Armindo Vaz, OCD

A canção italiana de 1972 atirava para o ar a questão batida: «– Perché il mondo va? – Perché intorno al mondo gira l’amore». O amor é que põe o mundo em movimento. Tal pensamento já contava com a concordância da máxima medieval: «Os sábios caminham, os justos correm, os enamorados voam». E se do fim da Idade Média retrocedermos 1500 anos, aprendemos de Platão que uma expressão do Amor é a energia que percorre a vida do mundo, constituindo a rede das suas relações e dos caminhos de possível reencontro com o Bem. Só o amor – com as suas ramificações e encruzilhadas – é capaz de mover o ser. Só o amor consegue preencher todas as possibilidades de ser. Segundo Platão (no discurso de Fedro, 178-180b), o sentimento que guia toda a vida dos humanos pelos critérios da bondade é inspirado, não pelo poder, pela riqueza ou pela honra, mas pelo amor. A bondade, abertura incondicional a fazer o bem, coloca-nos para lá do ser em si: realiza o ser para os outros, prolonga o meu ser até ao outro, enriquecendo-o e enriquecendo-me a mim ao sentir-me aceite por ele. De facto, numa sugestiva produção artística, Platão, imaginando miticamente a origem do Amor-Eros, conta que é filho de Pobreza (Penia) e do deus Engenho (Poros): por um lado, é pobre, indigente, inculto; mas, pelo lado do pai, é ousado, caçador astuto, ávido de sabedoria, rico de recursos e enamorado do saber, engenhoso e encantador, com expediente para anular e superar o estado natural de Pobreza, num movimento do ser que visa alcançar a perfeição possível (Banquete, 203c-d-e). É o Amor-Eros antes da sua eventual perversão ou desumanização. Mas os gregos tinham mais palavras para designar outras valências da incomensurável riqueza do amor, impossível de dizer numa palavra só. As principais são: filía (amor de amizade) e agápe, que atinge o máximo de gratuidade, não escolhe a quem amar mas ama desinteressadamente quem precisa de ser amado.

Das muitas palavras que dizem o amor, a fé bíblica privilegiou agápe, pouco usada no grego clássico (Bento XVI, Deus caritas est, 3-8). Define o próprio Deus (1Jo 4,8.16). E supõe que o Amor é eterno, em Deus. Tornou-se humano na pessoa de Jesus: “Tanto amou Deus o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito” (Jo 3,16). A partir daí, porque Jesus era plenamente homem, o amor humano (o dele) era também divino: pôs o mundo a girar com outra força. Se já em Platão o Amor nos humanos faz com que todos participem do Bem, para Jesus o máximo bem é a vida: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Por isso, “só os que amam aceitam morrer pelo outro” – dizia Platão (Fedro 179b). Jesus concorda: “Eu [o Bom Pastor] dou a minha vida pelas ovelhas” (Jo 10,11.15). “Por isso me ama o Pai: porque dou a minha vida” (Jo 10,17). O dom da vida/ser é a marca e o critério do amor.

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O Amor gera o amado, não enquanto pessoa mas enquanto pessoa amada: fá-lo ser ele próprio, dá-lhe vida, dá a vida por ele, «quer que ele seja» e contribui para isso. Este dom de vida não se traduz apenas numa liturgia dramática de morrer imediatamente pelo outro: acontece ao viver a vida própria ao serviço da do outro; é um dom continuado até à morte: “Jesus, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Jo 13,1).

O ser e agir do Amor, que Platão expôs magistralmente nas pautas de uma partitura, foi executado perfeitamente por Jesus, revelando nas últimas horas o segredo que pautou a sua vida: que ela é dom. Platão disse, Sócrates fez, aceitando morrer pela sua cidade amada, Atenas. Jesus disse e fez: “Como o Pai me amou também eu vos amei a vós” (Jo 15,9). “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13). “Não amemos com palavras nem com a boca mas com obras e verdade” (1Jo 3,18): as palavras voam, o amor arrasta. O amor provado é que constitui o absoluto de uma vida, porque amar é sinónimo de ser: é um verbo defectivo que idealmente só se conjuga no infinito presente; no instante em que deixo de amar, deixo de ser.

O amor não é autocentrado, não tende a satisfazer o desejo do próprio que ama, mas é desejo de bem para o amado. É movimento altruísta: faz irradiar o bem de si próprio para o outro: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jo 15,12)”. Se, assim, o amor for recíproco, quando o amado ama quem o ama, é amor perfeito, retribuído: circula. Transforma em sinfonia a sintonia entre duas pessoas que se amam. Precisamente nisso está a grandeza do Amor: no difundir o Bem. Se «o Ser e o Bem são convertíveis», o Amor difunde o Bem activamente: ao amar, dá o Ser, é criativo e recreativo: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13). É esta a lógica do maior amor: não tem nem pode ter outra. A morte ideal do seguidor de Jesus (com o acordo de Platão) será, não simplesmente morrer, mas «morrer por…», por alguém, mesmo no turbilhão de uma pandemia cega, surda e absurda, se tal morte for inevitável.