P. Miguel María Márquez, Padre Geral OCD
Convento de São João da Cruz

[Façamos uns breves momentos de silêncio que nos ajudem a acolher a Palavra de Deus que para nós acaba de ser proclamada.]

Perguntava Jesus: «O que saístes a contemplar no deserto? Para que saístes? Para ver um profeta?».

E pergunta-nos a nós, Jesus: Por que vieste tu hoje a Segóvia? O que procuras tu em João da Cruz? João era o precursor que anunciava o Messias no deserto. Era mais do que um profeta. Tornou-se voz e caminho. João da Cruz é a voz que clama na Noite, uma Chama que arde mais viva do que nunca: o coração inflamado de Deus, o peito magoado de Cristo, a Fonte que mana e corre porque é noite, neste pão vivo que hoje vamos comungar. João da Cruz prepara-nos para esse encontro, convida-nos a que rendamos, a entrar na espessura desse Amor, a viver essa união de amor com Ele, e entre nós, como o bem mais precioso da Igreja – diz o prefácio da Missa.

O que vieste tu visitar e celebrar hoje a Segóvia? Um paraíso neste belo lugar de Segóvia? Um túmulo lindamente restaurado? A memória da sua canonização e doutoramento? Não. Não vieste para celebrar a beleza do lugar, para venerar o seu corpo ou para recordar o que aconteceu há trezentos e cem anos.

Vós viestes convidados para [fazer] uma experiência viva, íntima e comunitária, para um encontro, para a vertigem de se deixarem olhar por aqueles olhos desejados que João tinha e que vocês têm e que eu tenho nas minhas entranhas desenhados. Aqueles que iluminam o caminho todas as noites. [Com] pressa por viver a união do amor, [com] urgência por sair do que não importa, por sair da armadilha da divisão e de esperar pelo amanhã. Viemos à procura da pérola, do tesouro e do segredo que iluminou a vida de João da Cruz: ele passou fome, foi preso, foi encurralado, e dedicou-se a procurar os seus amores, fugiu antes de saltar pela janela da prisão de Toledo, não se deixou sequestrar por homens ou julgamentos humanos, mas pelo veado ferido, por Jesus ferido e apaixonado. Porque ele sabia que Deus nos ama dentro de Si com o amor que tem por Si mesmo: «ama a alma em Si com o mesmo amor com que Se ama a Si mesmo»[1].

A poesia e a voz de João da Cruz nascem da nudez e da união. Para homenageá-lo, também nós temos que nos descalçar e nos render. Basta-nos isso, e é a isso que vos convido: a nos descalçarmos, em nudez e pobreza, aceitar essa Mirada, essa chama que o incendiou em amores no coração da noite. «Quão delicadamente me enamoras!».

Estou, estamos, emocionados por estar aqui!

Aqui ressoam com força aquelas palavras e a pergunta de María Zambrano: «(…) Veio pousar nesta rocha alta sobre o murmúrio do rio, sob este céu limpo, neste ar rarefeito; veio aqui pousar como um pássaro para cantar livremente, desasidamente. Como um pássaro que faz a sua morada no ar, mas que saiu da terra castanha e é castanho como ela, como, enfim, feito da sua substância. E assim, quando canta, por mais livremente que o faça, é como se a própria terra cantasse; como se a própria terra tivesse conseguido libertar-se do seu peso, da gravidade que a retém. Pássaro desta terra, o que canta? O que nos diz no seu canto?».

O seu canto com a liturgia da Palavra de hoje, domingo de Gaudete, diz alegria e regozijo na nudez. Diz força e graça que se dá na máxima pobreza e fraqueza – a que João da Cruz viveu toda a sua vida. Diz encontro e cuidado sem julgamento uns dos outros – tal como João cuidou das amizades saudáveis e se deixou cuidar. Diz que só tornando-nos pequenos somos grandes no reino dos céus.

Percorre[-nos] por dentro um sentimento de profunda gratidão ao recordarmos a sua canonização e o seu doutoramento. E convida-nos a sermos santos e doutores em simplicidade e humildade, em sabedoria do coração, em união e comunhão.

