(A propósito do romance A Perdiz e o Sacrifício, de José Manuel Cruz)

Frei João Costa, OCD

1. Os caminhos da vida são salas de aula, ao menos para mim. Juntos todos, uma universidade. Gosto de encruzilhadas mesmo quando, esbaforido e sem tempo, hesito que direcção tomar. Cada opção é um desafio, uma interjeição, um espanto, um novelo por desvelar. Nunca me perdi, mas já tive de voltar a trás e escolher outra opção. Já me vi no fim do mundo — Ah, aquela nua penedia da Peneda! —, dei meia volta, remirei as casas baixinhas da branda, e fui por outro caminho. É a vida.

O caminho é metáfora da vida. Eis a relação que tenho com eles: percorro-os para chegar ali ou além, mas nem sempre vou pelo mais óbvio ou pelo mais rápido ou pelo mais conhecido e sociável. Às vezes elejo o mais improvável ou o mais inóspito, mesmo que o GPS me prove o contrário. Mas, pergunto-me, que sabe da vida o GPS? E então lá vou eu cruzando casarios velhos, ribeiras mansas, serras bravas, deixando para trás palácios derruídos que me bramem pergaminhos outrora faustosos, e agora são quase nada.

2. Confio-me reiteradamente a São João da Cruz dos Caminhos e, em meu coração mendigo, recordo-o peregrino cantante dos salmos de David e de hinos à Virgem e a Jesus. Que caminhos percorreu São João da Cruz! Que caminhos… E não, não eram bem trilhos, mas caminhos de pé posto, de cabras, de lavoira, barrancos, carreiros, lameiros e lamaçais e lodais imensos, armadilhas, enfim. Uma vez veio a pé a Lisboa, com um burrico ao lado, disponível para os dias mais aziagos, e um companheiro. Foi viagem para bem mais de um mês, quase dois. (E outro tanto para o regresso.) Foram daquelas viagens que valem uma odisseia das que já não sabemos fazer nem escrever. E que fazia o Santo numa viagem assim? — Demandava o mar com a sede de um rio! E logo ele que jamais vira o mar. Haveria de vê-lo, sim, e de ouvi-lo cantar em Alcântara. Ah, as canções do mar a bater na areia, nas rochas, no casco dos barquinhos ou a embalar peixinhos! E que coisas dizem as conchas às ondas, e os peixinhos aos barcos? Toda essa sinfonia auspiciava ouvir São João da Cruz quando chegasse a Lisboa. E chegou! E ouviu! Toda essa música ele bebeu e lhe encantou a alma! Mas enquanto não chegou, garboso caminhou, sabendo dever caminhar, sereno e inexaurível, como um rio. Dizem que quando lhe tocava subir ao lombo do burrico lia a Bíblia, e talvez lesse, apesar de a saber de cor. E lia os salmos das Horas, e encantava-se com o chilreio dos passarinhos, os perfumes das flores, a dança das abelhas, com o «venha com Deus» dos pobres, um tarugo de pão, mel e um copo de três, o bailado dos rebanhos retouçando para esta e aquela banda, e saudaria os lavradores, confessaria alguns, cumprimentaria pastores solitários, anunciaria a outros, pacificava feras desavindas, amainava tempestades desembainhadas. E cantava… Cantava muito pelos caminhos, São João da Cruz. Ah, o encanto dos caminhos. O encanto… O encanto dos caminhos ajuda a tecer amizades, a unir almas, a desafogar mágoas, a desfiar ave marias, a escutar um mestre, a saborear sabedoria de santo, a aprender os segredos da vida, a agradecer as dádivas pequeninas, a apreciar a beleza do imponderável, a valorizar o essencial, a agradecer uma fonte, uma sombra, o concerto dos grilos, um molho de palha seca que servisse de cama. Eu dava um braço — a perna vê-se bem que não dava jeito nenhum … — para ter feito uma só viagem daquelas de mais de um mês à sombra de São João da Cruz! É sabido que o Santo abria as dobras da alma a quem com ele caminhasse — e como eu gostaria de ter bebido dessa água fresca! E como eu teria gostado de pôr-me à janela da sua alma! Digo que dava um braço por isso, mas teria preferido ficar com os dois, como é óbvio… E nem precisaria de subir-lhe (ou descer?) para a alma, bastar-me-ia ficar à janela, que são os olhos. Ali viajaria eu bem, lendo com o seu olhar o infinito do céu, as serranias alcantiladas, o voo das aves, o zunir das abelhas e borboletas, o carreiro das formigas, os peixinhos acabados de nascer, os juncos, os alhos silvestres, as ermidas brancas ao longe, as amoras negras, a mansidão dos animais bravios, os cavaleiros impantes, a dolência dos explorados e famintos, os castelos e os palácios, as choupanas, os soutos e os corços saltitantes, as sementeiras e as cegas e as vindimas, os caminhos intermináveis, os prados de verduras, as flores e as fronteiras, as cobras ziguezagueantes, os regatos cantantes, as gentes a rezar. O que eu não daria!…

