Armindo Vaz, OCD

Falar da morte do ser humano soa quase a ligeireza: por muito sério que seja o discorrer à frente dela, será sempre uma incursão no desconhecido. Tão profunda e arrebatadora sendo a sua intensidade dramática, enfrentá-la com o pensamento é como sair vencido à partida. Não é por essa razão que hoje as relações humanas e as tecnologias da comunicação e da informação põem em cima da ideia da morte uma laje de silêncio, evitando falar dela, na tentativa de a enterrar: se tem de emergir, então que seja o mais tarde possível – pensa-se. Ela torna-se embaraçosa na conversa; por isso, não se deixa lá entrar. Nem se pronuncia a palavra. Substitui-se por sucedâneos com o vocabulário alternativo de partir ou outro. Pais e familiares afastam as crianças do cemitério e dos funerais. Não falam dela porque não sabem o que fazer com ela nem têm uma solução para ela.

Não obstante essa fuga à realidade, o realismo diário da morte impõe-se-nos. Tem a marca do inevitável. Não a conseguimos eludir. Obriga-nos a falar dela. Obrigação à parte, pensá-la pode ter reflexos positivos na vida: “Em todas as tuas acções/palavras recorda-te do teu fim e assim nunca errarás” (Sir 7,36). Desde logo, viver na perspectiva do fim da vida física gera sentimentos de igualdade entre todos os humanos, sábios ou medíocres, abastados ou carenciados, enamorados ou abandonados, doentes ou sadios. Dado que a morte não está à margem mas no coração da vida qual presença invisível, ela pesa na balança do sentido da vida cada decisão que tomamos e faz-nos viver como precioso e último cada instante da nossa existência. Quanto mais consciência tivermos da realidade da morte, mais maravilhosa aparecerá a aventura da vida. Porque a morte afecta a existência em cheio, meditar nela é meditar no sentido último da vida. E – o que é fundamental – amplia a visão global da vida. Quem não quer pensar na morte tem uma perspectiva estreita da vida. Não conhece bem toda a vida se no seu círculo não inclui a morte. Ela faz parte da vida tanto como a vida faz parte da morte: “Deve-se esperar sempre pelo último dia do homem: ninguém deve ser considerado feliz antes de morrer e antes de receber as honras finais [funera]” (Ovídio, Metamorfoses, III, 135-137). Pensar a morte constrói a vida sobre fundamentos humanos e humanizantes.

A elevação de uma religião pode medir-se pela saída que dá ao problema da morte. O cristianismo, que vê realisticamente a vida humana gravada na areia da transitoriedade, sente, ao mesmo tempo, dentro de si o desejo íntimo de fazer frente à caducidade. O cristão enfrenta todos os dias esse paradoxo: nascido para a morte, tende para a vida. No coração da fé cristã não está a morte mas a vida. De facto, Jesus fala abertamente da morte integrando-a na vida: “Eu vos asseguro: se alguém guardar a minha palavra, nunca saberá o que é morrer” (Jo 8,51); “eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre… e eu ressuscitá-lo-ei no último dia” (Jo 6,51.54). No seu discurso inovador introduz uma palavra conhecida: a ressurreição. Garante que a vida não acaba com a morte: prolonga-se depois dela. Entende que a última pergunta sobre a vida não pode ser respondida pela física mas só pela metafísica. Quando diz “eu sou a ressurreição e a vida: quem tem fé em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11,25), sugere que o sentido último da vida se funda na identificação com a dele, com o que disse, com o que fez. A ressurreição é a linguagem da superação da morte. Recusa que a vida possa ser uma busca em torno do vazio e do ‘poço da morte’.

O mundo cristão desde o séc. V dedica um dia do ano à oração pelos que passaram pela morte, dia que desde o séc. XIV é o 2 de Novembro. A tradição popular antecipa já para a véspera festiva de Todos os Santos essa óptima forma de recordar as pessoas amadas falecidas, querendo significar a ligação de umas com os outros. A intenção, estimulante, é ligar na saudade a perda de um familiar com o amor a ele. Como dizia Nietzsche, “amar e perder: há muito que as duas palavras vão juntas. Querer amar é aceitar mesmo a morte” (Assim falava Zaratustra; Presença; Oeiras 2010; p. 145). Porque todos temos familiares defuntos amados, e Jesus, Maria e José, a fé intui que, quando morremos, somos esperados. É sugestiva a ideia que a Bíblia põe na boca de grandes personagens – ou diz delas – ao morrerem: “vou reunir-me com os meus” (Jacob aos filhos), vou juntar-me aos meus pais, “irás reunir-te com os teus” (Deus a Moisés), “foi reunir-se com o seu povo” (Abraão e Isaac)… “Não temas estar destinado à morte: recorda os que te precederam” (Sir 41,3). No drama da morte, dá conforto pensar que em Deus os nossos entes queridos, pelos quais dobram os sinos com um toque de memória que faz ressoar a saudade, o afecto e a piedade, estão à nossa espera e que nós nos juntaremos a eles, seja qual for a sua condição. E quando se juntam os que se amam, tudo de bom pode acontecer, mesmo o fisicamente impossível (mas crível): é a festa cristã da comunhão dos santos, a jubilosa sinfonia da esperança.