Jorge Vaz

Já muito foi dito e escrito sobre a misericórdia, sobretudo neste Ano Santo que lhe é dedicado, mas imensamente mais é o que falta revelar. E porque «contemplar o mistério da misericórdia é fonte de alegria, serenidade e paz» (RM 2), façam o obséquio.

A misericórdia procede de Deus Amor.

Se o amor de Deus se manifesta em toda a obra da criação, mormente ao criar o Homem à sua imagem e semelhança, a sua misericórdia manifesta-se logo que o Homem se desvia do caminho do bem, enviando-lhe homens justos e sábios, inspirados por Ele para lhe revelar o seu Amor e a sua vontade, como exprime a Oração eucarística IV: «Pelos profetas os formou na esperança da salvação». Os Profetas e os Sábios/Salmistas não se cansam de anunciar e cantar a infinita misericórdia divina.

Mas a grande manifestação da Misericórdia divina acontece «na plenitude do tempo», quando «Deus enviou e o seu Filho, nascido de uma mulher» (Gl 4,4). Manifestou-a não só por meio de «palavras de vida eterna» mas também por obras múltiplas – assistido pelo Espírito «passou fazendo o bem e curando a todos» (Act 10, 38): «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres» (cf. Lc 4,18; Is 61,1s) A Boa-Nova é: «Deus amou-nos tanto que nos enviou o seu Filho para nos salvar» (ver Jo 3,16s). A Boa-Nova – o Evangelho – é Jesus, o «Rosto da misericórdia do Pai»: «Quem Me vê, vê o Pai» (Jo 14,9).

«Em Jesus revelou-se o máximo nível de humanismo e é o amor que mede esse humanismo. O seu jeito de amar é para todos o padrão supremo de humanismo» (Felicísimo Martínez Díez).

A vocação suprema do Homem é atingir a perfeição, e o modelo de homem perfeito é Jesus Cristo.

Quem quiser ser perfeito deve fixar o olhar no modelo, e procurar copiar, imitar, fazer como Ele fez, viver como Ele viveu.

Ele levou o seu amor por nós até ao extremo (cf. Jo 13,1). Tudo o que fez e ensinou tem como valor supremo o amor e tudo o que este supõe: serviço, dedicação, comunicação, perdão, reconciliação. Tudo isto entra no conceito e na praxis da misericórdia.

Interrogado sobre o essencial da lei e dos profetas Jesus sintetiza-o no amor a Deus e ao próximo (cf. Lc 10,27). «E quem é o meu próximo?» – perguntamos com o Doutor da lei. E escutamos Jesus responder-nos: no caminho que trilhas está alguém caído, maltratado, abandonado, desesperado, doente, triste, faminto… a gritar s.o.s., e tu deves escutar e olhar com compaixão, aproximar-te e cuidar essa pessoa como se fosses tu mesmo. Deves ser ‘próximo’ dos pobres, fracos, doentes, pequeninos, pecadores, com os mesmos sentimentos de Jesus que, «sendo de condição divina… Se aniquilou a Si próprio» (Fl 2,6s), ‘aproximou-Se’ de nós, fez-Se tudo para todos, para «salvar o que estava perdido»(Lc 19,10). Para Ele um destes ‘perdidos’ vale mais do que noventa e nove justos (cf. Lc 15,4-7). Por cada um deles, e por mim, deu Jesus a vida.

O nosso ‘próximo’ mais qualificado é Jesus que, sendo Deus, transcendente, Se ‘aproximou’ de nós. Jesus foi nosso ‘próximo’ vivendo connosco e, de modo particular, morrendo por amor de nós para curar as nossas feridas do pecado – «fomos curados pelas suas chagas » (Is 53,5).

Neste sentido, podemos afirmar que Jesus Cristo é o Bom Samaritano por excelência de todos os tempos. «Ainda hoje, como bom samaritano, vem ao encontro de todos os homens atribulados no corpo ou no espírito» (Prefácio comum VIII).

O modo de agir e de reagir do Deus de Jesus é a compaixão/misericórdia. Deus sente pelos humanos o que uma mãe sente pelo filho do seu ventre (cf. Is 49,15). A misericórdia ou compaixão não é apenas um atributo divino. É a própria maneira de ser de Deus.

Ora, esse ser de Deus manifestou-se incarnado/materializado na pessoa de Jesus de Nazaré. Ele, que é a medida exacta do agir de Deus, é o seu rosto misericordioso e identifica-Se com Ele. De facto, passou toda a sua vida fazendo-Se ‘próximo’ dos maltratados pela vida para lhes mostrar que têm um lugar especial no coração de Deus. O que Ele fez foi mais do que acabar com a miséria e com os maus-tratos a humanos. Ele desencadeou uma revolução na história humana, mostrando que é o próprio Deus que está do lado dos injustiçados, dos humilhados e ofendidos, dos pequeninos e dos desgraçados, mas que precisa dos humanos para concretizar o seu projecto de os acarinhar e de os salvar. E dá tanto apreço ao auxílio que prestamos aos necessitados, que atribui como feito a Ele mesmo o bem que fazemos aos outros: “Sempre que socorrestes um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo socorrestes” (cf Mt 25, 40).

‘Próximo’ sou eu que, perante o necessitado, tenho um estremecimento que me faz sentir a misericórdia divina, me torna participante dela e a prolonga no necessitado. Ele emite um grito como quem estende a mão à procura de socorro. Ao ‘aproximar-me’ dele, ao preocupar-me dele, torno-me ‘próximo’ dele.

Precisam-se bons samaritanos que tomem como suas as causas dos pobres e de todos os que sofrem. O amor, e a misericórdia são os meios que Jesus nos deixa para salvar a Humanidade que se afunda e languidesce porque abunda o sofrimento, alastra a miséria, aumenta o isolamento. Perante o terrorismo desenfreado, as guerras fratricidas, a exploração dos sem escrúpulos, são cada vez mais os milhares de vítimas que demandam refúgio e condições de sobrevivência nos países mais desenvolvidos. Não é preciso ser crente para sentir-se impelido a ajudar os outros, basta ser humano, ter coração; mas os cristãos têm uma alma que os impele a «fazer as mesmas obras de Cristo e ainda maiores» (cf. Jo 14,12). «Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós» (Jo 15,4).

Permanecer em Cristo, ser cristão, consiste em amar-nos uns aos outros como Ele nos amou, (cf. Jo 13,34s; 15, 12) isto é, em sermos «misericordiosos como o Pai». E é por isto que todos conhecerão que somos seus discípulos.