O que eu não daria por poder desafiar São João da Cruz a caminhar meia légua às arrecuas, tão só meia légua, sim! Às arrecuas? Sim, às arrecuas, que às arrecuas é que nós melhor descobrimos o caminho; que é como quem diz: por mais que conheçamos os caminhos, a inclinação do sol, as voltas, as curvas, a extensão das rectas, as encruzilhadas e as montanhas, os vales e os desfiladeiros, as árvores bordejantes, as rãs saltando para o profundo centro das poças, as fontes encantadas, os melros saltadores, os pardais irrequietos, os passarinhos pipilantes, os saltões e os lúmen-cús voadores, sim, por mais que saibamos tudo isso, nunca alguém verdadeiramente sabe as surpresas que o caminho da vida nos traz. Por isso, digo: gosto de imaginar-me caminhando pela vida às arrecuas… E também porque gostaria de saber o que me diria o Santo depois de caminharmos ou corrermos juntos um pedaço de caminho naquela pantomina; qualquer coisa como: e cria um pai um filho para isto, meu Deus?!

3. Não foi a ele, que era santo e espabilado — mas certamente que ele bem o sabia porque, embora dado para a mística, era homem advertido —, mas a um outro Carmelita Descalço, a quem Santa Teresa recomendou que se cavalgasse muitas horas pelos trilhos velhos de Castela cingisse primeiro as rédeas da montada à correia do hábito. Não fosse adormilar-se e tombar da cavalgadura e, ao estatelar-se, se lhe espantasse a besta e esta se lhe sumisse com os parcos pertences. É certo que os de Frei João da Cruz eram bem mais ralos e de bem menor valia que os de um Provincial, mesmo Descalço, mas ainda assim, ele saberia como a coisa se faria. E fá-lo-ia, que avisado era ele. Os caminhos têm, pois, destas coisas, prosaicas, sábias e santas; e sobressaltos intempestivos, e assaltos mortíferos, e inesperadas e torrenciais chuvadas, e tardes tórridas, e incertezas quanto aonde acoitar-se e dormir, e corridas à pedrada, e cruzeiros e ermidas sossegadas, e coelhos assustados esgueirando-se para as luras, e tímidas raposas fugindo, e perdizes de incansável chamamento, e cigarras, e o voo das águias altaneiras, dos falcões e dos pássaros solitários, e gente pobre e minguada, e almas boas e santas, e rios por atravessar, e mortes, e giestas floridas, e…

4. Ontem, tresantontem e hoje isso sucede, bastará saber-se por que caminhos impontar os passos.

5. Isto tudo e algo mais me veio à mente quando, por segunda vez, me afundei na viagem que o romance A Perdiz e o Sacrifício, de José Manuel Cruz, autor bracarense, há pouco nos propôs. Há coisas várias a dizer sobre tal viagem, como de ângulos têm certos poliedros:

i) Sobre o Autor ouvi um renomado amigo de infância chamar-lhe resiliente, homem que não soçobra sob tormenta alguma, e se baixar a cabeça é para que a chuva ou a neve não lhe turbem os olhos e o obste de caminhar. Conheço-o há três ou quatro anos e estou convicto que outras razões o façam inclinar a cabeça e o olhar — as lágrimas, por exemplo. Conheço-lhe a mãe e quem melhor conhece um homem — até melhor que a esposa, a companheira ou os filhos — é a mãe. E ela disse-me: «Este meu filho é rapaz de uma só folha dobrada em quatro no bolso de trás das calças; e de um lápis. Era assim que ele, em miúdo, ia para a escola. Não era, porém, certo que chegasse a casa com a folha dobrada em quatro e o lápis». Eu confirmo que ainda assim é. Mas quem precisa de uma folha branca e de um toco de lápis se tem alma grande onde Deus se acoite? Porém, nem mesmo quem assim seja se vê livre de intempéries e, frequentemente, no verão, ele se apresenta de informais chinelos. (Como se sabe os chinelos são algo distintos de alpergata de frade);

