José Maria, OCD
No dia 14 de Dezembro a Igreja celebra a festa litúrgica de S. João da Cruz. Trata-se de “um dos místicos mais profundos de todos os tempos” (G.M.) e, por ser ele o pioneiro da reforma teresiana do Carmelo masculino, merece um apontamento especial neste boletim informativo.
Entre luzes e sombras
São João da Cruz nasceu e viveu no século XVI, o século de oiro espanhol. As suas origens foram humildes, como precária foi a sua infância e adolescência no aspecto material. Dos nove aos treze anos, interno do colégio de doutrina, em Medina del Campo, vemo-lo a pedir esmola para esta instituição pelas ruas da mesma cidade, terra afamada pelas suas feiras e para onde se tinha refugiado a sua família constituída apenas pela sua mãe, um irmão e por si, evidentemente. O Seu pai já tinha falecido bem como um outro irmão. Por ser pobre declarado, teve acesso às letras, para as quais tinha uma singular queda em detrimento de alguns ofícios manuais que experimentou. Do colégio de Doutrina passa ao serviço do hospital de bubas enquanto frequenta humanidades no colégio dos jesuítas. A sua piedade notória e inteligência avantajada despertaram a atenção do provedor do mesmo hospital que lhe propôs os estudos eclesiásticos no intuito de o tornar capelão dessa instituição, possivelmente com algumas vantagens futuras para a sua família. Recusou. João tinha outros horizontes.
Em 1563 entra no noviciado dos Carmelitas de Medina. Sente-se atraído pelo Carmelo dado o seu espírito contemplativo e piedade mariana. Professa no ano seguinte e é enviado para o colégio de Santo André, em Salamanca, completando na universidade local, que se encontra no auge, as aulas que recebia em casa com os mestres da sua Ordem. Mostra-se um aluno com uma piedade exemplar e inteligente, créditos que pesam sobre a sua nomeação como “mestre de estudantes com a incumbência de preparar os debates públicos sobre um tema que se devia defender com argumentos sólidos perante as objecções de um opositor” (G.M.). Entra então em crise vocacional, dado que, ocupado por múltiplas actividades académicas sente-se a atraiçoar o seu ideal contemplativo. Depois de uma séria reflexão decide bater às portas da Ordem S. Bruno.
Nessa altura, numa das suas idas a Medina para cantar a sua primeira missa, tem um encontro providencial com a Madre Teresa no locutório das Carmelitas, onde lhe confidencia o seu desejo de entrar na Cartuxa. A Santa sem mais rodeios diz: “Porque é que vai procurar fora o que pode encontrar na sua própria ordem?”. E convida-o a unir-se ao seu projecto. Frei João anui com a condição de que se realizasse com a maior brevidade possível.
Este encontro muda o rumo à sua vida bem como à daqueles que, no futuro, se vão associar ao mesmo projecto que se torna realidade em 28 Novembro de 1568. Nesta data, Frei João inaugura com mais dois confrades a nova vida conventual preconizada pela Madre Teresa, em Duruelo, pequena localidade da Província de Ávila.
Os começos são sempre precários, mas auspiciosos. Frei João, dadas as solicitações de ingresso na nova vida agora iniciada vai desempenhar alguns ofícios de formador até que em 1572 é requisitado pela Madre Teresa para exercer o ofício de confessor no mosteiro da Encarnação de Ávila, para onde ela tinha sido nomeada prioresa. Foram cinco anos de profícuo apostolado na direcção espiritual das monjas, findos de forma violenta com a tempestade que desabou sobre a descalcez, originada pelos seus irmãos de hábito contrários à reforma iniciada. Estamos em Dezembro de 1577. Frei João foi sequestrado e recluído num pequeno cubículo no convento de Toledo onde, entre ameaças e promessas, disciplinas e exagerados jejuns, passou nove meses, conseguindo fugir, talvez com a anuência dalgum apiedado carcereiro, em Agosto de 1578.
Dai para a frente a vida de Frei João desenrola-se na Andaluzia e em Castela exercendo vários cargos na sua Ordem, com provações de toda a espécie que vão amadurecendo a personalidade deste homem “celestial e divino”, como o definiu a Madre Teresa (Cta 267-Obras Completas, 5ª Edição (2015) – Ed. Carmelo).
