Armindo Vaz, OCD
«Ninguém pode viver a pensar que só existe a Morte» – diz o cavaleiro do filme “O sétimo selo”, de Bergman. Este pensamento condiz com a visão que o Novo Testamento tem da morte de Jesus: não é o último, é o penúltimo. E Deus não gera a salvação simplesmente na morte de Jesus, mas superando-a na sua ressurreição. A morte é salvífica enquanto associada à ressurreição, que completa a significação e a eficácia da morte de Jesus: constitui o êxito positivo dela. Se entre a morte de Jesus e a sua ressurreição há uma ruptura, também há íntima continuidade: com a força interior do amor, Jesus transformou o sofrimento e a morte em fonte fecunda de uma Vida nova, uma vida de total união com Deus na glória, suscitada pelo Espírito do Pai: é a ressurreição. De facto, quando Paulo fala da entrega amorosa da vida por parte de Jesus, associa-lhe sempre a ressurreição: “Jesus, Senhor nosso, foi entregue pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação” (Rm 4,25); “quem condenará os eleitos de Deus? Cristo Jesus que morreu e, ainda mais, que ressuscitou?” (Rm 8,34); “ele morreu por todos, a fim de que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Cor 5,15).
Como entender a ressurreição? Será sempre mistério, a experiência metafísica que vem dar resposta à nossa vida física. Mas o mistério pode ser meditado, com a fé e a razão. Ora, a experiência real que Jesus tinha de Deus era de que Ele é o Amor e Pai. Enquanto tal, não podia «abandonar» o Filho à mansão dos mortos. Teria de continuar a amá-lo depois de ter morrido. Ao grito pronunciado na angústia da morte (“meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”: Mc 15,34) respondeu a exclamação: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). Para quem deu a própria vida a Deus e aos outros, a morte não podia ser a última palavra: não o lançou no vazio mas na plenitude da Vida de Deus. É isso o que Paulo diz do Ressuscitado: “a sua vida é um viver para Deus” (Rm 6,10).
Então, o domingo de Páscoa é o símbolo e a afirmação do Amor que venceu a morte. À morte do Amor Incarnado na Sexta-Feira Santa respondeu a vitória do Amor Espiritual no Domingo de Páscoa. Dando-se todo, imolando-se infinitamente inocente, o Amor mostrou a sua omnipotência: sendo o próprio Espírito do Pai comunicado ao Filho, tem a força infinita para o levantar da morte. “Onde está, ó morte, a tua vitória?… Graças a Deus que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Cor 15,55-56). A transformação realizada pelo amor na paixão desaguou na ressurreição. “Onde está a cruz [por amor], está perto a ressurreição” (D. Bonhöffer, Risposta alle nostre domande [Brescia 20052] 44).
A palavra da Páscoa, que os discípulos foram anunciando pelo mundo até chegar a nós, dá conteúdo de verdade à esperança. Institui a certeza da libertação de todas as limitações humanas. Tornou-se princípio activo da ressurreição dos humanos. “Se confessares com a tua boca «Jesus é o Senhor» e acreditares com o teu coração que Deus o ressuscitou de entre os mortos, serás salvo” (Rm 10,9). Como, pela incarnação no corpo de Jesus, Deus agraciou toda a humanidade, a sua ressurreição também se tornava fundamento e garantia para a ressurreição da humanidade: “Deus, que ressuscitou o Senhor, também nos ressuscitará a nós pelo seu poder” (1Cor 6,14); “se fomos enxertados nele por uma morte semelhante à sua, também o estaremos por uma ressurreição semelhante” (Rm 6,5). A fé na ressurreição de Jesus e de todos os seus seguidores é, além do mais, uma convicção que permite ao crente viver a sua fé em presente e acreditar que a acção de Jesus hoje é capaz de transformar a vida e de inspirar a melhor postura humana.
A vida de fé cristã é acima de tudo um encontro pessoal com o Ressuscitado: é o reconhecimento de que o verdadeiro Deus se entregou na pessoa do Filho aos humanos para eles vencerem a morte. Na cruz morreu uma pessoa que era Filho de Deus. Com essa morte aniquilou a morte e todas as situações de morte da existência humana. Também nisto irrompe o grande sentido da Páscoa. Jesus fez com que na sua pessoa se instalassem toda a angústia, a fragilidade e a vulnerabilidade da humanidade, para as queimar no fogo da sua divindade. Não foi propriamente a morte que tragou um homem: ela foi devorada por Deus. A ‘morte de Deus’ na cruz é fonte de vida.
Para compreender minimamente a narrativa Cristã da ressurreição, o ideal seria viver uma história de ressuscitado. Quem se satisfaz com viver para si uma existência que mais não é do que «vida na carne» (como diria S. Paulo), a ressurreição aparecerá como ilusão óptica ou como uma vida de sonho. Mas quem procura viver no futuro, ser superior a si próprio e perder a vida em proveito dos demais, «vida segundo o Espírito», está predisposto a intuir na narrativa da ressurreição de Jesus a manifestação do Deus cuja vida é dar a vida e está disposto a arriscá-la na gratuidade do amor.