ii) O título do romance é ardente e engenhoso, no seu quanto. Poderia esmiuçá-lo aqui, mas como sei que são Carmelitas que me leem, para quê fazê-lo?;

iii) O texto merece ser lido, mergulhado, declinado e mastigado; mas não resumido, que é o mesmo que traído; seria crime de lesa-literatura. Acrescento, não obstante, que a sua luminosidade acabou impondo-se ao Autor — o que não é o mesmo que por ele tenha sido perseguida e pescada à linha, mas também não se desdiz que o tenha sido. Haverá quem se ria do que digo, mas quem se rir é porque nunca escreveu nada; só copiou sebentas. Eu que também nunca escrevi, sei que textos existem que só saltam para fora, só pulam a cerca de arame ou só pintam a alva folha branca depois de bem nos lerem por dentro. É isso: os livros conhecem-nos a alma, o coração e as artroses mesmo muito antes de os escrevermos. Eles sabem se, por dentro, somos escuros ou boreais, se confusos, desalinhados ou verticais. Ou com alinhavos. E depois dizem isso de nós aos leitores. Não resumirei, portanto, o livro. Nem o creio resumível. Creio-o justo e seco, desafiante como dois espadachins num torneio. Mas meigo e manso. Vão lá ver se tenho razão;

iv) Não sou quem para dizer que seja obra prima. Da literatura portuguesa não o é certamente, e o Autor – quase invisual – dirá o mesmo. Cego, não vesgo, disse eu. Rezo, porém, para que escreva uns parágrafos mais e nos dê refrescos ou sombras que nos espantem e acariciem, nos acicatem os sentidos, nos abram para mais uma jornada das vias do espírito, nos impilam para a outra extrema da transcendência. Talvez tresleia, mas seria pouco lê-lo como literatura de viagens, reconstituição de história, literatura piedosa ou virtuosa ou mero passatempo. Não nos namora, posta-se diante de nós; é duro como um murro que não chega a ameaçar-se. Saber que existe um livro assim é um desconforto por ainda não tê-lo lido. Rezo, como disse, para que o Cruz nos desafie de novo, num outro texto, porventura, com outros requebros;

v) A personagem que por aquelas páginas adentro irrompe e por Portugal acima sobe é Frei João d’Ascensão, Carmelita Descalço, do séc. XIX. Como se sabe aquele século acabou com os frades mesmo antes de chegar a meio. Que digo eu, acabou? Acabou nada, restou um. E que um! Ameaçaram-no aqui, perseguiram-no acoli, bateram-lhe acolá, prenderam-no além. E ele disse, replicou e treplicou: O hábito da Senhora do Carmo jamais o desvestirei; prendam-me se querem ou façam-me o que entenderem! Carmelita sou, como Carmelita vivo, Carmelita morrerei, que não sei viver ou morrer de outra maneira. E assim foi, morreu inteiro; mas morreram primeiro os que o perseguiram, prenderam e maltrataram. Foi em Braga, no dia 16 de março de 1861, onde foi sepultado na Igreja do Carmo. Ali Camilo foi ajoelhar-se e prantear-se. Antes dele, muitos, em idêntica peregrinação, ali fraguaram as almas, sucedendo igual nos decénios seguintes, até pelo menos 1960;

vi) Uma coisa me espanta em tudo isto: em seis meses, ou algo parecido, este é o segundo livro em que irrompe a figura de Frei João d’Ascensão. O primeiro foi O Resgate, A Perdiz e o Sacrifício, o segundo. Não são gémeos, nem na arte nem no génio. Irmana-os ligeira coincidência, que a terra dá daqueles frutos quando está madura ou madura ela os leitores. E talvez também haja de dizer-se que quando um farol nos urge, lamentamos se este é despossuído de luz. E este, sim, tem;