João da Cruz é um profeta urgente, daquilo que importa e do que está em jogo na nossa vida neste momento. Não admite espectadores, pega-nos pela mão e leva-nos ao centro, aproxima-nos da chama, coloca-nos na sua noite, desnuda-nos e coloca-nos diante da Mirada do Amado, deixa-nos que nos percamos para nos deixar encontrar e perceber que quem está apaixonado é Ele, o veado ferido, Cristo. Não nos deixa em si mesmo. Os mestres não amam discípulos imitadores, não querem cópias. João quer que sejas autêntico e que tu escrevas o teu cântico. Sem desculpas. Não há condição negativa, nem noite, nem desprezo ou ferida na tua vida que não possa ser reciclada e convertida em adubo de vida nova, de vida apaixonada.

João é belamente divino e profundamente humano. É preciso conhecê-lo melhor.

Como viver este ano jubilar? Alguém nos dá uma boa consigna: «[Este é] um ano para nos aproximarmos e nos deixarmos interpelar pela profundidade humana e espiritual da sua experiência». «Ler hoje São João da Cruz numa clave jubilar não é um exercício de nostalgia espiritual. É um apelo à conversão». João da Cruz conheceu o desprezo dos seus irmãos, a dureza das relações truncadas, a incompreensão institucional e a «noite» do abandono. E quando uma carmelita descalça daqui, de Segóvia, preocupada, lhe fez ver isso, ele responde à sua carta com esta frase: «E onde não há amor, ponha amor e encontrará amor»[2].

«Colocar amor» é passar do julgamento rápido à escuta atenta; do idealismo espiritual à proximidade real; da crítica à corresponsabilidade. É tornar-se parte, envolver-se, comprometer-se com a sua maneira de «estar com» e «ser com» os outros. O amor de que João fala não é sentimento nem boa intenção: é presença, é cuidado, é apoio. É um acto da vontade. Eu escolho amar. Isso implica passar da queixa estéril à responsabilidade partilhada. Falar de colocar amor é falar de compromisso: intervir, assumir a responsabilidade e criar condições para que ninguém fique exposto ao dano[3].

João da Cruz «teve em vida uma audiência intensa e limitada. Foi carmelita contemplativo, eficaz e sem brilho, inimigo de altos cargos e pouco dado a relações sociais. Nos seus escritos não deixa espaço para os grandes feitos da história contemporânea. Impassível perante os acontecimentos ruidosos, é um fino observador de Deus e do homem que se movem pela vida. Observador, ressonador, intérprete. Não faz gestos, mas vive com paixão: ama, trabalha, ouve, sofre, cala, escreve. Por um estranho destino, tornou-se uma das figuras representativas da hispanidade, do cristianismo, da humanidade»[4].

Para despertarem da armadilha da confrontação e da polarização Espanha, a Igreja e o mundo precisam urgentemente da sabedoria de João da Cruz. Os padres, os religiosos, os cristãos, a sociedade, precisamos de voltar a apaixonar-nos e encontrar a fonte.

Recebi esta manhã, às 8h10, uma mensagem de Alfonso [Díaz Zurdo]. Dizia assim: «Bom dia, Miguel! Acho que hoje vais celebrar a Eucaristia no mesmo lugar e à mesma hora em que fizemos o diaconato há 36 anos, em 1989. Quem diria que voltarias aí no mesmo dia, como Geral da Ordem! Que tenhas um bom dia de aniversário. Um abraço!». [Na verdade, dizia mais coisas, mas vou omiti-las…] Aquele que naquele dia nos ordenou a ambos – Dom Santos – tinha sido arcebispo, no Chile, e tinha-se aposentado – era emérito; e estava em Espanha a fazer o noviciado como Carmelita Descalço e ordenou-nos diáconos, no dia 14 de dezembro de 1989, na capela do sepulcro – [Fomos ordenados por um noviço, é o que eu quero dizer!…].

[Concluindo em modo de acção de graças] convido-vos a um momento de silêncio, pela mão de João da Cruz:

«Fiquei e esqueci-me,
o rosto reclinei sobre o Amado.
Tudo cessou e deixei-me,
deixando meu cuidado
entre os lírios esquecidos».[5]
Quão manso e amoroso
te recordas em meu seio,
onde secretamente só moras
e no teu aspirar saboroso,
bem e glória cheio,
quão delicadamente me enamoras!».[6]

14 de dezembro de 2025


[1]             São João da Cruz – Cântico Espiritual B 32,6.

[2]             São João da Cruz – Carta 26.

[3]             Cfr Blog de María Noel Firpo.

[4]             Federico Ruiz Salvador – Místico y Maestro, Prólogo.

[5]             Noite Escura 8. (Tradução livre)

[6]             São João da Cruz – Chama Viva 4. (Tradução livre)