La Cueva, a cátedra
Frei João Costa, OCD
1. Chuvoso ia dezembro, e nem a meio, quando passei por Segóvia, norte da minha bússola. Passei, não; parei como quem à boca duma cova se detém diante dos pórticos do céu.
Num pequeno enclave entre o Santuário de Nossa Senhora de la Fuencisla e a Igreja da Vera Cruz há, a meia subida das Penhas Gralheiras, uma cova pequenina que me encanta. Bruta e desprovida, usança dava apenas para um homem semi-recostado – na verdade, hoje já não dá –, e é talvez isso que mais me seduz. Ainda que não goste do edifício que certo bispo mandou ali construir em derredor, a pequenina e isolada cova, sim, atrai-me.
Será de saber, leitor, leitora, que este assunto de covas é coisa muito antiga e carmelita – tal como as cruzes, o caminho, o monte, o sol, os rios, as flores.
2. A cova.
Onde, no Carmelo antigo, expulsando raposas e lacraus, o Profeta Elias, e seus discípulos, recostaram os ossos, senão em covas? E se o Profeta em fogo ali viveu por cíclicas e avantajadas temporadas, onde mais, pois, se haveriam de refugiar do calor abrasador e da neblina húmida e fria? Certamente em covas que, volvidos tantos séculos, se terão bastamente erodido, embora, espero, não totalmente, que hoje a mim uma réstia desses vestígios bastaria para me aquietar. E quando o mesmo Profeta, peco, subiu ao Horeb, donde escuitou ele a brisa suave senão à boca doutra cova? E em que lugar alguma vez lhe brincou a brisa com as grandes barbas e os caracóis do longo cabelo? E na era medieval, onde mais, senão ali mesmo, desprezando honras, conquistas, condecorações, títulos, espadas, arcos e bestas, se agasalharam os primeiros monges carmelitas, herdeiros do fogo e da palavra de Elias? Pois, nas covas que o monte ainda oferecia.
Sabendo que no Horeb o não ver de Elias – estava ele de costas! – favorecera o toque delicado da brisa suave; e que herdeiro era de Elias, de Eliseu e seus discípulos, e dos antigos eremitas do bíblico Carmelo, o que mais haveria de buscar frei João da Cruz para ver a Deus? Uma cova, o que é muito adequado.
Antes da de Segóvia, frei João teve pelo menos outra de eleição. Foi em Pastrana.
Depois das primícias de Duruelo, Pastrana é o segundo convento da Descalcez frailuna, inaugurado a 13 de julho de 1569. Algo como um ano depois, a fim de organizar o noviciado constituído por um variegado plantel de quinze noviços, célere como quem responde a uma emergência, ali acorreu frei João da Cruz. A situação era desafiadora, mas ele resolveu-a a contento. Não existem muitas notícias, mas uma, permanecendo no coração e na boca dos daquela vila ducal, atravessou os nevoeiros da história: lá pelo meio daquelas terras, não muito mais para além de quinhentos metros do Carmo, plantara Deus a Cova dos Mouros. Fora esta utilizada ao longo dos séculos, quer como refúgio de passantes e bandoleiros, quer como resguardo de rebanhos imensos. Monges e ascetas também a habitaram. E a seu tempo, nela também se recolheu frei João da Cruz. Na verdade, não se trata bem duma cova, mas dum conjunto de galerias com saídas várias para o exterior. Algures a meio, numa espécie de encruzilhada, talharam uma abertura de uns cinco metros de altura, por onde se vê o céu! Que mão a rasgou não se sabe, já sim, reconhece-se nas paredes, uma série de sinais que não correspondem a nenhum tipo de escrita conhecida. Era por entre estranhas palavras escritas na escura parede e, por esta nesga de luz rasgada no negro ventre da terra, que frei João mais gostava de mirar o céu!
Um homem que aprecie contemplar o céu faz bem em recluir-se numa cova; se é certo que diminui o horizonte, também é certo que por mais mínimo traço que mire, por demais o valoriza.
3. Frei João da Cruz residiu em Segóvia desde o fim do verão de 1588 até ao verão de 1591. Neste período comprou parcelas várias de terra, terrículas e penhascos por forma a ampliar o pequeno aido conventual (e evitar vizinhanças indisciplinadas e indiscretas). Ah, e encheu de farta terra negra os baixios das penhas, para que dessem bom cultivo e sustentassem os frades que o Capítulo lhe entregara, os conselheiros da Consulta, os estudantes e noviços que se achegavam. Em meio às parcelas compradas está uma pedreira, donde ele e seus frades rasgarão, medirão e afeiçoarão pedra para a igreja e o convento que ele riscou no chão, cujas fundações lançou e depois ergueu, mais como pedreiro que como místico, tal como, aliás, ainda hoje se veem. E houve ainda de cercar as leiras e leiranchos, o convento, o quintal, a pedreira e os penhascos de vigorosa cerca.