vii) Se o Autor o negar, negará e terá razão. De facto, o que perpassa pelo A Perdiz e o Sacrifício é o apelo à fuga do rame-rame de trazer a cote, a intuição da luz da fresta, a abertura ao imponderável, a definição da verticalidade, a amplidão da transcendência. É claro que é uma ousadia, porque de tão ignaros e mesquinhos, os dias que correm desavizinharam-se da transcendência. A verdade, porém, é que quando a realidade se nos oferece estreita e virtualizada, parecendo que ou nos aperta ou nos amarfanha, urge aproximar-se de alguém como Frei João d’Ascensão que jamais mudou, pois rumo que mudar não havia, antes eleva e faz elevar o olhar do leitor por uma verticalidade inteira que nos impele para muito acima do pó. Quem, porém, se afeiçoou ao torpor ou à hibernação ou a viver anestesiado terá dificuldade em ombrear com uma leitura inteligente e desafiadora como esta. De facto, José Manuel Cruz não escreve para namorados;

viii) Se digo que textos existem que só saltam para cá das barreiras quando convocados; também é verdade que este e outros, de improvável similitude, exigem leitores em processo de regresso do exílio. É notável existir à nossa volta, depois de muitas postergações, uma ingente demanda do sagrado e da transcendência. Já algures se diz andar por aí demasiada gente, de mestre em mestre, de fonte em fonte, de flor em flor, à procura de sentido, de luz, de paz. Foram saindo pelas nesgas do aprisco, indo por aí sem rumo certo, de negação em negação, de busca em busca, de saber em saber, de migalha em migalha, do hinduísmo ao taoísmo, do sufismo à cabala, do ocultismo ao nada, ao vazio e à negação da divindade; e negando-a, obliteraram a transcendência e a sua sombra e, em consequência, mirraram a ideia de humanidade. Buscam fora o pão que em casa há, e dão-lhes ali migalhas de bolor; e, sem pastor, andam cansados e desvalidos. Alguns, se empreendem um rebusco de luz por entre nevoeiros, é, talvez, quem sabe, por algures nas cavernas da memória, ainda lhes reverberar algo cálido, nostálgico, afectivo, comunitário. Dou um exemplo: ainda neste sábado, a Renata obrigou-se a vir de Paris para ver a estátua do Santo Fradinho. Disse-me que está desesperada porque anda em busca de luz e por aí e acolá só encontrou fragmentos, poeiras e restos que lhe aumentaram a fome e a exauriram. Não se atreveu a ajoelhar ali, e ainda bem, mas declarou: «há neste olhar um farol! Talvez esteja aqui o princípio do meu regresso, pois tenho fome de luz e de sentido; quero regressar e falta-me um olhar que me acolha. Quem dera acendesse eu aqui a luz da fé!»;

ix) Faltam referências aos retornados, aos corajosos que retomam o limiar da candeia da fé. E são tantos os que se quedam naquela fronteira ténue, onde de um lado é mesmo noite e do outro quase luz. E quão difícil é livrar-se de atavios, achegar-se e transpô-la! E os que deveríamos apontar a vela ou luz andamos tão afogados em mil-afazeres — afinal, para tanto somos tão poucos! — que muitos se nos esvaem do olhar. Achegam-se-nos náufragos e não temos nem porto de abrigo nem hospitais nem tendas de campanha. E ficam-se-nos ao frio na praia, ninguém lhes acende uma fogueira, nem lhes assa um peixe, e constipam-se e finam-se. E dizem que estamos em Sínodo! Valha-me Deus.

x) Em Braga, em dias muito próximos a estes, semeou-se à frente do Carmo uma vela no meio da intempérie. Não foi há muito tempo, é certo, como também é certo que ela ali resiste e resistirá. Buscando um sinal, alguns hão-de encontrá-la por entre as brumas da pressa. É óbvio que para a encontrar também ajuda andar-se em busca de algo. E quem diz a vela diz A Perdiz e o Sacrifício. E uma e outro alguma vez deve buscar-se, mas não no Dubai.

(Nota: O livro A Perdiz e o Sacrifício pode ser encontrado à venda na portaria do Carmo de Braga, ou pedido por telefone para o mesmo, ou na livraria Centésima Página. Nota Segunda: O Autor do romance é avesso a elogios e vacinado face a qualquer desconsideração de quem assina este texto e se diz seu amigo.)