LA CUEVA DE SAN JVAN DE LA †

Frei João Costa, OCD

1.           Tomamos por enfermos os que por qualquer motivo perderam a verticalidade, aqueles que de pé já não se firmam, e que em razão disso mais precisam do nosso amparo e ajuda. Saber firmar os in-firmus considero-o um verdadeiro dom e graça, tanto para com eles, como para toda a sua família e comunidade.

Aqui trataremos dos enfermos das comunidades de São João da Cruz e do modo carinhoso como o Santo prior deles amparava e cuidava.

Conheço algumas pessoas exemplares neste cuidado, todas elas mulheres. Serão elas impelidas, talvez, pela via da educação, não sei; sei ou cuido saber que o lado cuidador é mais prevalente nas mulheres. Não o deveria ser, julgo eu, mas lá que elas sofrem mais e que são mais atentas e compassivas que nós, homens, disso não tenho dúvidas. Se a educação dos dias de hoje o pode alterar também não sei. Parece que não, a ver pelo crescente individualismo e indiferença para com o sofrimento alheio.

Sei que nisso, ao revés, o padre João da Cruz é bastante feminino; e muito discreto. Muito atento, delicado, e até firme se necessário.

Diz-se que só quem foi peregrino por desabrigadas terras de ninguém sabe acolher bem e bem cuidar os peregrinos. Faz sentido. Tal como faz sentido que os pobres são quem melhor compreende os pobres, mesmo se em meu pobre terrunho se recomende que não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu. Ah, e só quem já esteve doente – mormente se esteve gravemente dependente por enfermidade – é que bem percebe e sabe agradecer o valor da silenciosa atenção, da prestimosa ternura e delicado carinho a qualquer hora, da leveza da palavra certa e delicada, do toque de uma mão que acalma e espairece, por segundos que seja, as brumosas nuvens do dia. Só quem já esteve enfermo é que sabe do valor impagável duma mão tocando a nossa mão, mesmo sem palavras; mesmo se algo distraída, essa mão tem a força da fala duma bíblia inteira, instando: levanta-te! Sim, só quem já esteve prolongadamente isolado em sua enfermidade, indefinidamente só, apartado dos trabalhos e das orações em comunidade, só quem já se sentiu inteiramente só, só como um réprobo em tribunal, tão desacompanhado que pareça que ninguém sofre com ele, tão isolado que se sinta envolto no anonimato do sofrimento, qual embrulho de papel pardo já não necessário, só esse, sim, sabe como cinco minutos de atenção têm valor de ânimo e conforto revigorante de cireneu.

Em miúdo, sobretudo, mas não apenas, muito eu vi algo desse sereno conforto e valimento nas mulheres da minha aldeia, infindamente postadas à cabeceira da cama, como sacerdotes no altar. E vi-as aqui e ali visitando e consolando demoradamente este e aquele e muitos altares, como quem na semana santa visita as sete igrejas. E não é que muito falassem, era tão-só um estar, um toque, um beijo, um condoimento, uma escondida lágrima que mais sobrava para o lenço. Um silêncio.

2.           Disto me alembro muito quando me lembro de São João da Cruz. Chamem-lhe poeta que eu gosto; mestre, também. Escritor, sábio, doutor, pedagogo e educador. Chamem-lhe pregador e confessor, profeta, homem espiritual, homem de letras e das ciências de Deus. E conhecedor dos segredos divinos. Gosto. Gosto. Gosto. Mas não me afastem jamais desse homem celestial e divino, de entranhas divinas, de entranhas humanas, desse homem materno, próximo, atento, cuidadoso, carinhoso, paterno-fraterno. Não me afastem do olhar deste santo. Isso, não me afastem, não, por favor.

Uma casa constrói-se pela raiz; e da raiz aos ramos e aos frutos todo ele foi atenção atenta e cuidado carinhoso para com os que, dentro ou fora do convento, sofressem. O seu berço foi desengonçado e pobre; aliás, naqueles tempos de crua carestia foi mais que pobre, foi humílimo, pobríssimo – não de amor, já se sabe, mas de caldo e de pão. Nasceu e cresceu em contexto exaurido e arriado, e foi assim que, sem direito a escolha, a sua alma foi marcada pelo ferrete do sofrimento que mais mordeu quem não tinha para dar de comer aos que chamara à vida – haverá dor inglória maior que esta?

