Armindo Vaz, OCD
O ser humano, ao longo da vida, na actividade profissional, nas relações humanas, para viajar, para fugir a perigos, para fazer as melhores opções, para ensinar e educar…, precisa de guias, de guide lines, de indicações, de mapas, de um GPS. O que anda perdido na floresta, se encontra outro perdido sobrevivente, adverte-o na sua procura de caminho para casa: por aqui não vás que de lá já venho eu e não encontrei via de saída. Mas também há os desencontrados consigo próprios que tentam recuperar a memória regeneradora.
Para fugirmos a confusões evitáveis, para não termos a sensação de viver num caos desesperador ou ao sabor de marés e de modas, para não cairmos todos nos mesmos erros na vida e na procura de sentido para a vida, os humanos foram desenhando guias de orientação e de programação da própria vida. O filósofo e teólogo judeu Maimónides (1138-1204) escreveu mesmo o «Guia de perdidos», tresmalhados, perplexos.
No campo da religiosidade, também os fiéis das várias religiões, a partir da sua captação do divino mediante a fé e a luz do Espírito, foram constituindo e instituindo colectâneas de livros, considerados revelação do Transcendente para encaminhar as pessoas pelos caminhos de vida e para afastá-las dos caminhos de perdição. Foi assim que na religião judeo-cristã a fé do povo de Israel e da Igreja apostólica formou ao longo de mais de dez séculos a sua Bíblia, os seus livros sagrados. A partir do fim do séc. II d.C. o judaísmo já tinha fixado o seu «cânone» e os cristãos fixaram o seu em meados do séc. V.
Os deuses das religiões contemporâneas e do mesmo contexto histórico-geográfico em que foi escrita a Bíblia têm as suas imagens gravadas na pedra e desafiam o tempo nos templos que lhes foram dedicados ou nos museus que conservam a sua memória. O Deus da religião bíblica foi escutado na oração e na meditação ao longo de séculos e a sua «palavra viva» foi registada em textos, pouco a pouco compilados e reelaborados em Escritura poderosa, portadora de sentido. Lá está estampado, em vários géneros de narrativa, o sentido último da vida e a razão última da fé judaica e cristã. Sobretudo ao referir-se à vida e obra de Jesus, é uma palavra com poder insuperável: “A Palavra era a luz verdadeira que, vindo a este mundo, ilumina todos os seres humanos… A todos os que a receberam deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, àqueles que aderem com a vida à sua pessoa” (Jo 1,9-12).
Este «guia» que é a Sagrada Escritura assume conscientemente o estatuto de revelação transcendente, pois realmente só assim consegue a sua finalidade, que é a de ancorar o imanente no Transcendente, o relativo no Absoluto, a finitude no Infinito, o transitório no Imutável, o imponderável no Necessário, o absurdo no desassombro. Consultando assiduamente este guia, o leitor sente-se um ser novo, constantemente restituído ao Princípio: “pelo teu nome guias-me e diriges-me” (Sl 31,4).
Uma vez que a Bíblia foi nascendo da vida para generosamente fecundar a vida, se não a tivermos como bússola não admira que tantos crentes andem à deriva pelos caminhos da vida, desandando frequentemente para a angústia, para o desespero e para o absurdo. Conscientes de que as encruzilhadas dos nossos caminhos tornam muito complexa a rede de opções a fazer e de imponderáveis que se nos impõem, resta sempre verdade que olhar para o mapa abre novos caminhos para sair da escuridão e da aflição:
“Mostra-me, Senhor, o caminho que hei-de seguir,
pois estou pendente dele” (Sl 143,8);
“afasta-me do caminho da mentira,
dá-me a graça da tua instrução;
escolhi o caminho da lealdade:
conformo-me às tuas disposições” (Sl 119,29-32).
«Guia de perdidos»!? A Sagrada Escritura conta a história de muitos perdidos que se foram reencontrando em Deus. Mas tem uma proposta universal, especialmente no evangelho de Jesus. Na aventura existencial de cada ser humano, Jesus antecipa-se à desventura de alguém se perder e mostra-lhe a ventura que consiste em segui-lo: “quem me segue não anda nas trevas mas terá a luz da vida” (Jo 8,12), é amado incondicionalmente, sempre e em qualquer circunstância do caminho. Se se perde, soam logo todos os alarmes celestes: “deixa as noventa e nove nos montes para ir procurar a ovelha que se extraviou. Eu vos asseguro que, ao encontrá-la, sente mais alegria por ela do que pelas noventa e nove que não se extraviaram. A vontade do vosso Pai celeste é de que não se perca nem um só destes pequeninos” (Mt 18,12-14).
Ou seja, o guia que se apresenta na Bíblia não é só mapa que orienta: é uma Pessoa que ama e vibra de alegria no encontro com cada ser humano. A vida alimenta-se do sentido que nela encontramos. A fé e a esperança oferecidas pela revelação bíblica ajudam a encontrá-lo no Amor recebido e dado, na medida em que aprendermos a viver do Amor e no amor. Jesus mostrou com o seu estilo de vida que o vazio não é a vida: vazio é vivê-la sem esperança e sem amor.