Por fim, foi desterrado para Peñuela (Jaén), onde recebe notícias alarmantes, pois denigria-se a sua pessoa e falava-se da sua expulsão da Ordem. Frei João tudo suporta com imperturbável serenidade dado que já se encontra noutro patamar mais divino que humano e dedica-se à oração e aos trabalhos do quintal “pois é mais bonito e melhor manusear estas criaturinhas mudas (grão de bico) do que ser manuseado pelas vivas” ( Cta 28).
Sobreveio a enfermidade, pois o cálice das provações ainda não estava completo, e é preciso recorrer ao apoio da medicina. Propõe-lhe várias casas para essa finalidade e ele escolhe Úbeda onde é menos conhecido. Suporta a doença com admirável paciência e, morre, ali mesmo, em Úbeda, na primeira hora de 14 de Dezembro de 1591 porque desejava “ir cantar as matinas para o céu” (Crisógono).
Escritos
Arte dum poeta ou enlevos dum místico?
Em São João da Cruz poesia e mística andam lado a lado. Não tenho dúvidas de que o santo teve uma boa formação académica na arte poética. Mais. Ele era um vate de gema. “É o maior poeta da língua castelhana”(G.M.). Mas consideremos, sobretudo, a sua estatura espiritual. Foi um homem que fez a experiência de Deus e também recebeu a graça de a saber contar. É aqui onde entra o artifício literário. No prólogo do Cântico Espiritual, ele próprio se pergunta: “Quem poderá exprimir o que Ele [Deus] transmite às almas enamoradas em que habita? Quem poderá dizer por palavras o que lhes faz sentir? […] Ninguém certamente; nem as próprias almas onde isto se passa. É por esta razão que deitamos mão de imagens, comparações e exemplos, porque, melhor do que os argumentos, dão a conhecer algo do que experimentam e da riqueza do espírito derramam segredos e mistérios” (Prol. 1). O santo reconhece que, ao falar, fica muito aquém de transmitir a experiência que viveu.
Para dizer alguma coisa sobre a sua obra escrita, recuo ao tempo em que esteve na prisão conventual de Toledo. Puderam ali privá-lo da liberdade naquele reduzido espaço, mas não conseguiram encurralar-lhe a alma. Frei João pode sonhar e sonhou. Foi ali, no ventre daquele horroroso monstro, que se gerou a maior parte da sua poesia. A sua produção literária consistiu pois, em primeiro lugar, na composição de poemas, glosas ao divino e romances. Posteriormente, vieram os comentários a três dos seus poemas a pedido dos discípulos e que deram origem às suas grandes obras em prosa: Subida do Monte Carmelo, Noite Escura, Cântico Espiritual e Chama de amor Viva. Além destas, temos que juntar um reduzido número de cartas, que escaparam à voragem dos seus exaltados perseguidores, as Cautelas e os Ditos de Luz e Amor. Aquelas são uma espécie de avisos para fugir aos perigos mais frequentes na vida conventual e estes, pequenas máximas plenas de sabedoria, menu divino das suas filhas espirituais. Convido o leitor a passar os olhos pela «Oração da alma enamorada» (Ditos nº 26 – Obras Completas – Ed. Carmelo 2005).
Os poemas são um encanto para os apreciadores de poesia. Destaco a Fonte, também denominado credo de São João da Cruz, um poema composto na prisão, ali mesmo nas margens do Tejo, em Toledo, onde se localizava o convento. Tem como título: “Cantar da alma que folga em conhecer a Deus pela fé”. «Deus é a fonte… – Confrontemos o texto com o início da segunda oração eucarística: ‘Vós, Senhor, sois realmente Santo, sois a fonte de toda a santidade…’ – No poema, a noite diz respeito à fé. Ele contempla nesta poesia o mistério da Santíssima Trindade e da Eucaristia à luz da fé» (F. Ruiz). E concluo com esta linda estrofe do mesmo poema:
(Aqu)esta eterna fonte está escondida
Neste pão vivo para dar-nos vida,
Embora seja noite.
Eloquente. São João da Cruz pretende avivar nos seus leitores o amor pela Eucaristia.