Seu pai morreu da prolongada pouquidade de pão – tal como as árvores que deixam cair as folhas para alimentar raízes próprias e alheias. Infante ainda, morreu-lhe também o irmão do meio, Luís. O nada que ficou, embrulhado na esperança indomável do coração corajoso da mãe Catarina deu para levar adiante a família restante: ela, Francisco e Joãozinho. A penúria e o sofrimento dormem, pois, desde o berço, lado a lado com o menino. E gladiar-lhe-ão toda a vida.

Por ser demasiado infante, é certo que não viu morrer o pai. Nem o irmão Luís. Mas lá se lhe achegou a idade em que os meninos aprendem a chamar pai e a chamar mãe. E aqueloutra em que olham para o pai a fazer a barba, a trabalhar e a rezar. E aprendem a fazer como ele. Joãozinho, porém, não teve pai para ver. Tão-só um coração de mãe valente como um leão. Não era pouco, de facto, mas não era como devia ser que fosse. É certo que uma mãe-coração-de-leão sabe apresentar vivo um pai morto. Mas é isso tão pouco…

E que pensa um menino quando é infante? Não pensa nada, certamente, que todos inteiramente cuidamos dele, mormente a mãe.

Que pensa um menino quando distinguindo já o garfo da colher e da faca, a mãe lhe sabe pedir que a ajude, aproximando-lhe uma colher, mas jamais o garfo ou a faca? Pensa, julgo eu, que a mãe fica contente por ele a estar a ajudar, e que gostando ele de a ver contente, tudo fará para que ela fique sempre contente com ele.

Que pensa um menino que já aprendeu a seguir com o dedo o carreiro oficial das letras? Sabendo, sabe certamente muito pouco. Não sabe ainda porque cai a noite e com ela vem o sono, nem como se alevanta o dia e com ele nos erguemos do leito. Mas de hora em hora melhor vai sabendo que, seguindo por aquele carreiro, mais se lhe alumia a razão sobre as altas montanhas do mundo, e um pouco, mas pouco mesmo, sobre as profundidades da alma.

Os dias da infância e da adolescência de Joãozinho foram de fome. Se bem sei, a pequenina poeira das migalhas sobrantes da réstia pobre de pão negro disponível sobre a materna mesa foram o seu primeiro e mais fecundo alfabeto. Foi por ele, aliás, que aprendeu a ler o mundo da fome e o dos afectos. Abandonando Fontiveros, ao colo de Catarina – e o mais velho ao lado e a par com ela – os três trilharam uma dura peregrinação da fome pelas imensas terras ressequidas de Toledo: Torrijos, Gálvez, Arévalo, Medina del Campo.

Naquele contexto de extrema penúria, que sabia um infante faminto que à sua volta só via morte e fome, indigência e filas de pobres e mais pobres, e a indiferença atroz dos ricos e dos governadores para com a sua desemparelhada família?

Em circunstâncias tão cruéis – e até mesmo noutras porventura ligeiramente mais favoráveis – que aspira ou sabe do futuro um menino? Para que cavaria ele se, por causa da seca e das moléstias, as terras não davam pão? E para quê aprender a desenhar letras se não sabe ele o que faz um escrivão, um poeta, um assentador de certidões de óbito ou um secretário de rei?

Que da vida sabe um adolescente do Colégio dos Doutrinos de Medina del Campo? Pouco. Não creio que ali ensinassem latim, mas mesmo que lho tenham ensinado, não se pressagiará ele a si mesmo como um novo Cícero. E mesmo que um pouco mais além escreva poemas – e parece mesmo que os escreveu, e não apenas como exercício académico! – não se auspiciará jamais a si mesmo como um poeta e santo de eleição, ou como alguns o dizem: o poeta mais santo e o santo mais poeta, e príncipe de todos eles!

