Frei João Costa, OCD
1. Ausência. E dor. Por estes dias prolongam-se ausências difíceis de aceitar e compreender. Raptaram-nos Jesus, melhor, a morte raptou-nos Jesus, e não O temos. Ou melhor ainda, julgávamos tê-lo definitivamente controlado e ao alcance, no túmulo. Mas a verdade é que as primeiras testemunhas foram lá e viram a sua ausência cheia de sinais conclamantes da Sua presença pela Sua vitória sobre a morte! Ausência do corpo é o que sentimos. Do corpo de Jesus e do corpo da Igreja, que é também Jesus.
Nestes dias de ausência física de Jesus e de ausência de sacramentos, tem a memória de ser presença e mediação e perfume entre nós. Onde quer que nos encontremos somos povo, povo de Deus, a caminho do céu.
2. Celebro todos os dias para um punhado de ausências; olho os bancos e vejo rostos (e não, não estou a delirar). Não tenho lá fotos, mas vidas. Pelo menos nos bancos mais próximos sei bem quem ali se sentava e em que missa. Passo os olhos pelos bancos e vejo estórias. Estão ausentes, é certo, mas eu continuo a dizer-lhes:
– O Senhor, esteja convosco; e devolvo-me:
– Ele está no meio de nós.
E Ele está no meio de nós, apesar de ausente. Entre nós há mais espaço, sim, mas eu digo-me:
– João: os caminhos e as casas, os comércios e os hospitais, os bosques e as gasolineiras, por onde agora corre ou definha a vida, tudo é a tua igreja, tudo é o teu templo. Aí encontras o teu povo, deprimido, ansioso e assustado, ou ousado e inventivo, e enamorado sem direito a abraços e beijos, e tantos com a porta aberta para o desemprego e a pobreza…
Ele está no meio de nós, e não está ausente, que nós estamos aqui, em peregrinação, famintos, mas não de desejo de O celebrarmos no meio de nós («– Ai, senhor padre, que não vejo a hora em que nos digam missas!»). Ele está no meio de nós, no desejo, tal como a praia anseia pelo mar quando ele recua na maré vaza.
Ele está no meio de nós, e vêm ondas, e chegam ondas, e volvem ondas que nos trazem a ânsia de O sentir nos corações que latem de júbilo quando cantamos «Deus está aqui, / tão certo como ar que respiro, / tão certo como o amanhã que se levanta». Tão certo.
3. Ontem rondou a igreja uma figura estranha: meio celta, meio místico, alto, magríssimo, com um saco e um grande ícone mariano na mão esquerda. Hoje regressou. E foi-se. Ficou na igreja quatro horas a rezar. Diz-se irlandês, peregrino que ficou preso no caminho por causa das contingências do covid19. No fim da oração (numa aberta da chuva) tocou à campainha, para se despedir e fazer duas reclamações antes de partir: a igreja está com pouca luz, e o Menino da Senhora do Carmelo deveria estar vestido e não nuzinho, porque Ele só está despido na hora da Paixão! E foi-se…
Não sei que pensar deste peregrino. Sê-lo-á ou não, não sei. Sei que me agradeceu porque levava mais de um mês sem se aproximar de um sacrário, e finalmente pudera saciar-se aqui.
– Mas, disse-lhe eu, o templo de Deus está aí fora em todos os caminhos que percorres, em todas as casas que encerram o povo de Deus, e o sacrário está aí, no teu coração, donde brota essa fonte de amor e desejo a Jesus e à Virgem!
– Sim, mas nós que andamos cansados precisamos de um refúgio onde descansar e O podermos adorar, que a vida não é só caminhar e lutar, mas também descansar a cabeça junto do Seu coração. E para isso precisamos dos sacrários!
Despedimo-nos. Fui para dentro, agradecendo de coração a visita da Igreja que me tinha vindo ver à minha prisão domiciliária, eu que ocupo o lugar de guardião das chaves do santuário, e me lamento de estar preso e só e abandonado pela Igreja!
4. Depois da missa que a diário celebro sozinho, vou à porta e abro. Há pessoas que se aproximam. Umas perguntam se podem entrar, outras entram sem saudar; outras saúdam, passam e vão-se, algumas passam sem saudação.
Hoje, chegou-me, vagaroso, do fundo da Rua do Carmo um homem manquejando dolorosamente. Cruzou a rua, fora da passadeira, encurtando a direção à porta da igreja. Vinha cansado, carrinho das compras na mão, máscara fortemente transpirada. Acenou-me ofegante e entrou; deixou o carrinho à minha guarda. À saída, lamentou-se:
– A mulher não pode fazer as compras, tenho de ser eu. E eu não posso, só me arrasto. O que vale é que há no caminho uma igreja onde a gente possa descansar durante um Padre Nosso.
E sem mais foi-se… E eu fico-lhes unido, mesmo que separados entre nós pelo caminho que nos une.
Ausências? Sim, ausências dolorosas. E presenças de outros modos a que teremos de nos afeiçoar até à ressurreição plena. Que caminho!…
5. Tenho auscultado ainda o coração sofredor do Papa. Doem-lhe como a mim tantas ausências, chora pelos que choram, chora com os que choram.
Sinto-me especialmente tocado com a unção das suas palavras, quando nos diz que este tempo de peste revelou como tanta gente, insignificante ou não, aportou um grãozinho de saúde e calma, de esperança, doçura e companhia aos demais.
E sinto-me ainda mais tocado, quando Francisco nos recorda que na manhã da ressurreição as mulheres não O viram morto, mas ressuscitado. Quer-se dizer: neste tempo nós mirámos O(s) morto(s), mas Ele vai sempre à nossa frente; sim, até na era da peste Ele está connosco, bem à frente, guiando, vencedor, os nossos passos.
Ah, meu Deus, encontro-me preso e confinado em casa, batendo uma e outra vez ao coração do Espírito, porque não vejo a Igreja, e tu vens dizer-nos que a Tua ausência discreta é, afinal, o sinal maior da Tua presença forte. Que estás aqui, connosco, mas de outra maneira.
6. Trazemos perfumes nas mãos de que Jesus já não precisa. E há tanta solidão precisando deles.