À sua saída de Segóvia – uns quatro ou cinco meses antes de morrer… – a igreja ficou erguida até às cornijas (a capela onde ora repousa o seu corpo só seria construída posteriormente…); o claustro erguia-se acima das arcadas; e deixou os frades acomodados nas celas da ala que dá para o alcácer – empreitada assaz notável, diga-se, para apenas dois anos de trabalho, quando, para mais, teve de demorar-se em viagens, ocupar-se das tarefas da presidência da Consulta que geria a Província, além das do convento, do cuidado das descalças, de tanto mais…
Foi aquela uma empreita feliz, lavrada desde a raiz, desde o risco no chão e do rasgar do ventre da terra, com poemas e com picos e martelos, até a perpendicularizar e subir o bastante as paredes.
4. Durante aquele período, frei João da Cruz foi um verdadeiro operário e pai de operários, artesão tanto da cal e da pedra como da palavra e do silêncio. No confessionário, no púlpito, por carta, nos seus escritos espirituais, na ermida alta, nos negócios de compra de terras. Por dois anos, a esse homem de fogo, os frades o viram descalço como um peão, descalço entre os caboucos, descalço na pedreira, descalço nos andaimes, descalço na neve, descalço rezando, ora carregando pedra, ora argamassa, ora ferragens e madeiras, animando uns, cuidando outros, e preocupando-se pela saúde de todos os operários, frades ou não, cuidando que a ninguém algo faltasse. Nem o ânimo.
Nevasse que não nevasse, alegre e afável, frei João andava sempre descalço, hábito arregaçado e a alva cabeça descoberta, e se mais nevando mais parecia que ardia, pegando fogo a todos. Que obra! Que homem!
Consta que a sua cela era a mais pequena e a mais vazia de livros, não havendo nela mais que uma grande cruz de madeira, uma estampa da Virgem na parede, um catre nu. Uma tábua presa por ganchos à parede fazia de mesa, com uma bíblia. E havia um pombo que fizera morada no cabeço da sua porta.
Operários contratados e frades da casa trabalharam lado a lado, valendo um destes sete daqueles! Uns e outros viram-no trabalhador e homem de silêncio e oração. São eles que o dizem e no-lo fazem constar: naquele lugar onde a penha verdadeiramente se encarpa e faz difícil, existe, em certo recanto, uma cova. Dizem que a certas horas do dia aí subia frei João para nela rezar, mas que, sobretudo, ali rezava durante a noite! Ninguém sabe quantas horas ficava acordado a rezar, a contemplar, a dormir, não; o certo é que em certas linhas se lê que «ele ali viveu durante a construção do convento»; de facto, não parece acertado que ali vivesse e dormisse – que outras notícias há da sua pequena cela junto ao coro –, já, porém, relevo que do tanto que ali permanecia a rezar, parecesse que ali vivia.
Depois que comprou aqueles bravios monturos e penhas, o primeiro que fez foi abrir caminhos. E visto que hoje parecem veredas de arquitecto, cá para mim, porém, foram seus pés descalços que afeiçoaram e aplanaram aquela terra quase virgem e amaciaram aquelas calcárias pedras, por onde hoje tão agradável é passear e subir.
De cada vez que ali vou – de dez em dez anos, talvez –, cuido vê-lo lento subindo por entre cedros altos, lírios e pedrelhuscos. E no chão da pequena cova, um pouco ao lado, as sandálias cambadas e desgastadas.