A verdade é que enquanto desenha letras, Joãozinho aprende que no futuro deve ser um homem honrado, trabalhador, útil. E imagino que vá tomando consciência de que sempre será pobre, sempre órfão, e que o elevador social – jargão do nosso tempo, claro – não funcionará. E não aprende apenas a ler, a desenhar e a redigir, pois também vai experimentando os ofícios de carpinteiro, alfaiate, entalhador e pintor. Mas por falta de jeito e de qualidades, soçobrará nos quatro. Como menino e órfão do Colégio dos Doutrinos, um dos seus assumidos compromissos era o de acolitar na igreja da Madalena – e aqui, sim, não falhará! Aqui de tudo foi capaz, para gozo seu e deleite de quem o vê. Ao mesmo tempo, foi cooptado como enfermeiro do Hospital das Bubas – doenças infecciosas, sífilis à frente –, um dos quatorze que a caridade cristã abrira em Medina del Campo. Também aqui não falhará, nem como enfermeiro, nem como colector de esmolas que ajudem ao sustento do hospital; nem nos estudos!

Está encontrado o futuro do mais novo, pensa Catarina? Penso que sim, que o coração de mãe é atento e sabe pensar. Pensará, aliás, cuido eu, que de ora em diante, a atenção e o cuidado dos doentes terão em João de Yepes y Álvarez um oficial de primeira ordem. O futuro breve no-lo comprovará. O futuro nos testemunhará que o fio silencioso que guia a sua vida com uma luz especial será o cuidado com os seus frades doentes. Muito mais que pai, muito mais que irmão, muito mais que guia, mestre e orientador espiritual, frei João da Cruz será inteiro homem de bondade e ternura. Não daquelas que apenas aparecem evidenciadas, ilustradas e aplaudidas nos telejornais ou nas redes sociais, mas daqueloutras sumamente discretas, serenas e ocultas. Mais que confessor e guia espiritual de pequenos grupos de monjas e de religiosos, muito mais que professor de pobres e mestre de leigos, mais muito mais do que sábio consultado por doutores e cónegos, muito mais que tudo, o padre João da Cruz soube reconhecer nos frades enfermos das suas comunidades o lugar onde amar a Deus em carne viva!

Digam-mo, por ousadia, abrasivo e austero, e eu di-lo-ei carinhoso ao extremo. Digam-mo áspero, eu di-lo-ei delicado. Digam-mo insensível ou rude, eu di-lo-ei, e com testemunhos, doce, bondoso, pacífico, manso, atento, carinhoso. Terno. Materno. Divino.

Sim, que a coisa, esse irreprimível apelo, vem de muito detrás, daquela raiz donde, aliás, tudo vem – de Deus e do berço. Ao chegar ao convento frei João da Cruz encontrou, pois, na doença de seus irmãos frades um altar discreto onde se curvar com atenção e delicadeza. Até para com os seus adversários e inimigos, se necessário. Sim, até esses se surpreenderão com a sua incomum delicadeza. É o que digo, aqueles que mais o temem por austero, mais o testemunharão terno e delicado!

Nos seus conventos ficou conhecido por dar prioridade e o melhor do seu tempo aos doentes, por jamais os enjeitar, abandonar ou banir. Gaste-se com eles, dizia, o que houver de se gastar – os cálices da eucaristia, se necessário que, com ele a prior, a caridade suplanta a observância das leis! Nunca jamais o Santo se arvorará ou cingirá espada de muitas palavras, mas multiplicar-se-á em atenções e delicadezas, em afã de passos silenciosos. E não é isto casualidade alguma, antes uma prática gentil dum homem que sendo espiritual, profundamente espiritual, sabe, também pela experiência da sua infância e juventude, que quando a firmeza do corpo soçobra, dificilmente a alma e o espírito podem subsistir.

