Armindo Vaz, OCD

Para descrever assimetrias na sociedade, recorremos a polaridades: pequenos e grandes, opressores e oprimidos, sábios e iletrados, poderosos e humildes, famintos e ricos…, que determinam as nossas atitudes e acções. Elas também emergem na história bíblica, em que o povo de Deus sofre, vítima de invasores prepotentes, de exploradores e malvados sem escrúpulos, e em que Deus está do lado das vítimas, como libertador e consolador (Is 40,1).

O profeta Isaías (10,5-7.13-16) contrapõe a arrogância dos opressores à dor das suas vítimas. No séc. VIII a.C. a superpotência que era a Assíria [no território do actual Iraque] tinha hegemonia sobre o Próximo Oriente. A fé de Isaías gostaria que ela fosse instrumento da pedagogia de Deus para provocar o seu povo a arrepender-se do pecado e a converter-se a um comportamento recto. “Mas a Assíria não pensava assim, o seu coração não tinha esse plano. O que ela pretendia era aniquilar, exterminar o maior número de nações. Ela diz…: «mudei as fronteiras dos povos, saqueei os seus tesouros”. Ignorava Deus. Queria ser árbitro das relações entre os povos.

O profeta descrevia “o orgulho altivo” e a fome insaciável de domínio de um povo sobre outros. Quando hoje vemos os inumeráveis cenários de guerra no globo terrestre, constatamos como a história se repete, em dirigentes irresponsáveis que se servem a si próprios em vez de servirem os súbditos que os elegeram. A Assíria é símbolo bíblico de arrogância invasiva e demolidora. Pois então – intuiu o profeta – sofrerá as consequências da sua prepotência: “o Senhor do universo enfraquecerá com a doença aqueles robustos guerreiros”. A imagem do castigo divino, aplicado com rigor geométrico a punir o abuso assírio da força, é a forma simbólica de meditar na prepotência do mal moral e de apelar à responsabilidade pela vida dos outros e à conversão ao bem. Os opressores, ao usarem o poder desmedido, não suspeitam – como os heróis da Ilíada de Homero – que as consequências dos seus actos os irão vergar quando chegar a sua vez de desfalecer. Esquecem que as suas conquistas e vitórias opressivas são um devaneio fugaz que conduz a uma queda estrondosa. Fazem lembrar os jogadores de futebol a celebrarem com grande espalhafato um golo, vindo a perder o jogo no fim: “de que serve a uma pessoa ganhar o mundo inteiro se perde a sua vida?” (Mc 8,36). O sofista grego do séc. V a.C., Protágoras, dizia: “O homem é a medida [critério ou domínio?] de todas as coisas [úteis]”: das coisas “que são, enquanto existem; das coisas que não são, enquanto não existem” (A Verdade, fragmento 1). Mas o contemporâneo Platão respondeu-lhe: “Nada imperfeito pode ser medida de alguma coisa” (República, VI, 504c), “O deus é para nós a máxima medida de todas as coisas” (Leis, IV, 716c). Para a fé bíblica, Senhor da história humana não são os poderosos mas Deus. Sem generosidade e sem alma, os poderosos só têm poder de transformar os humanos em coisas. Esta página de Isaías é, pois, busca de pontes ainda não lançadas entre a prepotência humana e a omnipotência divina.

Não admira, então, encontrar esta polaridade na síntese da história da salvação que é o magnificat, oração favorita e bandeira de tantos ideais, que põe Maria a louvar Deus: “derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes; aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias”. O magnificat também é clamor dos humilhados e ofendidos, dos injustiçados e deserdados da terra, reclamando uma sociedade fraterna ao Deus de todos.

Em linha com este hino da Mãe, Jesus bendiz o Pai por “esconder” os mistérios do Seu reino aos sábios fariseus e por “revelá-los aos pequeninos” (Mt 11,25-27), abertos ao amor de Deus. Esta preferência pelos pobres e simples, nunca desmentida pela história da revelação bíblica, é confirmada na ressurreição de Jesus pelo Pai, dando razão ao Filho. Consagrou o sentido de uma vida e de uma morte, dedicadas ao amor e à promoção do amor. Aprovou os seus gestos de bondade para com os desfavorecidos, validou a sua solidariedade com os fracos e as suas lutas pela verdade e pela justiça, confirmou o seu investimento total na dignidade humana, consagrou a sua fidelidade, até à morte, ao plano de salvação dos humanos, desfeiteando os planos daqueles que usam a força contra o ser humano e ceifam uma vida tão naturalmente como cortamos flores para uma campa. Ao ressuscitar Jesus da morte, o Pai significava que estava com ele e que não abandona as vítimas; confirmava que ele tinha razão no que tinha dito e feito pelos doentes e carenciados. O desautorizado pelos poderosos do mundo ficava autorizado por Deus: “matastes o autor da vida; mas Deus ressuscitou-o dos mortos” (Act 3,15).

De que lado queremos estar? Se alinhamos com os humildes, ficamos com Maria a contemplar o amor na cruz de Jesus. Se estamos com os poderosos, pomo-nos do lado dos que o crucificaram. O evangelho não sugere a lógica do poder mas o serviço do amor. Não somos cristãos para partilhar a força mas o amor. Só é possível amar, se, conhecendo o império da força, soubermos não o respeitar. E o génio bíblico agiganta-se ainda mais, ao não admirar a força dos prepotentes e ao não desprezar a impotência dos humildes.