Armindo Vaz
Numa feliz sequência, terminado o 5º Centenário do Nascimento de Teresa de Ávila, eis que começa o Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Se são os místicos as melhores testemunhas da experiência de Deus e aqueles que não deixam banalizar a Sua imagem, Teresa de Jesus é um dos mais altos arautos do rosto misericordioso de Deus, aparecido na pessoa de Jesus. A experiência que Teresa fez de Deus passou muito pela percepção da Sua «misericórdia, conceito fundamental do evangelho e clave da vida cristã» (título do livro do cardeal Walter Kasper).
De facto, um ano antes de morrer, Teresa relia ou cantava a sua vida inteira – qual partitura musical – na clave da «misericórdia de Deus». Como a clave musical dá valor às notas que seguem, assim a misericórdia de Deus deu o tom a toda a vida de Teresa: “Com quanta razão as posso eu para sempre cantar [as vossas misericórdias]! Ó meu Deus, eu Vos suplico que seja assim e que eu as cante sem fim, já que quisestes tê-las tão grandes para comigo” (Livro da Vida 14,10-11). Assim fazia ela ecoar o Salmo 89,2, tal como aparecia na Vulgata e na liturgia (88,2): “as misericórdias do Senhor cantarei eternamente”.
O amor gratuito de Deus modelou toda a sua vida de mulher crente, vivida em resposta ao Amor. A sabedoria dela neste ponto estava em ter a nítida consciência de que a sua história pessoal era a história da misericórdia de Deus para com ela, sendo a dela uma miniatura da história da salvação bíblica. Como Maria no seu magnificat (outra miniatura da história da salvação) liga duas vezes a grandeza de Deus à sua misericórdia (“lembrado da misericórdia… a favor de Abraão e dos seus descendentes para sempre”), também Teresa canta o seu magnificat pessoal: “Admirada, penso muitas vezes na imensa bondade de Deus; e a minha alma consola-se a contemplar a sua grande magnificência e misericórdia” (Livro da Vida 4,10). “Ó meu Deus…, muitas vezes a dor das minhas grandes culpas é mitigada pela consolação de pensar que elas darão a conhecer a grandeza da vossa misericórdia” (Livro da Vida 4,3). “Fazei resplandecer [em mim, pecadora] a Vossa misericórdia” (Exclamações 10,3). Do Livro da sua Vida diz ela a um padre que lhe escreveu falando-lhe do profundo impacto que lhe tinha causado a sua leitura: “Assim intitulei esse livro «Das misericórdias de Deus»” ( Carta a D. Pedro de Castro, Ávila 19.11.1581).
Perante o pecado humano, toda a comunicação de Deus se exprime em termos de misericórdia: “Quanto maior o mal, mais resplandece o bem imenso das vossas misericórdias” (Livro da Vida 14,10). “Pensemo-lo bem: nunca poderemos acabar de entender o que devemos a Deus nosso Senhor e às magnificências da sua misericórdia” (Exclamações 10,3).
Como Teresa diz (em Fundações 5,2), todos somos capazes de amar, especialmente se nos sentimos amados. Por isso, procurou responder e exortou a responder com um amor que tenha como bitola o amor/misericórdia de Deus por nós.