E em razão disto, quando em casa um frade lhe caía de cama, o padre João da Cruz volvia-se servo humílimo, logo abandonava livros e poemas, os trabalhos e outras preocupações e, pé ante pé, entrava preocupado, de olhar atento e de passos leves no quarto do doente. Não jamais com cara de fastio, nem de desinteresse ou de legal cumpridor de preceito. Não com pressa nem com gravidade estudada, mas com uma proximidade simples que fazia o doente sentir-se olhado, querido, amado. E de tudo se inteirava, até mesmo do apetite do doente, visto sabermos, e também tu, leitora, leitora, que existem doenças por demais retinentes ao apetite e à alimentação.

As testemunhas recordam, aliás, que quando necessário, ele mesmo preparava a comida, adaptando-a ao gosto e à fraqueza do irmão: um caldo suave, um peito de galinha bem cozido, algo que pudesse ser ingerido sem esforço. E depois, ajeitava a cama, ajustava e caçava o cobertor, e se o ar estivesse pesado, abria a janela. Fazia tudo como quem cumpre o dever mais sagrado, sem alarido e sem esperar agradecimentos.

3.           O padre João da Cruz tinha o dom de acompanhar no sofrimento. Isso é algo, aliás, que não se compra nem mesmo inteiramente se herda – é um dom. Uma dádiva dada pelo terno coração de Deus, que sabe fazer do coração humano, um coração materno, independentemente do género. Alguém assim sabe quando falar e quando calar-se. Quando deve sentar-se ao lado da cama do enfermo e iniciar uma conversa simples, quase cotidiana, para distrair o irmão de sua dor, ou ser corriqueiro e contar um chiste, uma anedota engraçada, uma piada oportuna, convencido de que um sorriso pode aliviar mais do que muitos raciocínios teológicos e espirituais.

E porque só não via quem ver não queria, os frades diziam que, nas enfermidades de seus filhos, o padre João da Cruz parecia outra pessoa – um maternal pai carinhoso! A sua presença inspirava suavidade e paz. Em estando ali, o doente sentia não ser um embaraço para ninguém, que a sua fragilidade tinha um lugar na comunidade! Sim, frei João não tratava a doença como um obstáculo à vida comunitária, mas como uma forma diferente de a viver, mais nua, mais verdadeira. Talvez porque mais unia à paixão e à cruz do Redentor!

Sem responsos nem discursos, os seus gestos e atenções transpareciam fé e caridade. E jamais prometia curas ou procurava amenizar o sofrimento com palavras vazias. Ensinava, sim, a confiar, e com suavidade recordava que Deus estava perto, mesmo – e até mais – na fragilidade do corpo. E sempre dizia que Deus jamais se ausenta da dor humana, antes mais se inclina sobre ela como demorada unção de amor paciente, tal como o bom samaritano do Evangelho.

O seu amor de pai não dependia jamais da força de vontade do momento, mas duma decisão: amar até ao fim. Para os seus frades, aquele cuidado silencioso era uma lição inesquecível que perdura até hoje. Com ele aprendemos que a santidade se mostra nos grandes feitos ou nas palavras sublimes, mas muito mais numa sopa quente levada na hora certa, numa visita repetida sem cansaço, numa noite velada à cabeceira do irmão que sofre.

Assim era São João da Cruz com seus doentes: um pequeno pai que delicadamente sabia inclinar-se sobre um filho doente. Era místico, sim, e encontrou a Deus na noite luminosa da fé, no caminho da subida ao monte da perfeição, o Carmelo, mas também na fragilidade trémula de seus filhos e irmãos. E foi assim que naquelas celas humildes e silenciosas, ardeu, sem vacilar, uma das chamas mais puras do amor divino.

