Armindo Vaz, OCD

A Europa associa o mês de Agosto a tempo de férias, de suspensão ou de abrandamento dos trabalhos habituais do ano. Férias! Tempo de encontros e reencontros, celebrações e romarias, festas e festins, viagens e visitas, partidas e chegadas, retiros e retiradas à praia, à montanha…; tempo de sossego e desassossego. Férias quietas, na quietude interior e na inquietação da fé que procura e se conjuga com emoções e aventuras. Para as deste ano, descansamos a atenção mais no tempo do que nas férias.

É um dos pensamentos provocantes com que se enfrenta a inteligência e a existência humanas, não tanto pelos contratempos. É célebre o discorrer de S. Agostinho filosofando sobre o fenómeno tempo: “Que realidade mais familiar e conhecida do que o tempo evocamos na nossa conversação? E, quando falamos dele, sem dúvida compreendemos; e também compreendemos quando ouvimos alguém falar dele. O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas, se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei” (Confissões, XI, 14, 17). Conhecemos o tempo astronómico ou cósmico, o tempo que medimos com relógios e o do calendário. Mais interesse suscita o tempo humano, enquanto extensão da alma, que, recordando e esperando no presente, vive o passado e o futuro. Embora o tempo cósmico corra sempre invariavelmente, o tempo humano decorre mais ou menos depressa segundo os estados de alma. Para a pessoa feliz, o tempo de vida é brevíssimo; para quem passa horas de infelicidade, é infindável. Nos jogos limitados pelo tempo, para a equipa que está a ganhar o tempo passa lentamente: receia vir a perder. Para a que está a perder, passa demasiado depressa: quer mais tempo para vencer.

No Ocidente do bem-estar, o nevoeiro do tempo torna-se problema sobretudo por causa da brevidade da vida humana. É precioso: não tem preço. É o que mais falta a algumas pessoas. Têm agendas preenchidas e relógios de ouro, mas não dispõem de tempo para amar. Por isso, “tenho fome da extensão do tempo” (Fernando PESSOA, Livro do desassossego, fragmento 14). Corre nas nossas veias o prenúncio da insuperável fugacidade da vida: “fugit irreparabile tempus” (Virgílio, Geórgicas, III, 284): o tempo foge irrecuperável, irreversível, irrepetível. Repetem a ideia os poetas: “Todo pasa y todo queda, pero lo nuestro es passar: Tudo passa e tudo fica, mas o próprio de nós é passar” – poetizava Antonio Machado (em Cantares y Proverbios, retomando o velho adágio medieval castelhano «lo nuestro es passar»). Resta-nos viver de modo que “exultemos e nos alegremos todos os nossos dias” – como reza o bíblico salmo 90 sugerindo: a caducidade da vida é inevitável, saber enchê-la de sentido é a grande ciência humana. Porque “o tempo é breve” (1Cor 7,29), somos pressionados a vivê-lo bem, fazendo o bem quanto antes, porque o mal não perde tempo. De facto, “a vida é o que fazemos dela” (Fernando PESSOA, Livro do Desassossego por Bernardo Soares: Fragmento 451). Sem perder muito tempo a chorar o tempo passado e «a dimensão perdida», importa mesmo olhar para o futuro com a esperança de ocupar o tempo na actividade certa com as pessoas certas: as que precisam da minha atenção.

Essa ocupação do tempo torna-o humano! Realmente, o tempo em si, que interessa à filosofia, é difícil de agarrar, invisível. Vemos as coisas, as pessoas e os acontecimentos imersos no tempo. Sentimos a nossa história pessoal, familiar, social, envolta na nebulosa do tempo. Mas a ele não o apanhamos. Apanha-nos ele a nós se não o aproveitamos. Decisiva é, pois, a questão do «ser e tempo», introduzindo nele o factor relação: relação dele com o ser das pessoas. Daí sai a solução de viver bem a relação com o que se situa no tempo: o universo, a Terra, as pessoas.

A este propósito, note-se que tampouco na Bíblia o tempo é vazio, o abstracto passar segundo um antes e um depois. Identifica-se com os acontecimentos da vida que nele decorrem e o enchem. Aí, o maior transformador que, qual mágico alambique, dá sentido ao tempo é «o amor não de qualquer maneira», isto é, o amor de veras, o antídoto que consegue por instantes parar o tempo, enfrentar a transitoriedade da vida e a morte e presentear momentos de plenitude. É verdade. Precisamente no amor que nos subtrai ao tempo fugaz torna-se particularmente dramática a brevidade da existência e da felicidade humanas: o tempo corre contra o amor. Mas então surge o desafio a pensar que o amor vence o tempo. Há quem assim pense: “Omnia vincit amor: o amor triunfa de tudo” (Virgílio, Bucólicas, X, 69); “o amor nunca cai” (1Cor 13,8). O grande investimento da vida seria cambiar o tempo que morre em amor eterno. Enquanto a maior limitação no tempo de uma pessoa é a incapacidade de o encher com amor, o que marca o homem superior é saber encher o seu tempo de acções de amor que o salvem. Aí o tempo revela funções importantes: cura feridas causadas pela vida, devolve a paz a corações atribulados, possibilita a esperança aos desalentados e garante o esquecimento de momentos angustiantes bem como a recordação de instantes felizes.

É o que querem ser as férias: tempo feliz vivido intensamente para recordar depois, subindo-o ao coração. As pessoas, as paisagens com que nos encantámos calam fundo, permanecem e contagiam de tons alegres o tempo do ano.