Armindo Vaz, OCD

Nas celebrações do centenário dos acontecimentos de Fátima, a interpretação da experiência dos pastorinhos abriu-se de novo ao debate. Fala-se de «aparições». São visões interiores, de ordem espiritual, da ordem do espírito e não do físico. Embora os videntes, como os místicos, sentissem tendência para dizer que a “Senhora tão linda” estava na azinheira (é isso de facto o que a-parece ao vidente e que, nessa medida, se pode chamar a-parição), ela estava realmente no interior deles, numa experiência místico-religiosa. Isso, porém, não tira à visão o carácter de real. Nem é inventada pela fantasia. Tem, inevitavelmente, uma carga de subjectividade, como tudo o que é captado pelos humanos. Mas a sua essência está na força do Transcendente que se impõe e se revela ao vidente, na medida da sua abertura ao divino na meditação-oração-contemplação assídua: o Espírito divino comunicou-se ao espírito humano. A percepção era interior, existencial, invisível aos olhos da carne do comum mortal, mas cheia de verdade. A objectividade factual não detém o monopólio da realidade mais verdadeira. Quase se poderia chamar percepção empírica (no sentido de experiência imediata): mas é mediada pela fé. Como dizia no ano 2000 o Cardeal Ratzinger, «é claro que nas visões de Lourdes, Fátima, etc., não se trata da percepção externa normal dos sentidos: as imagens e as figuras vistas não se encontram exteriormente no espaço circundante, como se encontram, por exemplo, uma árvore ou uma casa. Isso é totalmente evidente no que diz respeito à visão do inferno (descrita na primeira parte do segredo de Fátima)… Trata-se de percepção interior, que certamente tem para o vidente uma força de presença, que para ele equivale à manifestação externa sensível”.

O que os pastorinhos viam mediante a fé era do género das «aparições» bíblicas, que eram visões interiores, imagéticas, por meio de imagens: longe de serem fantasia, descreviam e transfiguravam (sem falsear) a realidade. São comparáveis às visões tidas pelos profetas Ezequiel, Daniel, vidente do Apocalipse (que falava em nome de Deus das perseguições dos cristãos)… Daniel no capítulo 7 pinta a realidade histórica (a que se percebe na “interpretação das visões”: versículos 15-27), mas por meio de imagens, que à letra não correspondem a algo factual (a descrição da 3ª parte do segredo pela Irmã Lúcia procede da mesma forma: conta a realidade histórica, mas por imagens: anjo, espada de fogo, «luz imensa que é Deus», bispo vestido de branco e outros bispos a subirem uma montanha encimada por uma cruz, soldados a dispararem contra o Papa…). Parte da credibilidade e da importância das visões de Fátima está precisamente no facto de se colocarem em linha com as representações e expressões da fé bíblica.

Mas o que mais prende a meditação sobre esta experiência mística dos pastorinhos é o facto de ela surgir na hora certa da história, impregnada de espírito profético, imbuída do sentido de missão. Se o que importa em história é a verdade global dos factos que a fazem e o sentido que os torna provocantes, Fátima situa-se nessa linha. Brota de uma experiência real que mexe com os acontecimentos significativos da história mundial do tempo, no princípio do séc. XX. Estava em curso a trituradora violência da guerra mundial em que a Rússia gerava particular preocupação, pela onda de destruição humana que desencadeava e pela expansão das ideias bolcheviques que inquietavam os espíritos europeus com a revolução de 1917. A Igreja era perseguida. A primeira grande tragédia da história do século XX varria vidas humanas, consideradas dispensáveis. O materialismo exacerbado e a instabilidade da Primeira República completavam o contexto gerador de medos e de angústia social.

Em tudo isto, os pastorinhos estavam do lado certo da vida, a gritar por humanidade e paz. As suas visões correspondiam bem à visão que uma humanidade autêntica deveria ter à luz da revelação bíblica. O que escutavam da “Senhora tão linda…, mais brilhante que o sol” soava como grito de alerta aos responsáveis pela governação do mundo e aos «senhores da guerra», para que parassem tanta irresponsabilidade e a ceifa brutal de tantas vidas humanas. Apelava à consciência da humanidade para perceber a gravidade da hora histórica que se vivia: era o grito dos pequenos inocentes de uma aldeia a pedir aos grandes da Terra que deixassem de ser insensíveis ao mal, por eles banalizado. Perante tanta insensatez, às crianças restava a palavra e… a oração: «Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos». A adoração respondia à manifestação da transcendência, que, por meio do «anjo da paz» e da mãe de Jesus, vinha visitar a imanência histórica; comprometia a humanidade em guerra e apelava à sua conversão.

A incontável multidão que por ocasião da canonização dos pastorinhos rezou com o Papa Francisco continuou o grito colectivo de todos os peregrinos a Fátima, a ser ouvido por Deus Todo-poderoso mas também pelos poderosos do mundo, para que estes actuem ao serviço das pessoas e governem com um mínimo de decoro humano, evitando a vergonha de desvalorizar a dignidade humana.