E quando ele próprio estava cansado ou doente – e não foram poucas as vezes – não se fechava nem jamais se desligava dos outros. Ah, quanto dele aprendemos…

Vamos a factos, ou como noutro lugar digo, a testemunhos directos, em primeira voz:

4.           No inverno de 1580 está frei João de reitor no recém-fundado colégio de Baeza. É ali muito famoso, aliás. Na cidade, na universidade, nas paróquias, nos hospitais. Nesse ano, pelos reinos de Espanha desabou uma gripe maligna com força de peste. Em Valladolid, Santa Teresa acamou vítima de tal catarro, e em Medina del Campo, sua mãe Catarina morreu, sob o olhar e amparo de seu irmão Francisco de Yepes. Quando a peste sobrecai sobre o colégio de Baeza, frei João da Cruz está em Beas. Ao receber a notícia dali dispara. Ao chegar a casa encontra os dezoito frades todos acamados, pelo que a sua primeira preocupação é comprar carne que, depois de preparada, ele próprio serve aos doentes, animando-os a comer e, se necessário, mandando-lhes que comam! Entretanto, vindos do convento do Calvário, achegam-se ao colégio mais nove doentes. Em casa já não há nem colchões, nem lençóis, nem mantas. Insistente, o ecónomo pede-lhe encarecida licença para visitar os benfeitores, a fim de bem poder a todos socorrer. O padre João, diz-lhe que não, que deve confiar que «Deus remediará». E nem é tarde nem é cedo: no dia seguinte, alguém traz à portaria do convento vinte e tal colchões, grande número de almofadas, lençóis e algumas camas. E em pós as roupas chegam também alimentos – trinta frangos! Vêm da casa de Teresa de Ibros que, ao ver passar a derruída procissão dos doentes rumo ao Carmo, e sabendo da pobreza da casa, para ali endereça a caridade de seu coração filial e materno!

Tão verdade como Deus ser Deus, da boca do padre João da Cruz apenas se ouvirá: «Vedes como é bom confiar sempre em Nosso Senhor?» – ó palavras tão lhanas, tão afáveis, palavras de quem mesmo em horas de dura tempestade navega em águas calmas e tranquilas! Palavras de quem para alívio de seus doentes, sempre atento, sempre cuidadoso, ora sabe falar de coisas espirituais, ora de coisas indiferentes e honestas, ora jocosas, quando necessário!

Mas não fiquemos por aqui, que os doentes são o tesouro de frei João da Cruz.

Por aqueles dias soçobra o ânimo de frei Martinho da Assunção, enfermeiro do colégio de Baeza todo ele feito hospital. A razão é simples: a parentela de sua casa, dezasseis pessoas no total, entre pais, irmãos e criados, está toda gravemente doente. O Reitor que o estima de verdade, toma-o, e leva-o consigo para visitar os seus doentes. Ali chegados, consola-os, lê a cada qual uma passagem do Evangelho, impõe-lhes as mãos, a todos abençoa e, por fim, regressam ao convento. Pelo caminho frei Martinho mantém-se pesaroso e inconsolável perante a gravidade da situação. Sem a negar, o padre João garante-lhe que ninguém morrerá daquela doença.

«Quem lho disse?», pergunta ingenuamente o irmão.

– «Quem o pode fazer!», responde frei João da Cruz.

E assim acontece.

E assim vemos frei João da Cruz cuidando, não apenas os de sua casa, mas também dos de fora, como quando, discretamente, bastas vezes, aliás, atravessa toda a cidade para visitar doentes no hospital. De facto, frei João tem verdadeira ternura pelos doentes. Casos há em que gasta tudo o que haja e seja necessário, mesmo em medicinas caras receitadas por escolápio que mande chamar; e, sim, gasta, mesmo que, antecipadamente, saiba que não curarão o doente! Mas se em algo lhe aliviarem os terríveis sofrimentos, até o Santo prior se sentirá melhor…

Em Granada, certo religioso caiu doente. A falta de apetite é mais que evidente. Vai frei João à sua cabeceira e elenca-lhe todas as iguarias de que se lembra. Ao recusá-las todas, frei João diz-lhe:

– Pois, filho, eu quero preparar-lhe uma comida e dar-lha pelas minhas próprias mãos; farei uma iguaria que lhe saberá muito bem!».

Desce e manda assar uma perna de ave. Dissolve um pouco de sal em água e, ensopando o pão no molho da perna asada, ele mesmo o dá a comer ao doente, dizendo-lhe:

– «Isto vai saber-lhe muito bem e, por isso, comerá com apetite!».

