Manuel Reis

A Igreja afirma, na sua tradição, que «não pode ter Deus por Pai quem não tiver Maria por Mãe». Ora isto equivale a dizer que «ter Maria por Mãe é ter Deus por Pai». Na verdade, Jesus, «nascido de mulher» (Gl 4, 5), revelou-nos o Pai no horizonte da maternidade divina de Maria: «O Pai das misericórdias quis que a aceitação, por parte da que Ele predestinara para mãe, precedesse a incarnação, para que, assim como uma mulher contribuiu para a morte, também uma mulher contribuísse para a vida» (LG 56).

«O mistério da Encarnação é o trono da misericórdia, da liberalidade e da glória de Deus. É o trono da misericórdia em relação a nós…» (L.M.G. de Montfort, Tratado da verdadeira devoção à SS ma Virgem, 248, pp. 194-19).

Nada melhor, pois, que o regaço maternal de Maria «Mãe de Misericórdia» para experimentarmos sempre o amor paternal de Deus Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo e Nosso Pai, mas de uma maneira intensa durante o «Ano Jubilar da Misericórdia». «Olhemos para a Virgem Maria», «a escolhida do Pai» (Lc 1, 49), que se nos apresenta não só como modelo de amor e de fidelidade a Deus e ao próximo, mas também como nossa incomparável «Mãe de misericórdia», que intercede por nós «desde o berço do baptismo à glória do Céu» (LG 62).

«O Pai escolheu Maria para uma missão única na história da salvação: ser Mãe do Salvador esperado (…). A sua maternidade iniciada em Nazaré e sumamente vivida em Jerusalém ao pé da Cruz, será sentida neste ano com afectuoso e premente convite dirigido a todos os filhos de Deus, para que regressem à casa do Pai, escutando a sua voz materna: “Fazei aquilo que Cristo vos disser” (Jo 2, 5)» (J. Paulo II, TMA 54).

Parafraseando Mt 11, 27, poderemos afirmar que «ninguém conhece o Filho senão a Mãe e ninguém conhece a Mãe senão o Filho e aquele a quem o Filho a quiser revelar». A Mãe revela-nos o Filho e o Filho revela-nos a Mãe: «Senhor, mostra-nos a Mãe e isso nos basta» (Jo 14, 8). «Quem me vê, vê a minha Mãe» (Jo 14, 9). «Ninguém vai à Mãe senão por Mim» (Jo 14, 16). «Não vos deixarei órfãos» (Jo 14, 18). «Dei-lhes a conhecer o teu nome» (Jo 17, 26). «Aquele que me ama será amado por minha Mãe» (Jo 14, 21). «Minha Mãe amá-lo-á» (Jo 14, 22). «A Mãe ama-vos» (Jo 16, 17). Dada a importância de Maria aos olhos de Deus, compreende-se o dito: «Não julgue receber a misericórdia de Deus, aquele que ofende sua santa Mãe» (Guillaume de Paris, «De rethorica divina», 1674). O paralelo entre o Pai do Céu e Maria, Mãe, esteve presente na tradição teológica, na sua relação com Cristo. Na Anunciação, o Pai revelou-se-nos, entregando-nos o Filho, por meio de Maria. Na Cruz, o Filho dá-nos o Pai, tornando-nos, em Maria, também filhos de Deus.

«Nunca ninguém deixou de experimentar o patrocínio muitíssimo favorável de Maria se, cheio de confiança, recorreu a ela; pois ela é nossa mãe. Mãe de piedade e de graça, mãe de misericórdia, que Cristo, quando morria na cruz, nos deu, para que, como Ele orou junto do Pai, também ela intercedesse por nós junto do Filho».