dos “ossos” – a dogmática – e da “carne” – a espiritualidade.
Hoje continua a ser urgente construir pontes entre dogmática e espiritualidade, e escrever “sobre” Deus “pondo o coração de joelhos”. Teologia rezada não significa teologia meramente “afetiva”, em contraposição à teologia autêntica, estritamente científica. Enquanto predominou uma teologia de santos, a teologia foi uma teologia orante, ajoelhada… A certa altura, passou-se da teologia ajoelhada à teologia sentada. É necessário continuar a encontrar caminhos de encontro e de enriquecimento mútuo. Este esforço é notável nos nossos dias mas há muito caminho a fazer.