Ninguém sabe o sabor misterioso daquele delicado manjar, preparado por frei João; o certo é que o doente inapetente, come sem dificuldade e assenta-lhe muito bem no estômago!

Doentes nas comunidades de frei João da Cruz é coisa que nunca faltou. E nas outras também, naturalmente. Certo dia, um religioso adoece com gravidade. O prior dá ordem ao enfermeiro que sirva ao doente uns torresmos, umas cerejas e um pouco de vinho – estranhe o leitor a ementa, mas por algo será, coisa que só Santo prior melhor saberá justificar. O doente, porém, tudo recusa, apesar da insistência do enfermeiro. Por isso, este que também se sente adoentado, e tem autorização para almoçar, vai ao refeitório com a iguaria preparada para o acamado e come o que para ele preparara. Quando o padre João visitar o doente ficará a saber o sucedido; obriga então o enfermeiro a comparecer no quarto e pergunta-lhe por qual a razão ainda não trouxera o almoço ao doente. O enfermeiro conta o que tinha sucedido, e o doente replica que não tinha comido porque queria que insistissem muito com ele!

– «Certamente, nosso Padre, disse o enfermeiro; pois eu comi-o, sem que ninguém insistisse comigo!».

E o prior logo sorri, considerando aquela resolução como boa para curar a estupidez do doente.

Haja que não haja doentes em casa, frei João da Cruz é sempre o primeiro nos actos comunitários, e nos serviços mais humildes. Se há doentes, redobra-se e desdobra-se em atenções e visitas aos seus queridos enfermos; mas não se revela um perfeito capataz de apito na boca, é mais um pai que entra e sai, pergunta e observa, anima e graceja, arregaça as mangas, varre e esfrega panelas – que o que mais lhe importa é que nada falte aos seus doentes, mesmo o tal remédio especial que urja comprar-se. Que nada falte, pois, aos irmãos acamados, ou ele o irá procurar e buscar – essa era a sua usança de carmelita descalço feliz.

5.           Terminemos com três breves relatos revelando pequenas delicadezas típicas de quem é santo. O primeiro é um relato muito breve: se era para não faltar mesmo nada, que, pois, nada faltasse aos doentes. São por isso vários os testemunhos que recordam como o Santo chegava a contratar músicos que levassem música aos seus doentes, porque – dizia ele – o coração também precisa de consolo, e não apenas o corpo!

Vindo duma semana de trabalhos em Beas, achega-se frei João a Baeza. Nada mais chegar inteira-se que um irmão tinha sido levado para o Hospital da Conceição. Todos sabem que o vigário da casa tudo fizera com o desejo de que o doente estivesse melhor atendido; aliás, o hospital possui meios que o convento não dispõe. Frei João da Cruz, porém, não acha oportuna a medida tomada, reprende o vigário da casa, e ordena o regresso imediato do doente para o convento; e ele próprio o atende, cura e serve, como se tratasse o Prior Geral da Ordem!

E encerro este texto com o relato de mais um delicioso abraço.

Noutra data o jovem irmão Agostinho da Conceição sente-se muito angustiado. São passados dez meses de noviciado e, sem grande saúde, tem receio de ser inapelavelmente expulso. Um dia frei João da Cruz chama-o e manda-o curar-se para casa de um seu irmão. Julgando-se dissimuladamente excluído, frei Agostinho aflige-se ainda mais, mas o Santo prior apressa-se a desdizê-lo, mandando-o com o hábito para casa, para que mais depressa se cure. Uma temporada depois, o noviço regressa quase como partira, embora afirme a pés juntos que se encontra bem, a fim de que o padre João da Cruz não lhe negue a profissão. Frei João apercebe-se inteiramente da situação, ergue-se, e diz: «dar-lhe-emos a profissão, frei Agostinho»! Acto seguido dá-lhe um abraço e, a partir daí, o pobre fradinho gozará de boa saúde.

Ai, querido frei João dos Abraços! Ah, abraços ternos do padre João da Cruz! Ai abraços de nosso bendito pai-mãe!