5. Não posso duvidar das muitas horas de vigília que ali tenha frei João passado naquele alcantil sobre o abismo, até porque se tirarmos as paredes do actual ermitério a paisagem é soberba. Em baixo corre sereno o Eresma, e à volta, lá pelas arriscadas cumeadas, gravitam negras gralhas que, ao contrário dos frades, nunca dali foram nem enxotadas nem caladas. Desse covachozinho, rasgado ao que parece, logo não natural, viu ele, e veem-se ainda, não de todo ao perto, mas ao longe, searas loiras, serras, montes, caminhos e cumeadas quase sempre nevadas; e ao de cerca, uma cidade com seu nobre alcácer. Sabe, leitor, leitora, que dali se via claramente visto o mundo e o universo, pois que o covacho não tem profundidade alguma, antes se oferece como doce recosto; e se por cima é verdade que cobria quem ali se recostasse, não o cumpria para defesa de bichos ou demónios, mas como quem fazia descer a capucha sobre a testa sem vedar o olhar. Quero por igual pensar ou sonhar, que foi o Santo quem propositadamente rasgou essa covinha sobre o abismo. Quero pensar ou sonhar que o fez para mansamente se abismar diante da beleza que o Criador ali prodigalizava, quer no estrelado céu que a cobria, quer no sol que aquece e brune as pedras, os caminhos e as searas, quer nos nevoeiros densos e nas generosas fontes de cerrados nevoeiros e de chuva rala mas intensa. Sim, quero pensar, e creio não errar, no que ninguém jamais viu ou cuidou: que indo alta e recostada a noite, o Santo ali deixava o corpo e, sem que ninguém jamais o visse ou testemunhasse, como convém, a meiga alma dali era raptada pelos doces laços do Amado! Sim, quero eu pensar que tudo isso se dava e se deu por meses a fio, que eu, quando por lá vou, e por lá paro, ainda é isso que oiço dizer à brisa suave que por lá brinca com os chamiços, as margaridas, as ervinhas e os lírios do chão. Sim, é isso, ou como se haveria de entender que frei João se arroubava naquela desnuda covachuela? Se para ali não ia dormir, que não ia, como se haverá de entender a declaração dos que dizem que regressava ao convento tão endeusado, e com o rosto tão formoso e aceso, que parecia deitar chamas e reverberar resplendores, qual Moisés em pós a comunicação com Deus?
Sim, sim, sendo frei João mais alma e espírito que o achicado corpo, tão pronto quanto possível talhara ele aquela covazinha; não profunda, quase só raspada no arenito. Não para se ocultar, antes para ver. Para mirar o entorno cheio de belas notícias da formosura de Deus! Ah, benditos frades carmelitas descalços, bendito frei Alberto da Mãe de Deus, benditos Alonso de Jesus, Lucas de São José, Barnabé de Jesus, João Evangelista, Pablo de Santa Maria, António do Espírito Santo, natural de Lisboa, Inocêncio de Santo André, Luis, Pedro, António, Francisco, Alberto… ah, benditos frades; benditos discípulos seus – Miguel de Angulo e Antonio de Alemán – que no terreiro da ermida mais alta lhe escuitastes os seus versos, porque dormíeis quando vosso pai arroubado voava? Porque é que vós, cónegos da formosa sé de Segóvia, porque é que vós, doña Ana de Mercado e vosso irmão don Luís, presbítero, e porque é que vós Jerónimo Carrión e Francisca de Velasco, sempre recostáveis a cabeça de olhos ocultos e cerrados, quando um farol iluminava as cercas e os longes de Segóvia, para lá de Ávila, para lá de Salamanca, para lá de Ciudad Rodrigo, para lá da raia, para lá de muito longe, até ao mar? Porquê?
Porque dormistes, amigos? Porque dormíeis, discípulos? Porque tão baço vimos ainda hoje que, parece, seguimos dormindo?
6. Doña Ana e seu irmão don Luís foram quem maiormente financiaram a construção daquele convento e igreja. Diz-se que quando o mestre frei João da Cruz os visitava em sua casa, sempre lhes dava um desgosto porque, ou se sentava no chão, como um discípulo, a ouvi-los e a falar-lhes, ou no assento mais baixo e humilde. Porém, eu não duvido dos raptos daquela covachuela. Ninguém os viu, é certo; ninguém jamais os filmou. E lá falar ela não fala, a menos que alguém aprenda o linguajar das covas e covachos. Por isso mesmo, eu não os valorizo tanto assim, entendam. Já sim, tenho muito e muito apreço pelo sepulcro que lhe deram dois anos depois da morte. Não aquele tão alto e aformoseado, que tem um século ou coisa que o valha, mas aqueloutra sepultura escura e negra caixa, baixa e anónima, em que delicadamente o depositaram rés ao chão.
A cova, sempre a cova – a cova até ao fim. Uma cova post mortem, sempre uma cova obscura como o mistério, uma cova falando mais que a boca dum sábio. A cova, uma cova na terra, uma cova onde «yo no supe dónde estaba, / pero, cuando allí me vi, / sin saber dónde me estaba, / grandes cosas entendí; / no diré lo que sentí, / que me quedé no sabiendo, / toda ciencia trascendiendo».
Uma cova onde «grandes coisas entendi» e onde «me quedé no sabiendo». E se ele não sabe…
Ele não sabe. Mas Santa Teresa sabe, e bem, porque viu e testemunhou que em Duruelo, raiz e princípios da nossa Descalcez, frei João fundou um conventinho tão pequenino e desenculatrado que pedia meças à gruta de Belém, digo, que de tão pobre, não dava menos devoção que esta.
7. Talvez ele não saiba, não, mas ela sabe.










